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Um Contrato Para Chamar de Amor
Um Contrato Para Chamar de Amor
Por: Laura Paes DIas
Capítulo 1 O Pagamento Desaparecido

Harper Bennett descobriu que o universo a odiava às quatro e dezessete da tarde de uma quinta-feira chuvosa.

Não havia outra explicação razoável.

A inauguração mais importante da história da Wild Bloom começaria em menos de três horas, o teto de flores do salão principal estava torto, uma caixa inteira de velas havia chegado na cor errada e o pagamento que deveria salvar a estufa de sua avó simplesmente desaparecera do sistema.

Além disso, alguém havia colocado rosas brancas ao lado de tulipas amarelas.

Aquilo, definitivamente, era pessoal.

— Quem fez isso? — perguntou Harper, parada no centro do salão de festas do recém-construído Calloway Grand Seattle.

Nenhum dos oito funcionários ao redor respondeu.

Harper apontou para o arranjo sobre uma das mesas.

— Tulipas amarelas significam alegria. Rosas brancas significam pureza. Juntas, desse jeito, significam que alguém não leu a planilha que eu mandei três vezes.

Maya, sua assistente, ergueu a mão com cuidado.

— Tecnicamente, significam flores.

Harper lançou um olhar para ela.

— Você está há quatro meses trabalhando comigo. Já deveria saber que nenhuma flor é apenas uma flor.

— E eu deveria saber por que você fala com elas quando está nervosa?

— Elas escutam melhor do que pessoas.

Maya olhou para os outros funcionários.

— Ela está falando de mim.

— Estou falando de todos vocês.

Harper fechou os olhos por um segundo e respirou fundo.

Aquilo deveria ser o maior trabalho da carreira dela.

O novo Calloway Grand ocupava quase um quarteirão inteiro no centro de Seattle, com uma fachada de vidro que refletia o céu cinzento, cinquenta andares de suítes luxuosas e um salão principal tão grande que Harper havia passado duas noites acordada imaginando como preenchê-lo sem fazer parecer um casamento exagerado de celebridades.

Sua proposta tinha sido simples: trazer um jardim suspenso para dentro do hotel.

Galhos de cerejeira, pequenas luzes douradas, paredes cobertas de folhagens, mesas decoradas com flores em tons de creme, vinho e verde profundo. Elegante, acolhedor e vivo. Exatamente o oposto da arquitetura fria e impecável do prédio.

Harper gostava de pensar que havia vencido uma batalha contra o concreto.

Agora, porém, o concreto parecia estar vencendo de volta.

Seu celular vibrou no bolso do macacão verde-escuro. Ela o tirou com tanta rapidez que quase o deixou cair.

A mensagem do banco surgiu na tela.

Pagamento não identificado. Prazo final mantido.

O estômago dela se contraiu.

Harper releu as palavras como se, na segunda vez, elas pudessem se transformar em algo menos cruel.

Não se transformaram.

— Harper? — chamou Maya, baixando a voz. — Alguma coisa aconteceu?

Ela desligou a tela.

— Não.

— Você fez aquela cara.

— Que cara?

— A cara de quem está a dois segundos de sorrir e dizer “está tudo bem”, antes de incendiar um prédio.

Harper abriu um sorriso.

— Está tudo bem.

Maya recuou.

— Certo. Vou procurar o extintor.

Harper virou-se antes que a amiga pudesse observar o medo se instalando em seu rosto.

Não havia tempo para desmoronar.

A estufa Bennett estava na família havia mais de quarenta anos. Sua avó, Rose, transformara aquele lugar em um pequeno refúgio no meio da cidade, cheio de ervas, flores e memórias. Harper aprendera a plantar ali, aprendera a reconhecer o perfume das gardênias antes mesmo de saber escrever o próprio nome e, anos depois, usara o espaço para criar a Wild Bloom.

Agora, por causa de empréstimos antigos, contas médicas e uma sequência de meses ruins, o banco ameaçava tomar tudo.

O pagamento daquele evento não resolveria todos os problemas, mas compraria tempo.

Tempo para respirar.

Tempo para negociar.

Tempo para impedir que homens de terno entrassem na estufa com documentos e saíssem com quarenta anos da vida de sua família.

Harper apertou o celular na mão.

— Maya, o financeiro do hotel respondeu?

— Disseram que o pagamento foi processado ontem.

— Não caiu.

— Eu sei.

— Então não foi processado.

— Eu também sei.

— E eles sabem que nós sabemos?

— Depois dos seus seis e-mails, acredito que sim.

Harper ergueu o queixo.

— Foram cinco.

Maya mostrou a tela do celular.

— Você mandou outro há três minutos.

— Então foram seis.

Antes que Harper pudesse dizer mais alguma coisa, um funcionário do hotel passou carregando duas caixas de taças. Ela o interceptou.

— Com licença. Preciso falar com o responsável pelo evento.

O rapaz hesitou.

— A senhora Morgan está numa reunião.

— Há quarenta minutos.

— É uma reunião importante.

— Eu também sou importante.

