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Capítulo 8: Encontros Marcados e o Nome da Sombra

Por mais que Clara tentasse se trancar na segurança do triplex, a elite de São Paulo parecia ter um sexto sentido para farejar onde ela tentava encontrar um pingo de dignidade. A calmaria que ela construía com as mãos enfarinhadas na cozinha e o barro no sótão era frequentemente estraçalhada pelo mundo real. E, naquele cenário gélido, a sombra que a perseguia finalmente ganhou um nome, um rosto e uma voz perversamente doce: Camila.

Camila não era apenas a mulher que ocupava o coração de Arthur; ela era uma presença calculista, determinada a arrancar de Clara até o último vestígio de respeito próprio. Ela não se contentava em ter o amor do CEO em segredo; ela queria a humilhação pública da esposa legítima.

O padrão cruel começou a se repetir com uma frequência assustadora. Sempre que Alice conseguia arrastar Clara para fora do apartamento — na tentativa legítima de fazer a amiga respirar um pouco de ar puro —, Camila surgia como um fantasma luxuoso no mesmo ambiente. Não eram coincidências. Camila usava uma rede de contatos bem informados e o rastreamento sutil que a alta sociedade fazia dos passos da herdeira dos Mendes para marcar território.

Na primeira vez, Alice levara Clara a uma galeria de arte discreta nos Jardins, um local teoricamente fora do circuito dos grandes eventos corporativos. Elas observavam uma coleção de telas a óleo quando o som de saltos altos ecoou pelo piso de granito. Ao virar-se, Clara sentiu o estômago revirar. Camila entrou no recinto vestindo um casaco de grife impecável, acompanhada por duas amigas da alta sociedade que orbitavam a sua posição de favorita do homem mais poderoso do Grupo Albuquerque.

Camila não hesitou. Com um sorriso cínico nos lábios perfeitamente pintados de vermelho, ela caminhou direto na direção de Clara.

— Mas que surpresa maravilhosa, Clara — disse Camila, a voz destilando uma falsa cordialidade que fez os pelos do braço de Clara se arrepiarem. — Não sabia que você também frequentava este circuito. Arthur sempre me diz que você prefere ficar... bem guardada em casa.

Alice deu um passo à frente imediatamente, o corpo tenso, os olhos flamejando com o ódio característico de quem não tolerava aquela audácia.

— Ninguém te deu intimidade para falar com ela, Camila. Pegue as suas amigas e saia daqui antes que eu faça a sua holding farmacêutica cortar os contratos com os laboratórios do seu pai — sibilou Alice, a voz baixa, mas carregada com o peso real de uma herdeira internacional.

Camila apenas soltou uma risada abafada, tocando de forma deliberada no colar de esmeraldas que ostentava no pescoço — a mesma coleção raríssima que Clara vira nos stories meses atrás.

— Calma, Alice, só estou sendo educada — ironizou Camila, os olhos fixos em Clara, avaliando o seu conjunto simples de linho com indisfarçável superioridade. — Afinal de contas, nós fazemos parte da mesma... engrenagem. Só vim avisar que o Arthur me deu este pingente maravilhoso ontem à noite para comemorar o fechamento do novo trimestre. Achei que você, como esposa, gostaria de saber como os negócios estão indo bem.

— Vamos embora, Alice — Clara pediu, a voz saindo num sussurro controlado, embora por dentro estivesse em pedaços. Ela segurou o braço da amiga com força, impedindo-a de desferir o tapa que Alice claramente planejava. — Não vale a pena. Vamos.

Clara puxou a amiga em direção à saída, caminhando de cabeça erguida enquanto ouvia as risadinhas abafadas de Camila e de suas seguidoras ecoarem pelas paredes da galeria.

A cena se repetiu na semana seguinte, em um salão de beleza superexclusivo onde Alice tentou agendar uma tarde de massagem para Clara, e novamente no bistrô francês onde tentaram almoçar em uma terça-feira chuvosa. Camila desfilava bolsas raras, relógios de edição limitada e casacos que haviam sido faturados diretamente na conta corporativa que Arthur mantinha para ela. Cada aparição da amante no mesmo local que Clara era um deboche silencioso, um recado claro de que, embora Clara tivesse o papel assinado e o sobrenome na certidão, era Camila quem detinha o verdadeiro poder, os mimos e o tempo do Senhor CEO.

Ao voltar para o triplex após mais um desses encontros sufocantes, Clara desabou no sofá da sala, as mãos cobrindo o rosto para conter as lágrimas de humilhação. Marta aproximou-se em silêncio, retirando as chaves e a bolsa da patroa da mesa de centro. A governanta olhou para o abatimento de Clara e balançou a cabeça, o coração apertado pela crueldade que a jovem enfrentava na rua.

— Menina Clara... não deixe que ela veja o seu choro — disse Marta, com a voz mansa e protetora de quem já conhecia a podridão daquela elite há anos. — O que ela tem é o dinheiro dele, mas o que a senhora está construindo aqui dentro, ninguém pode comprar. Venha, a massa do pão de nozes já cresceu. Vamos para a cozinha.

Clara limpou o rosto com a manga da blusa e assentiu. A cozinha e o sótão eram as suas únicas trincheiras. Ela precisava aguentar firme. Camila achava que estava vencendo o jogo ao desfilar joias pelos salões da cidade, mas Clara sabia que cada humilhação engolida em silêncio era apenas mais combustível para o plano dos cinco milhões. Ela sobreviveria à sombra de Camila, mesmo que isso custasse cada gota de seu orgulho.

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