CAPÍTULO 02

AMANDA NARRANDO:

A sexta-feira foi completamente pesada. Passei o dia inteiro no estúdio de fotografia, onde sou estagiária, fotografando bebês. Entre risos, choros e poses fofas, o trabalho era exaustivo, mas recompensador. À noite, fui para a faculdade de audiovisual, onde as aulas se estendem até tarde. Quando finalmente cheguei em casa, sentia como se tivesse corrido uma maratona.

Tomei um banho rápido, tentando lavar o cansaço do corpo e da mente. Logo depois, Rony chegou. Ele costuma dormir aqui nas sextas-feiras, e fazia três meses que minha mãe, Vanusa, não reclamava disso, algo que considero um milagre. Rony e eu namoramos há dois anos, mas sua família nunca me aceitou por eu ser "pobre" aos olhos deles. Mesmo que minha mãe possua um supermercado e moremos confortavelmente, isso nunca pareceu ser suficiente pra eles.

Deitamos no meu quarto para assistir a um filme, e a exaustão do dia me venceu. Adormeci ao lado de Rony, sentindo-me segura em sua presença. Acordei no meio da madrugada com a televisão ainda ligada, repetindo o filme. Olhei para o lado e percebi que Rony não estava na cama.

Levantei-me descalça, com sede, e fui procurar por ele.

Assim que saí do meu quarto, um som estranho me fez parar. Era minha mãe gemendo. O meu coração acelerou, e um frio subiu pela minha espinha. Caminhei na ponta dos pés, tentando não fazer barulho, enquanto minha mente tentava processar o que estava acontecendo. Cheguei à porta do quarto de minha mãe, que estava entreaberta. Parei no corredor do closet, respirando fundo, tentando me acalmar.

— Isso, Rony, não para... Oh cachorrão! — ouvi minha mãe dizer.

Lágrimas encheram meus olhos, e tive que colocar a mão na boca para não vomitar. Comecei a tremer descontroladamente.

— Você é tão gostosa, amor! — ouvi a voz de Rony, seguida pelo som rítmico das estocadas.

— Sou melhor que minha filha na cama, não sou? — A voz de Vanusa era melosa, enojando-me ainda mais.

— Muito melhor, Amanda é mesmo filha de uma puta — Rony respondeu ofegante, e ouvi estalos de beijos com risadas.

"Não é possível", pensei, movendo-me para ver com meus próprios olhos. Lá estavam eles, minha mãe e Rony, completamente nus. Paralisada, fiquei em silêncio, incapaz de dizer qualquer coisa. Vanusa me viu e sorriu, gemendo ainda mais alto.

Rony se virou, vendo-me chorando copiosamente. Ele saiu de cima dela rapidamente.

— Merda, Amanda, eu posso explicar... — Rony disse, levantando-se e olhando para mim.

— Que nojo de vocês dois... — foi a única coisa que consegui dizer, limpando minhas lágrimas.

— Ei, garota, olha como fala com sua mãe! — Vanusa se levantou, enrolando-se no lençol.

— Que mãe? Você é só a pessoa que transou com meu noivo — falei, nervosa.

— Sua ingrata! — Vanusa se aproximou e me deu um tapa forte no rosto, que fez minha pele arder. — Eu sou sua mãe, você tem que me respeitar!

— Você nunca foi uma mãe para mim! — reagi sem pensar e dei um tapa no rosto dela com força.

— Eu vou te matar sua vadia! — Vanusa avançou sobre mim, mas Rony a segurou.

— Vanusa, não faz isso. Calma, Amanda... — Rony disse, tentando conter minha mãe.

— Me solta, eu vou dar uma boa lição nessa garota mal-educada! — Vanusa gritou.

— Solta ela, Rony. Não é nada perto das surras que já tomei quando era menor e indefesa — disse, encarando minha mãe.

— Amanda, não precisa ser assim. Eu e sua mãe nos apaixonamos... eu não queria, mas aconteceu, violência não é a forma de resolver isso — Rony disse, tentando apaziguar.

— Essa egoísta não entende nada, amor — Vanusa disse, respirando fundo e ajeitando o lençol e os cabelos bagunçados.

— Amor? Vocês dois se merecem. Voltem a fazer o que estavam fazendo. Eu estou indo embora desta casa — eu disse, virando as costas e caminhando rapidamente para o meu quarto.

— Amanda, não faz isso... — Rony disse, vindo atrás de mim.

— Deixa ela ir, querido. Quando ela não tiver como se manter, ela volta — Vanusa disse, vindo atrás dele.

Não respondi. Peguei a única mala de viagem que eu tinha e comecei a colocar minhas poucas roupas, a câmera velha, meu notebook e os dois tênis que comprei com meu dinheiro do estágio.

— Amanda, não precisa sair daqui. Vamos conversar... — Rony disse, em pé atrás de mim, ainda pelado.

— Rony, por favor, sai da minha frente. Eu não tenho mais nada para conversar com você — disse, tirando o anel de noivado do dedo e jogando contra ele.

— Que cena mais ridícula, Amanda. Não precisava desse escândalo todo — Vanusa disse, cruzando os braços no batente da porta.

Ignorei-os. Vesti um casaco por cima do pijama, terminei de arrumar a mala e uma mochila o mais rápido que pude.

— Para onde você vai a esta hora da noite, Amanda? — Rony perguntou, envolvendo uma toalha na cintura.

— Não te interessa! — respondi, nervosa.

— Deixa ela, Rony. Isso tudo é cena, conheço minha filha — Vanusa disse, rindo e servindo-se de uísque na sala, enquanto eu abria a porta.

— Você nunca me tratou como filha — disse, magoada e em lágrimas.

— Agora já chega! Para com esse teatro. Se sair por essa porta, nunca mais volta! — Vanusa disse, irritada, tomando sua dose de uísque.

— Amanda, não vai... — Rony pediu ao me ver saindo em direção ao elevador que estava parado em nosso corredor.

As portas do elevador estavam se fechando quando Rony tentou correr atrás de mim e Vanusa apareceu atrás dele acenando. Como minha própria mãe podia agir assim? Chorei encostada na parede fria do elevador até chegar ao térreo.

Peguei meu celular, que felizmente estava carregado, e chamei um táxi pelo aplicativo. Não demorou muito para o carro chegar. Entrei e vi Rony saindo à rua, vestindo uma bermuda e uma camiseta, enquanto Vanusa observava da varanda, ainda enrolada no lençol tomando seu uísque.

Não podia ir para a casa do meu pai, pois sou fruto de uma traição e ele nunca me reconheceu. Ele tem um filho da mesma idade que eu e uma menina mais nova, mas nunca tive contato com eles. Minha madrasta, por outro lado, visitava nossa casa às vezes para mandar minha mãe se afastar do marido dela e sumir comigo, a bastarda.

Vanusa nunca teve muitas amigas; sua mãe faleceu cedo, então fui criada apenas por ela e algumas funcionárias que trabalhavam conosco, sem criar laços profundos. A única pessoa que poderia me ajudar agora era Jon, meu melhor amigo e vizinho de anos. Tentei ligar para ele, mas não atendeu.

Rezei para que ele estivesse em casa e pedi ao taxista que me levasse até lá.

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