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Capítulo 3: O Xadrez das Sombras

​A cobertura da Vance Tech fedia a café espresso amargo e à tensão silenciosa que antecede uma tempestade. Do alto do quinquagésimo andar, a cidade parecia um tabuleiro de peões insignificantes movidos por cordas invisíveis. Para Arthur Vance, no entanto, o verdadeiro tabuleiro estava ali dentro, na sala de reuniões revestida de vidro escuro, onde as cortinas automáticas filtravam a luz cinzenta de uma tarde chuvosa.

​A porta se abriu com um estalido suave, e Victor Vance entrou sem pedir licença. O tio de Arthur trazia um sorriso nos lábios finos — uma máscara mal disfarçada de falso orgulho e muita ambição.

​— Trabalhando até tarde, meu jovem sobrinho? — a voz de Victor ecoou pelo espaço amplo, carregada de um tom condescendente que ele fazia questão de não esconder. — Sabe, a presidência de um conglomerado desse porte exige mais do que insônia e relatórios frios. Exige pulso firme, conexões políticas... coisas que talvez a sua juventude ainda não tenha compreendido por completo.

​Arthur não se sobressaltou. Continuou girando lentamente uma caneta de metal entre os dedos longos, os olhos fixos na tela do monitor diante dele. Na tela, gráficos de movimentações financeiras da construtora de Carlos — a mesma família que mantinha Valentina refém — desabavam em uma queda livre vertiginosa.

​— A minha juventude parece incomodá-lo bastante, meu caro tio — disse Arthur, erguendo o olhar lentamente. Seus olhos escuros faiscaram com uma frieza cortante que fez o sorriso de Victor vacilar por uma fração de segundo. — Mas fique tranquilo. Cada cadeira neste edifício está exatamente onde deve estar. Inclusive a sua, embora o senhor insista em tentar trocá-la de lugar por debaixo dos panos.

​O maxilar de Victor tencionou. Ele deu dois passos à frente, apoiando as mãos pesadas sobre a mesa de mogno.

— Cuidado com o tom, Arthur. Você pode ter o apoio da sua avó e daquela chantagem emocional sobre a saúde dela, mas os acionistas majoritários estão de olho nos contratos que fechei na Ásia. Se eu quisesse...

​— Se o senhor quisesse o quê? — interrompeu Arthur, com uma calma aveludada que era infinitamente mais aterrorizante do que um grito. Ele inclinou o corpo para a frente, fechando o espaço entre eles. — Se quisesse desviar fundos através de construtoras laranjas para financiar sua campanha paralela ao conselho? Ou prefere que eu abra aqui mesmo, na frente de todos, o relatório detalhado das suas reuniões secretas com os concorrentes da nossa holding?

​O sangue sumiu instantaneamente do rosto de Victor. Ele recuou um passo, a boca abrindo-se levemente em um muxoxo de pânico contido.

— Do... do que você está falando? Isso é absurdo!

​— Não é absurdo, tio. É matemática — respondeu Arthur, recostando-se na cadeira de couro e voltando a dar atenção à tela. — Eu permito que o senhor brinque de ser o estrategista porque é divertido ver suas tentativas patéticas de golpe. Mas lembre-se: eu sempre estou três passos à frente. Se tentar qualquer movimento em falso antes do casamento que a vovó me obrigou a aceitar, eu não vou apenas tirá-lo da diretoria. Vou garantir que o senhor termine seus dias em uma cela de segurança máxima.

​Victor engoliu em seco, incapaz de rebater. O suor frio brilhava em sua testa. Sem dizer uma única palavra a mais, ele virou as costas e praticamente fugiu da sala, batendo a porta com uma força que traía todo o seu desespero.

​Assim que o silêncio se restabeleceu na sala, Leo entrou pela porta lateral, equilibrando dois copos de uísque com gelo. O irmão mais novo de Arthur sorria de orelha a orelha, com aquela postura descontraída de playboy que parecia nunca levar nada a sério — embora Arthur soubesse que, quando a situação exigia, Leo era o único em quem podia confiar de olhos fechados.

​— Cara, eu juro que quase senti pena do tio Victor — comentou Leo, estendendo um dos copos para o irmão antes de se jogar displicentemente no sofá de design italiano. — O velho estava branco como um fantasma. O que você disse para ele dessa vez? A verdade sobre os desvios ou apenas o lembrete de que você é o dono absoluto de tudo?

​Arthur pegou o copo, deu um gole pequeno, sentindo o ardor do líquido queimar a garganta, mas sua mente estava em outro lugar. Ele fechou os olhos por um instante, lembrando-se dos relatórios anônimos que sua inteligência de mercado havia interceptado mais cedo. Alguém estava destruindo a construtora de Carlos por dentro com uma precisão cirúrgica, usando algoritmos que pareciam brincar com o sistema financeiro nacional.

​— Deixe o tio Victor para lá, Leo — murmurou Arthur, olhando pela janela para o trânsito caótico da metrópole iluminada pela chuva. — Diga-me uma coisa... você acredita em fantasmas?

​Leo soltou uma risada curta, ajeitando o paletó de grife.

— Depende. Se forem fantasmas bonitos e ricos, eu aceito até convite para jantar. Por que a pergunta?

​Arthur deu um sorriso de canto, um vislumbre raro de pura eletricidade cruzando suas feições duras.

— Porque há alguém lá fora, escondido nas sombras, que está destruindo os mesmos inimigos que eu pretendia esmagar. E quer saber de uma coisa, Leo? Eu estou louco para descobrir quem é a mente brilhante que teve a audácia de roubar o meu espetáculo.

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