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Capítulo 4: O Desespero do Predador e o Sorriso da Presa

​O relógio marcou duas horas da manhã quando a porta do meu quarto se abriu com um rangido abafado. Eu já não estava usando o pijama simples que eles me obrigavam a vestir para manter a farsa; em vez disso, vestia uma calça de alfaiataria escura e uma blusa preta de gola alta, perfeitamente adequada para a atmosfera fria do meu santuário digital. No entanto, ao ouvir os passos pesados no corredor, um segundo antes de a porta se abrir totalmente, meus dedos deslizaram pelo teclado e a interface holográfica sumiu, dando lugar ao meu notebook comum exibindo planilhas baratas de decoração de casamento.

​Era Rodrigo.

​O terno de grife que ele usava de dia agora estava amassado, a gravata frouxa pendurada no pescoço e os cabelos escuros desalinhados pelo estresse. Ele não parecia o homem arrogante e bem-sucedido que ostentava pose na alta sociedade; parecia um animal encurralado.

​— Valentina... Você ainda está acordada? — a voz dele saiu áspera, carregada de exaustão e uma frustração mal contida.

​Levantei-me da cadeira com lentidão deliberada, simulando o cansaço de uma noiva preocupada. Caminhei até ele com passos lentos, fingindo um tremor nos lábios que eu sabia que o fazia sentir-se superior.

​— Rodrigo... O que aconteceu? Você está pálido. Aconteceu algo com a construtora do meu pai? — perguntei, injetando na voz a dose perfeita de inocência e preocupação ansiosa.

​Rodrigo fechou a porta com força, mas sem fazer barulho excessivo, e passou as mãos trêmulas pelos cabelos. Ele se jogou na poltrona do quarto, respirando fundo como se o ar estivesse rarefeito.

​— Aconteceu um desastre, Valentina. Um inferno completo! — ele sibilou, erguendo o rosto para mim com os olhos injetados de sangue. — O Banco Central bloqueou os fundos de contingência. Não foi apenas um erro administrativo; alguém invadiu os nossos servidores principais, alterou as chaves de criptografia e redirecionou os contratos para contas desconhecidas. Estamos a um passo de declarar falência técnica se os investidores descobrirem.

​Por dentro, eu queria rir. Queria gargalhar na cara dele e lembrar de cada mensagem de voz em que ele e minha irmã zombavam da minha suposta "estupidez". Mas por fora, fiz exatamente o que a boneca de porcelana faria: levei as mãos à boca, soltei um grito abafado de pânico e deixei as lágrimas fingidas brotarem nos meus olhos.

​— Falência?! Meu Deus, Rodrigo... Mas e o casamento? E a nossa vida juntos? O meu pai disse que estava tudo bem... — gaguejei, correndo para perto dele e ajoelhando-me ao seu lado, fingindo buscar amparo em seus braços.

​Rodrigo me puxou para cima, abraçando-me de forma possessiva, mais por desespero do que por afeto genuíno. Ele enterrou o rosto no meu pescoço, respirando fundo como se eu fosse a boia de salvação dele em meio a um naufrágio.

​— Fique calma, Valentina... Pelo menos você não tem culpa de nada. Você é pura, não entende nada dessas complexidades corporativas — murmurou ele, dando tapinhas condescendentes nas minhas costas, completamente cego pelo próprio ego machista. — Se as coisas apertarem de vez, teremos que nos apoiar no que sua família tem guardado... embora seu pai diga que não sobrou muita coisa líquida.

​Enquanto os braços dele me apertavam com força, meus olhos fitavam o reflexo do meu próprio rosto no espelho do armário oposto. Meus lábios curvavam-se em um sorriso frio, cortante e absolutamente mortal. Continue me subestimando, Rodrigo, pensei, sentindo o calor do corpo dele misturar-se ao meu asco profundo. Você ainda não viu nada.

​Enquanto isso, a quilômetros de distância daquela mansão sufocante, em um escritório à prova de som no topo da torre da Vance Tech, Arthur Vance encarava uma linha de código brilhante na tela principal do seu computador pessoal.

​O analista sênior de segurança cibernética da empresa, um homem de confiança absoluta, acabara de deixar a sala após relatar o impossível.

​— Senhor Vance, o ataque sistemático à construtora dos Carlos não foi obra de nenhum grupo hacker convencional — disse o relatório que Arthur lia pela terceira vez. — A assinatura digital do invasor utiliza uma arquitetura neural autônoma avançada. É uma inteligência artificial tão sofisticada que consegue burlar qualquer firewall do mercado em frações de segundo, apagando seus próprios rastros. Só existe uma entidade no mundo capaz de criar algo com esse nível de genialidade... a mítica Nexis AI.

​Arthur recostou-se na cadeira de couro, estreitando os olhos escuros enquanto girava a caneta entre os dedos. Um sorriso fascinado e perigoso desenhou-se em seus lábios perfeitos.

​— Uma inteligência artificial independente... operando nas sombras para destruir os corruptos da nossa cidade — murmurou Arthur para si mesmo, sentindo o sangue pulsar mais rápido em suas veias. — Quem é você, criatura brilhante? Prometo que vou te encontrar antes que o mundo descubra o seu rastro.

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