Ele olhou para o crachá preso ao macacão dela, onde se lia Wild Bloom — Harper Bennett, como se estivesse tentando decidir se aquilo era verdade.

Harper sorriu.

O rapaz acelerou o passo.

— Isso foi um não? — perguntou Maya.

— Isso foi um homem escolhendo a covardia.

Harper passou os dedos pelos cabelos castanhos presos em um coque frouxo. Alguns fios já haviam escapado e grudavam em suas têmporas. Ela estava trabalhando desde as seis da manhã, havia tomado café demais e comido apenas metade de um muffin que Noah, seu irmão, empurrara para sua mão antes de ela sair de casa.

A mensagem dele ainda estava no celular.

Não esquece de respirar. E de comer. Principalmente de comer. Pessoas ficam assustadoras com fome. Você fica criminosa.

Harper não havia respondido.

Porque Noah estava certo.

E porque ela estava começando a considerar um crime.

— Preciso encontrar alguém que mande neste lugar — disse.

Maya olhou ao redor do salão luxuoso.

— Boa sorte. Todo mundo aqui parece estar esperando alguém mais importante aparecer.

— Sempre existe alguém importante demais para carregar uma caixa e incompetente demais para resolver um problema.

— Isso parece específico.

— Experiência profissional.

Harper marchou para fora do salão.

Os corredores do hotel estavam tomados por funcionários correndo, fornecedores montando equipamentos e assessores usando fones de ouvido como se estivessem coordenando o pouso de uma nave espacial.

A inauguração reuniria empresários, políticos, celebridades locais e jornalistas. O presidente da Calloway Hotels também estaria presente.

Ethan Calloway.

Harper nunca o tinha visto pessoalmente, mas conhecia a reputação.

Bilionário.

Controlador.

Obcecado por perfeição.

Incapaz de sorrir em fotografias.

Havia uma matéria sobre ele numa revista que Maya deixara na estufa. Na capa, Ethan usava um terno escuro e uma expressão que dizia que já havia encontrado três erros no trabalho do fotógrafo.

Harper não se impressionava com homens ricos.

Na experiência dela, dinheiro apenas permitia que pessoas insuportáveis fossem insuportáveis em lugares maiores.

Ela dobrou um corredor, atravessou o saguão e quase foi atropelada por um carrinho com garrafas de champanhe.

— Cuidado! — gritou o garçom.

— Eu estou tendo cuidado. Você é que está dirigindo álcool em alta velocidade.

Harper desviou e continuou.

Foi então que o viu.

Um homem estava parado perto das portas de vidro que davam acesso ao terraço, observando o movimento com uma expressão séria.

Terno cinza-escuro impecável.

Camisa branca.

Gravata preta.

Alto o bastante para fazer Harper se sentir ainda menor do que seus pouco mais de um metro e sessenta permitiam. Cabelos castanho-escuros penteados para trás, maxilar definido e uma postura tão rígida que parecia ter sido treinada desde a infância para não ocupar um centímetro a mais do que havia planejado.

Ele não usava crachá.

Claro que não usava.

Homens daquele tipo nunca usavam crachá. Esperavam que o mundo simplesmente soubesse quem eram.

Harper o observou por alguns segundos.

Ele tinha cara de autoridade.

Também tinha braços.

Naquele momento, os braços eram mais importantes.

Ela se aproximou.

— Você.

O homem desviou os olhos do salão e a encarou.

O olhar dele era claro, entre azul e cinza, e tão concentrado que Harper sentiu como se tivesse acabado de interromper uma reunião que acontecia apenas dentro da cabeça dele.

— Eu? — perguntou.

A voz era baixa, firme e irritantemente calma.

— Sim. Você está ocupado?

Ele olhou para as pessoas correndo ao redor.

— Isso depende.

— Do quê?

— De quem está perguntando.

Harper apontou para o próprio crachá.

— Harper Bennett, Wild Bloom. Responsável pela decoração. Mulher prestes a sofrer um colapso profissional em um hotel que, espero, tenha bom seguro.

O olhar dele desceu até o crachá e voltou ao rosto dela.

— Ethan.

Apenas Ethan.

Nenhum sobrenome.

Harper conteve uma revirada de olhos. Claro que aquele homem era do tipo que se apresentava pelo primeiro nome como se não existissem outros milhares de Ethans nos Estados Unidos.

— Ótimo, Ethan. Preciso que você carregue seis caixas para o salão principal.

Ele permaneceu imóvel.

— Você precisa que eu carregue caixas.

— Foi exatamente o que eu disse. Gosto quando as pessoas acompanham a conversa.

— Eu não trabalho na montagem.

— Nem eu trabalho com cobrança, mas aparentemente todos estamos expandindo nossas funções hoje.

O canto da boca dele se moveu.

Não chegou a ser um sorriso. Pareceu mais um pequeno defeito na máscara de arrogância.

— Você costuma dar ordens a desconhecidos?

— Apenas aos que estão parados enquanto todo mundo trabalha.

Ele olhou ao redor mais uma vez.

— Eu não estava parado.

— Seus pés discordam.

— Eu estava observando.

— Excelente. Pode observar as caixas enquanto as carrega.

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