Capítulo 7
À simples menção do bebê, aquela dor que Adriana forçava para o fundo de sua alma começou a se alastrar novamente, lenta e implacável.

A luz branca e cruel do teto, o cheiro pungente de desinfetante impregnando o ar e o frio cortante que sentira após a cirurgia... Eram memórias que jamais se apagariam, assim como a lembrança física de ter sua própria carne e sangue arrancados de si. Refletindo agora, talvez a criança tivesse pressentido algo.

Vinha em silêncio e partia da mesma forma, como se sua breve existência tivesse o único propósito de protegê-la de um destino pior ou, quem sabe, de expiar algum pecado oculto antes que o sofrimento fosse maior.

Ao término da reunião, Luciana solicitou que Lorena lhe enviasse a ata do encontro. Lorena, ainda remoendo a raiva pelo que havia ouvido, respondeu de forma ríspida:

— Não está pronta.

— Então termine de organizar e me envie. — Ordenou Luciana, impaciente.

— Estou atolada de trabalho, onde vou arrumar tempo para isso? — Retrucou Lorena, sem esconder a irritação.

Luciana franziu a testa, lançando um olhar de reprovação, mas a assistente a ignorou completamente e começou a ajudar Adriana a arrumar a sala de conferências. Somente quando a chefe saiu, Adriana se virou para a colega e a aconselhou, com a voz calma, mas firme:

— Você precisa se lembrar de não trazer suas emoções para o trabalho. Na Ventura Investimentos, isso não é tolerado. Se você pretende construir uma carreira longa aqui, não ofenda ninguém, especialmente quem ocupa um cargo superior ao seu.

— Só acho que você não merece passar por isso. — Desabafou Lorena.

— Não se trata de merecer ou não. — Respondeu Adriana, e sua expressão se tornou distante novamente.

Para ela, sentimentos não eram uma troca comercial de valor equivalente. Tratar António bem era uma escolha dela. Como ele respondia, era escolha dele. Tentar colocar um sinal de igualdade entre essas duas coisas seria apenas buscar sofrimento desnecessário. Ela amava António, por isso apostava seu futuro, desistia de estudar no exterior e o acompanhava na criação da empresa, atuando como seu suporte incondicional. Embora o resultado não tivesse sido o esperado, ela não se arrependia.

Contudo, reconhecer a derrota, pagar a conta e sair de cena rapidamente era necessário. Às vezes, o maior inimigo na vida era a própria mente nos aprisionando em uma fortaleza de ilusões. O fim de um relacionamento era sempre exaustivo e doloroso, mas ela só precisava de um pouco de tempo. Ela superaria.

...

Perto do horário de saída, Adriana enviou uma mensagem para Luciana informando que todos os documentos dos projetos do Setor Três estavam organizados e prontos para entrega. A resposta veio rápida:

[Adriana, por favor, leve o material ao escritório do António. Acabei de voltar ao país e não conheço bem o ambiente de negócios local, preciso que o António me ajude a analisar.]

Ela repetia o nome dele com uma intimidade natural, e ele nunca a repreendia por isso. No entanto, Adriana se lembrava vividamente de como ele detestava que não usassem os títulos formais na empresa.

Durante sete anos, ela obedeceu religiosamente a essa regra, chamando-o de Sr. António tanto no escritório quanto em eventos sociais. Tanta dedicação e profissionalismo agora pareciam uma piada de mau gosto. As regras de António, pelo visto, serviam apenas para os estranhos. E ela, ficou claro, era a estranha. Para a mulher que ele amava, não existiam limites.

Após responder com um breve "recebido", Adriana juntou os arquivos organizados e a carta de demissão, que retirou da gaveta e inseriu discretamente na pilha de documentos que precisavam da assinatura dele. Ela não sabia se António assinaria, mas o protocolo precisava ser seguido.

Carregando a pilha de papéis, caminhou direto para o escritório da presidência. Como de costume, bateu na porta e entrou sem esperar autorização. Esse era o único privilégio que António lhe havia concedido. Como sua secretária e braço direito, para economizar tempo e aumentar a eficiência, ela tinha passe livre. Com o tempo, aquele hábito se tornou memória muscular, fazendo com que ela empurrasse a porta assim que seus dedos tocaram a madeira.

