Capítulo 8
António não fazia a menor ideia, mas a desordem que imperava no quarto de Adriana existia por uma única razão. O espaço estava atulhado com os pertences dele.

Sendo um workaholic incorrigível, ele exigia que sua secretária executiva estivesse à disposição vinte e quatro horas por dia, e aquela demanda transformara a casa dela numa extensão não oficial da empresa.

A mesa de estudos estava soterrada por pilhas de documentos e dossiês que ele poderia solicitar a qualquer instante; as paredes, cobertas por memorandos e cronogramas de viagens milimetricamente calculados. O guarda-roupa mal fechava, abarrotado de smokings e trajes de gala para coquetéis de última hora, enquanto o pouco chão livre servia de depósito para os presentes caros que ele enviava aos clientes. Aquele apartamento alugado, já exíguo por natureza, tornava-se, na prática, o segundo escritório dele.

De todo o cômodo, apenas a cama de solteiro pertencia a ela. Ironicamente, o único móvel que António desprezava por considerar pequeno demais, motivo pelo qual nunca mais pisara ali depois daquela única e fatídica vez.

Antes de sair para o jantar, Adriana ligou para uma transportadora e agendou a retirada de tudo para o fim de semana. Era hora de fazer uma limpeza definitiva e se livrar de tudo o que não lhe pertencia.

...

Simão escolheu um lugar chamado Restaurante Luar, uma casa recém-inaugurada de culinária local que já gozava de boa fama na cidade.

Percebendo a atenção aos detalhes ao ler o cardápio, Adriana notou que todos os pratos sugeridos por ele eram leves e saudáveis, provavelmente porque ela mencionara ao telefone, dias atrás, que seu estômago andava sensível.

Era um gesto atencioso. E quem realmente tinha coração e se importava, não precisa ser ensinado.

Antigamente, ela passava os dias tentando convencer a si mesma de que a negligência de António se devia apenas ao foco excessivo dele no trabalho, forçando-se a aceitar aquela personalidade distante.

Contudo, a realidade se impôs naquele dia. António sabia, sim, ser atencioso quando queria. Afinal, ele levava Luciana pessoalmente à Cozinha da Avó para tomar uma sopa nutritiva apenas porque a moça estava no período menstrual.

Havia ironia naquilo, mas Adriana decidiu não se deixar amargar.

Para o jantar, ela abandonou o visual corporativo que parecia soldado ao seu corpo. Trocou os terninhos escuros por um conjunto claro e leve, e soltou os cabelos, habitualmente presos num coque severo. O contraste foi imediato. Sua pele, naturalmente alva e macia, ganhou um brilho quase etéreo sob o tecido suave. A transformação foi tamanha que, ao chegar à mesa, Simão piscou várias vezes, atônito.

— Sr. Simão, peço desculpas pela espera. — Cumprimentou ela, tomando a iniciativa diante do silêncio dele.

Simão parecia que ia deixar os olhos saltarem das órbitas.

— Adriana? Nossa... a mudança é radical. — Gaguejou ele, levantando-se para puxar a cadeira. — Sinceramente, quase passei direto por você! Não a reconheci.

Ao se sentar, uma mecha de cabelo escorregou pelo ombro dela, e ela a ajeitou com um gesto casual, mas carregado de uma elegância natural que hipnotizou o homem à sua frente. Simão não se conteve:

— Adriana, posso fazer uma pergunta um tanto... indelicada?

— Fique à vontade. — Respondeu ela, com um sorriso franco e desarmado.

— A sua empresa tem alguma regra bizarra no contrato de trabalho?

Adriana ergueu uma sobrancelha, divertida com o rumo da conversa.

— Como assim? Tipo o quê?

— Tipo obrigar mulheres bonitas a se enfeiarem de propósito durante o expediente.

Ela soltou uma risada leve, um som agradável que quebrou qualquer resquício de formalidade.

— Vou considerar isso um elogio, Sr. Simão.

— Não é elogio, é pura constatação! Sou pago para avaliar pessoas e enxergar a verdade, lembre-se.

Como um headhunter de elite, Simão possuía uma inteligência emocional afiada. Em poucas frases bem colocadas, ele dissipou a tensão inicial, criando um ambiente leve e harmonioso entre os dois.

Naquele momento, Renato saiu de uma sala reservada do restaurante e teve a atenção capturada num instante pela mulher sentada perto da janela. A posição de Adriana era estratégica. A luz dourada do pôr do sol entrava pelo vidro, banhando-a numa aura luminosa que lhe conferia uma beleza quase divina, difícil de descrever.

Hipnotizado, Renato caminhou na direção dela sem pensar, atraído como uma mariposa pela luz. Quando Adriana virou o rosto e seus olhares se cruzaram, ele estancou. O choque foi visível em sua expressão.

Aquela era a Adriana?

Parecia, mas ao mesmo tempo, não tinha nada a ver com a figura que ele conhecia.

Em sua memória, a secretária de António era uma mulher antiquada, sempre vestida de forma conservadora, com ares de velha e desprovida de qualquer feminilidade. Ele chegara a questionar o gosto do amigo em segredo, perguntando-se por que António manteria alguém tão sem graça por perto, e levaria para a cama, tendo tantas opções deslumbrantes ao seu alcance. Agora, a ficha caía. Ele era ingênuo. António, na verdade, estava muito bem servido esse tempo todo.

