Traída... Me casei com o inimigo dele.
Traída... Me casei com o inimigo dele.
Por: Angel Summer
A última vitória

Uma noite cálida de primavera, uma antiga villa italiana, era transformada no cenário de um exclusivo leilão clandestino, reunia alguns dos compradores mais influentes do mercado negro.

Milionários, colecionadores e chefes de diferentes organizações criminosas ocupavam seus lugares enquanto observavam com discrição cada novo convidado, tentando descobrir quem seria capaz de levar as peças mais cobiçadas da noite.

Lia cruzou o salão com a elegância de uma rainha. Seu vestido cor marfim abraçava delicadamente sua figura, o cabelo escuro caía em suaves ondas sobre suas costas e discretos brincos de diamantes realçavam olhos tão serenos quanto impossíveis de interpretar.

Não precisou anunciar sua chegada. Bastou caminhar alguns passos para que várias conversas se apagassem e numerosos olhares se dirigissem para ela.

—Senhorita Lia... que prazer vê-la novamente.

Ela respondeu com um sorriso cordial enquanto apertava a mão do organizador.

—Obrigada pelo convite. Espero que esta noite valha a viagem.

—Quando a senhorita vem, sempre acontece algo interessante.

Lia deixou escapar uma risada suave antes de aceitar a taça de champanhe que um garçom lhe oferecia. À primeira vista, parecia uma mulher refinada apaixonada por arte, mas muito poucos conheciam a verdade.

Por trás daquele sorriso, escondia-se uma estrategista brilhante que durante anos havia negociado carregamentos, recuperado peças roubadas e disputado territórios para a organização Santana.

Muitos a consideravam apenas a noiva de um dos chefes mais influentes do país, uma jovem privilegiada que havia crescido sob a sombra de um poderoso mafioso, Matteo Rosseti. Ninguém imaginava que boa parte do crescimento da organização Santana levava sua assinatura.

As luzes diminuíram ligeiramente quando o leiloeiro tomou posição sobre o palco.

—Senhoras e senhores, bem-vindos. Esta noite temos o privilégio de apresentar peças impossíveis de encontrar no mercado legal. Obras desaparecidas há décadas, joias pertencentes a antigas famílias europeias e coleções privadas que jamais voltarão a ser exibidas em um museu.

As primeiras peças foram mudando de dono entre ofertas discretas e olhares calculistas. Lia observava cada lote com paciência, sem levantar uma única vez a placa que tinha entre as mãos. Sabia exatamente o que procurava e também quanto estava disposta a pagar por isso.

Quando uma pintura renascentista coberta por um tecido negro apareceu sobre o palco, seus olhos brilharam com um interesse diferente.

—Senhoras e senhores —anunciou o leiloeiro enquanto retirava lentamente o tecido—, apresento-lhes “Amantes destinados”, uma obra atribuída ao ateliê de Ticiano, desaparecida de uma coleção privada há mais de cinquenta anos. O lance inicial será de vinte milhões de dólares.

Um murmúrio percorreu o salão. Lia apoiou a taça sobre a mesa e levantou discretamente a placa.

—Vinte milhões.

As ofertas começaram a subir rapidamente.

—Vinte e cinco.

—Trinta.

—Trinta e cinco.

Ela não perdeu a calma. Esperou alguns segundos antes de erguer novamente a placa.

—Quarenta milhões.

Nesse mesmo instante, outra voz respondeu de alguns assentos mais adiante.

—Quarenta e cinco.

Lia virou lentamente a cabeça e encontrou olhos cinzentos observando-a com absoluta tranquilidade. Vestido completamente de preto, com um impecável terno italiano feito sob medida e uma expressão impossível de decifrar, Giorgio Bellamonte segurava uma taça de uísque enquanto apoiava um braço no encosto de seu assento.

Seus homens permaneciam de pé a poucos metros dele sem desviar os olhos do restante dos presentes.

Um leve sorriso apareceu nos lábios de Lia.

—Pensei que você não chegaria mais, Bellamonte.

—Não costumo perder espetáculos interessantes e amargar a sua noite, se possível.

—Então hoje você voltará para casa de mãos vazias.

—Isso ainda está para ser visto.

O leiloeiro pigarreou com evidente nervosismo ao sentir como dezenas de pessoas dirigiam sua atenção para ambos. Não era segredo que Elian Santana e Giorgio Bellamonte se odiavam mortalmente e Lia, como noiva de Elian, compartilhava o mesmo ódio e desprezo por Giorgio.

—Quarenta e cinco milhões? Alguma oferta superior?

Lia voltou a levantar a placa.

—Cinquenta.

Giorgio nem sequer piscou.

—Cinquenta e cinco.

Ela sustentou seu olhar durante vários segundos antes de responder.

—Sessenta.

O silêncio caiu sobre o salão. Até o leiloeiro parecia conter a respiração.

Giorgio girou lentamente o uísque dentro do copo, observando o líquido âmbar antes de voltar a olhá-la.

—Sessenta e um.

Lia sorriu com autêntica diversão.

—Setenta milhões.

Alguns presentes começaram a comentar entre si. Aquela cifra superava amplamente o valor estimado da obra, mas nenhum dos dois parecia interessado no dinheiro.

O leiloeiro olhou para Giorgio.

—Setenta milhões uma...?

Ele permaneceu imóvel durante alguns segundos e finalmente deixou a taça sobre a mesa.

—A obra é sua, senhorita Lia.

O martelo golpeou a mesa.

—Vendida!

Um discreto aplauso percorreu o salão enquanto vários presentes observavam Lia com uma mistura de admiração e surpresa. Ela caminhou até o palco para assinar os documentos de compra e autorizou que a pintura fosse cuidadosamente embalada.

Um dos colecionadores europeus se aproximou sorrindo.

—Devo admitir que estou curioso. O que faz essa pintura valer tamanha fortuna?

Lia acariciou com delicadeza a moldura protegida pelos especialistas antes de responder com uma doçura que contrastava com a dureza daquele mundo.

—Amanhã me caso com o homem amor da minha vida. Queria que seu presente de casamento fosse único.

O homem sorriu com cortesia.

—Então devo parabenizá-la. Seu futuro esposo é um homem realmente afortunado.

—Eu sou a afortunada.

Aquelas palavras chegaram com clareza até o lugar onde Giorgio permanecia de pé. Durante um breve instante, seus dedos apertaram com força o copo de cristal, embora sua expressão continuasse tão serena como sempre.

Seu segundo em comando deu um passo em direção a ele.

—Don Bellamonte, vamos segui-la?

Ele observou Lia abandonar lentamente o salão acompanhada por seus escoltas, sem desviar os olhos dela até que desaparecesse atrás das enormes portas da villa.

—Não.

—Vamos deixá-la partir com essa pintura?

Giorgio deixou escapar um leve sorriso que jamais alcançou seus olhos.

—Por hoje, sim.

—E amanhã?

Ele pegou novamente sua taça e bebeu um longo gole antes de responder com uma calma inquietante.

—Amanhã ela se casará com um bastardo, aí poderemos recuperar a pintura, tenha paciência.

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