Mas as palavras morreram em sua garganta antes mesmo de serem pronunciadas. Seu coração foi brutalmente esmagado pela cena diante de seus olhos. Luciana estava sentada na mesa de António, com o corpo inclinado em direção a ele, o rosto perigosamente próximo ao peito dele, em uma postura de intimidade inegável.

— Ai... — Exclamou Luciana, aparentemente assustada com a intrusão, deixando-se cair nos braços de António.

António franziu o cenho, o rosto fechado em uma expressão gélida, e repreendeu Adriana com voz dura:

— Você não sabe bater?

Adriana quis dizer que havia batido, mas qualquer defesa parecia fútil naquele momento.

— Sem educação alguma! É assim que você trabalha? — Continuou ele, o tom ríspido e impiedoso, esquecendo-se completamente de que aquele acesso livre fora uma permissão dele próprio.

— Desculpe, não vai acontecer novamente. — Murmurou Adriana, baixando a cabeça.

E não aconteceria mesmo, pois não haveria uma próxima vez.

Luciana ergueu finalmente a cabeça do peito de António. Suas bochechas estavam coradas e vibrantes, como se tivesse acabado de ser revigorada por aquele contato.

— António, não seja tão bravo, a Adriana não fez por mal. — Disse ela em um tom manhoso e doce, antes de voltar seu sorriso radiante para a secretária. — Adriana, você veio trazer os documentos do projeto, certo? Por favor, deixe-os na mesa, não posso pegá-los agora.

Mantendo o olhar fixo em um ponto neutro para não desmoronar, Adriana depositou a pilha sobre a mesa e acrescentou:

— Há também alguns documentos que precisam da assinatura do Sr. António.

— Certo, pode sair agora. — Dispensou Luciana, agindo como a senhora do lugar.

— Não deixe ninguém entrar e me perturbar, e isso vale para qualquer um. — Reforçou António, frio.

O coração de Adriana estremeceu. Ela apertou os dedos trêmulos contra a palma da mão e prometeu, com a voz quase sumindo:

— Não vou perturbar.

Ela não soube dizer como conseguiu sair daquele escritório sufocante. Sua única lembrança era a imagem de Luciana aninhada confortavelmente nos braços de António, imóvel, enquanto ele não fazia o menor movimento para afastá-la.

A raiva dele se devia, sem dúvida, à interrupção daquele momento íntimo. Em sete anos de convivência, era a primeira vez que Adriana testemunhava António perder o controle daquela forma.

Toda aquela calma e racionalidade habituais pareciam ter sido apenas uma fachada. Talvez os homens só fossem incapazes de conter seus impulsos e paixões diante da mulher que realmente amam. Caso contrário, como explicar aquela ousadia de protagonizar uma cena erótica em pleno escritório, à luz do dia?

Assim que o horário de expediente encerrou, Adriana desligou o computador e se levantou para sair. Os colegas da secretaria arregalaram os olhos, atônitos. Adriana era conhecida na Ventura Investimentos como uma "máquina de trabalho", detentora do recorde anual de horas extras, especialmente desde que assumira o Setor Três, praticamente morando na empresa. E agora, ela estava saindo pontualmente? Era inacreditável.

Mal cruzou a porta de saída, o telefone tocou. Era Simão Freitas.

Em qualquer outro dia, Adriana teria rejeitado a chamada ou inventado uma desculpa, afinal, Simão era um headhunter que tentara recrutá-la inúmeras vezes, sempre esbarrando em sua recusa. Dessa vez, porém, ela atendeu sem hesitar, deixando Simão tão surpreso que ele quase esqueceu o motivo da ligação.

— Sr. Simão, teria tempo para jantar comigo hoje? — Convidou Adriana.

— Sim, sim, claro! — Gaguejou Simão, empolgado. — Para atender a um convite seu, tenho tempo a qualquer hora! Do que você gosta? Reservo o restaurante!

— Se possível, escolha um lugar com comida leve, meu estômago não está ótimo. — Pediu ela.

— Feito! Sem problemas! Vou reservar e te mando a localização. Até logo!

— Até logo. — Respondeu ela.

Adriana passou em casa para trocar de roupa antes de ir ao encontro. O apartamento alugado ficava perto da empresa; embora o aluguel fosse caro, a proximidade facilitava sua rotina de horas extras. António nunca compreendera essa escolha; ele desprezava o lugar, achando-o pequeno e bagunçado demais. Visitou-o apenas uma vez e nunca mais voltara. Quando precisava dela, exigia que ela fosse até a residência dele.
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