O contato visual durou apenas um segundo. Adriana desviou o olhar com absoluta indiferença, como se visse um estranho qualquer, e voltou a conversar com Simão.

A frieza dela irritou Renato profundamente.

Quem ela pensava que era? Para ele, Adriana não passava de uma subalterna, uma espécie de "cão de guarda" que António chamava e dispensava a seu bel-prazer. Aquela pose de altivez e indiferença era ridícula aos olhos dele.

"Falsa puritana", pensou, com desdém.

Decidido a marcar território, Renato se aproximou da mesa, mas dirigiu a palavra apenas a Simão, ignorando-a deliberadamente.

— Sr. Simão! Quanto tempo. O que faz por aqui?

Sendo Renato o segundo filho da família Nogueira, Simão sabia que devia tratá-lo com cortesia, apesar da fama de playboy e da arrogância habitual do rapaz. Negócios eram negócios.

— Sr. Renato, como vai? Você sabe como é o meu ramo... estou sempre circulando, à caça de talentos. — Respondeu Simão, jovial.

— Caçando talentos, é? — Renato repetiu, lançando um olhar carregado de escárnio e significado para Adriana. Um sorriso de canto de boca surgiu em seus lábios, beirando a zombaria. — Pelo visto, seu padrão de qualidade caiu um pouco.

— Que é isso, Sr. Renato? — Retrucou Simão, mantendo o tom profissional, mas firme. — A Adriana é uma das profissionais mais disputadas do mercado atualmente.

Renato soltou uma risada curta, sem humor, e cruzou os braços.

— Talvez você não saiba, mas o António acabou de trazer um peixe grande de fora para a Ventura Investimentos. Uma doutora pelo Instituto WT de Negócios, ex-JPMorgan Chase. Agora é a diretora do Setor Três. — Ele ergueu o queixo, triunfante, como se a conquista fosse dele. — Isso sim é o que eu chamo de elite. Perto disso, o resto é amadorismo.

— De fato, é um currículo impressionante, recursos de ponta. — Concordou Simão, sem se abalar pela provocação.

— Pois é. Acho que você precisa elevar um pouco a barra das suas contratações. — Alfinetou Renato, dando tapinhas condescendentes no ombro do headhunter.

— Agradeço o conselho, Sr. Renato. — Disse Simão, com um sorriso diplomático.

Satisfeito com a própria performance e se sentindo superior, Renato estufou o peito.

— A propósito, sou sócio deste restaurante. O jantar de vocês é por minha conta hoje.

— Não precisa se incomodar, nós podemos...

— Insisto. Não faça cerimônia. Quem sabe um dia eu precise dos seus serviços para algo relevante. — Interrompeu ele, magnânimo. — Considere isso um investimento em networking.

Antes de sair, Renato lançou um último olhar arrogante para Adriana, esperando ver algum sinal de vergonha, inveja ou inferioridade no rosto dela. Para sua frustração, ela continuava impassível, bebendo um gole de vinho com a serenidade de quem assiste a uma peça de teatro entediante.

Sem conseguir atingi-la, ele saiu bufando. A indiferença dela era um insulto. Assim que passou pela porta, sacou o celular. Precisava contar aquilo para António imediatamente.

— António, você não vai acreditar em quem acabei de encontrar! — Exclamou Renato ao telefone.

Do outro lado da linha, António, ainda no escritório e soterrado de trabalho, mal prestou atenção no tom eufórico do amigo. Enquanto segurava o celular com o ombro, apertou o botão do interfone para a secretaria:

— Adriana, traga um café.

Ouvindo aquilo pelo telefone, Renato parou no meio da calçada. António não sabia que ela tinha saído?

"Interessante", pensou, com um sorriso malicioso brotando nos lábios.

— Quem você viu? — Perguntou António, enquanto aguardava o café, sua voz soando cansada.

— O Simão. — Respondeu Renato, omitindo o nome principal de propósito para aumentar o suspense. — Ele estava num jantar de negócios, tentando recrutar alguém.

Naquele instante, alguém bateu à porta do escritório.

— Entre.

Quem entrou foi Lorena, equilibrando a xícara na bandeja com cuidado excessivo. António estranhou imediatamente e suas sobrancelhas se uniram numa linha severa.

— Onde está a Adriana?

— Ela já foi embora, senhor. — Respondeu a assistente, timidamente, intimidada pela aura pesada do chefe.

O cenho de António se franziu ainda mais.

— Ela não ficou para fazer hora extra hoje?

— Não, senhor. Saiu no horário.

Aquilo era atípico. Adriana raramente saía no horário regular, mas ele deduziu que ela devia ter algum compromisso pessoal inadiável, já que falhas profissionais não faziam parte do perfil dela. Dispensou Lorena com um gesto brusco e levou a xícara aos lábios.

No primeiro gole, a expressão dele azedou.

Não era o gosto de sempre. O equilíbrio entre o amargor e a temperatura estava errado, a textura não era a mesma. Faltava aquele toque que só Adriana sabia dar.

Sem a menor vontade de continuar bebendo, António pousou a xícara na mesa com um ruído seco e se recostou na cadeira, massageando as têmporas doloridas. Retomou a atenção à chamada, sua paciência já no limite:

— E quem o Simão está tentando levar dessa vez?

Era a deixa que Renato esperava. Ele quase podia saborear o momento.

— O Simão está jantando com a Adriana! Ele está tentando contratar a sua secretária.
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