Mundo de ficçãoIniciar sessãoA bolha de paz que Clara construíra com farinha, argila e o afeto sincero de seus funcionários era um castelo de cartas vulnerável às marés do mundo exterior. O ostracismo era o seu maior aliado, mas os vampiros da alta sociedade — aqueles que se alimentavam de aparências e do sofrimento alheio — sabiam exatamente quando atacar.
O lembrete de que ela ainda pertencia ao tabuleiro vinha sempre da mesma forma: através de uma batida protocolar na porta da cobertura. A assistente pessoal de Arthur entrava no apartamento carregando cabides de grife, caixas de joias monogramadas, bolsas de grife e todos os acessórios milimetricamente selecionados para Clara. Não havia espaço para escolhas. O guarda-roupa de suas aparições públicas era ditado pelo departamento de relações públicas do Grupo Albuquerque. Na imensa maioria dos eventos corporativos de menor escalão, Arthur levava a amante sem a menor discrição, mas havia jantares de gala, posses de conselho e premiações internacionais onde a presença da "esposa legítima" era um requisito legal e imprescindível para a imagem de estabilidade das ações.
Nessas noites, Clara era forçada a vestir a armadura de luxo e a caminhar ao lado de um homem que mal a olhava nos olhos. A humilhação externa era um espetáculo público. Nos salões repletos de espelhos e tapetes vermelhos, Clara precisava suportar os sorrisos falsos das mesmas socialites que, pelas costas, cochichavam sobre o seu fracasso. Ela via os flashes dos fotógrafos registrando o seu casamento de fachada, sabendo que, nos bastidores da internet, todos zombavam da herdeira Mendes que fora trocada antes mesmo de subir ao altar.
A verdadeira tortura, contudo, desabava no dia seguinte a essas aparições ou sempre que as colunas sociais publicavam fotos de Arthur e da amante em jantares privados pelo mundo. Nesses momentos, a paz da cobertura caía por terra de forma violenta.
A primeira ligação era sempre de Beatriz Mendes. A voz da mãe cruzava a linha telefônica como um chicote, sem qualquer vestígio de calor maternal.
— Você é uma incompetente, Clara! — esbravejava Beatriz, o tom aristocrático destilando puro veneno. — Como permite que o seu marido apareça na capa de uma revista de negócios jantando com aquela mulher no dia seguinte a um evento oficial com você? Você não tem um pingo de dignidade ou de inteligência para segurar o homem que garante a nossa fusão? Nós te demos tudo, te vestimos com o que há de melhor, e você continua sendo essa coitada apagada. Uma peça inútil!
Antes mesmo que Clara pudesse se recuperar do impacto das palavras da mãe, o telefone fixo tocava. Dessa vez era Regina Albuquerque, a sogra. O tom de Regina não era histérico como o de Beatriz; era de uma frieza cirúrgica e ameaçadora.
— Minha querida, o conselho está extremamente descontente com a repercussão dessas fofocas — dizia Regina, a voz mansa e letal. — Esperávamos que uma Mendes tivesse o mínimo de postura para blindar o meu filho desse tipo de exposição. Se você não é capaz de se fazer respeitar como esposa diante da mídia, a sua permanência nessa estrutura começa a ser questionada. Trate de sorrir mais nas fotos e de agir como a mulher da casa, ou as consequências para a sua família serão graves.
Essas ligações diárias quebravam a proteção do sótão. A crueldade do mundo real penetrava as portas do triplex por meio das ondas eletromagnéticas, rrachando a bolha protetora que ela criara com tanto custo.
Após desligar o telefone, Clara sentava-se no chão da cozinha, com o peito arfando sob o peso da ansiedade e da humilhação. Marta se aproximava em silêncio, trazendo uma xícara de chá de camomila morno e pousando uma mão calejada e acolhedora em seu ombro, compartilhando de sua dor sem precisar dizer uma única palavra. O ostracismo social que lhe dava liberdade era, ao mesmo tempo, o isolamento que a deixava desprotegida contra os ataques de sua própria família.
Clara olhava para as suas mãos, ainda limpas da argila daquela manhã, ciente de que cada rachadura em sua bolha de paz era um lembrete do preço que precisava pagar. Os vampiros da sociedade queriam o seu sangue, as suas lágrimas e o seu orgulho, mas, enquanto bebia o chá sob o olhar compassivo de Marta, Clara prometia a si mesma que eles só teriam o seu silêncio. A sua alma continuaria guardada no sótão, esperando o momento certo de ser livre.







