O reflexo no espelho do banheiro do ateliê não mentia, embora Clara Mendes desejasse que sim. Sob a luz fria e impiedosa do teto, as suas mãos pareciam permanentemente manchadas por uma leve camada de poeira cinzenta, o resquício teimoso da argila que ela passara as últimas quatro horas a moldar. Para Clara, aquela sujeira era um distintivo de honra, a única prova tangível de que ela possuía um mundo que era exclusivamente seu. No entanto, sabendo que o jantar de gala daquela noite exigia a perfeição milimétrica de uma herdeira da dinastia Mendes, ela suspirou e abriu a torneira, observando a água levar embora os últimos vestígios da sua liberdade artística.A mansão dos Mendes, localizada no bairro mais nobre e vigiado da capital, nunca fora um lar; era uma vitrine de poder econômico. Desde a infância, Clara compreendera a mecânica gélida daquela casa. Enquanto os seus irmãos mais velhos eram preparados para liderar os conselhos de administração e expandir o império de mineração e lo
Ler mais