Mundo de ficçãoIniciar sessãoO terceiro dia antes do casamento amanheceu com um sol pálido que mal conseguia aquecer a atmosfera gélida da mansão. Na mesa de jantar, o cenário era deprimente. Carlos parecia ter envelhecido dez anos em quarenta e oito horas, com olheiras profundas e as mãos trêmulas segurando a xícara de café. Rodrigo, ao seu lado, encarava o celular como se o aparelho fosse explodir a qualquer segundo — o que, tecnicamente, não estava longe da realidade.
Júlia, por outro lado, parecia completamente insensível ao pânico ao seu redor. Enquanto alisava um colar de brilhantes que Rodrigo lhe dera dias antes com dinheiro que agora pertencia ao limbo digital, ela olhou para mim com um sorriso de escárnio. — Sabe, Valentina, eu estava pensando... — começou Júlia, com aquela voz arrastada e cheia de veneno. — Já que o papai e o Rodrigo estão tão estressados com essa história de bloqueios bancários, talvez devêssemos simplificar a sua entrada na igreja. Afinal, para que gastar com uma carruagem ou um arranjo de flores tão caro se você nem vai saber apreciar? Você sempre foi meio desajeitada com coisas elegantes. Minha mãe, Helena, acenou com a cabeça em concordância, sem sequer erguer os olhos da revista de fofocas. — Sua irmã tem razão, Valentina. Seja grata por Rodrigo ainda querer se casar com você, mesmo com toda essa confusão financeira que o pai dela causou na construtora. Em circunstâncias normais, um homem do gabarito dele jamais olharia para alguém tão... apagada. Engoli a seco, abaixando os olhos com uma perfeição digna de um prêmio de atuação. Deixei que meus ombros caíssem levemente, simulando a humilhação que eles esperavam ver. — Tem razão, mãe... Eu agradeço todos os dias por Rodrigo me amar do jeito que eu sou — sussurrei, com a voz embargada por um falso choro contido. Sob a mesa, apertei o garfo com tanta força que meus nós dos dedos ficaram brancos. Se eles soubessem que a conta bancária pessoal de Júlia — aquela onde ela guardava as mesadas secretas desviadas por Carlos — acabara de ser esvaziada há exatos três minutos pelo algoritmo da Nexis AI, a expressão de tédio dela se transformaria em desespero puro. De repente, o celular de Júlia vibrou estridentemente sobre a mesa. Ela pegou o aparelho com desdém, pronta para ignorar, mas ao desbloquear a tela, o sorriso irônico congelou em seus lábios pintados de vermelho. — O... o quê? — gaguejou Júlia, levantando-se tão abruptamente que derrubou a cadeira para trás. — Isso é um erro! O meu saldo... o meu cartão black foi recusado! Diz aqui que a conta foi congelada por ordem de auditoria federal! O pânico na sala explodiu instantaneamente. Carlos levantou-se cambaleando, enquanto Rodrigo puxava o próprio cabelo, encarando a noiva e a cunhada com os olhos arregalados. — Como assim a sua conta também, Júlia?! — gritou Rodrigo, perdendo a compostura pela primeira vez diante da família. — As minhas, as do seu pai, e agora as suas? Isso não é coincidência! Tem um predador invisível caçando a nossa família inteira! Mantive meu rosto perfeitamente neutro, erguendo os olhos com uma expressão de pura inocência assustada. — O que está acontecendo, gente? Aconteceu alguma coisa grave com o dinheiro de vocês? — perguntei com um fio de voz, fingindo tremer levemente. — Cale a boca, Valentina! Você não entende nada! — sibilou Carlos, batendo com a mão pesada na mesa. — Saia daqui! Vá terminar de ajustar aquele vestido ridículo e nos deixe em paz! Levantei-me em silêncio, abaixando a cabeça como uma ovelha dócil. Mas por dentro, o meu sorriso era o de um tigre que acabara de encurralar a manada inteira. Faltavam quarenta e oito horas. A quilômetros de distância, no topo da torre de vidro da Vance Tech, Arthur Vance analisava a linha de código residual que a inteligência artificial havia deixado propositalmente em um dos servidores de Júlia. Arthur deu um sorriso fascinado, traçando com o dedo indicador o contorno da tela holográfica. — Ela não está apenas destruindo os negócios deles... Ela está se divertindo — murmurou Arthur para si mesmo, com uma intensidade magnética brilhando em seus olhos escuros. — Essa assinatura digital... a precisão cirúrgica... quem quer que seja, essa mulher tem o intelecto de uma deusa e a alma de uma vingadora. Leo entrou na sala naquele instante, jogando um convite dourado sobre a mesa de mogno. — Ei, gênio das sombras. Esqueça os códigos por um segundo. Sabe aquele evento de gala beneficente da alta sociedade amanhã à noite? Aquele onde a elite inteira vai se reunir para fingir que se importa com caridade? Pois é, o clã Carlos e suas filhas confirmaram presença. E adivinhe quem foi convidado de honra para supervisionar os investimentos da fundação? Arthur ergueu uma sobrancelha escura, fitando o irmão com curiosidade. — Quem? — Nós — sorriu Leo, ajustando os punhos do terno. — E quer apostar quanto que a misteriosa mente por trás da queda deles vai dar as caras por lá?






