Mundo de ficçãoIniciar sessãoA mansão dos Albuquerque em Joinville era uma fortaleza de vidro e mármore, mas para Lívia, parecia uma prisão dourada. Ela andava de um lado para o outro em seu escritório, ignorando a vista panorâmica da cidade. Sua mente estava presa naquele par de olhos azuis tempestuosos que a salvaram na noite anterior.
— Senhora Lívia? — A voz do chefe de segurança, Marcos, soou na porta. — O... homem que a senhora pediu para buscar. Ele está aqui. Já passou pelo banho e pelos cuidados que a senhora ordenou.
Lívia respirou fundo, recompondo sua postura de CEO. — Mande-o entrar.
Ela esperava ver o mesmo homem curvado e maltrapilho, talvez apenas com roupas novas. Mas quando a porta se abriu, o ar pareceu ser sugado para fora do escritório.
Lívia congelou.
O homem que atravessou o batente não era um mendigo. Era uma força da natureza.
Sem a barba emaranhada, o rosto de Frederico revelava traços esculpidos em granito: uma mandíbula forte e quadrada, maçãs do rosto proeminentes e lábios firmes que pareciam guardar segredos perigosos. O cabelo, agora limpo e penteado para trás, ainda úmido, brilhava com um tom castanho escuro profundo.
Ele vestia um terno preto simples que Lívia havia providenciado, mas as peças pareciam feitas sob medida para seus ombros largos e peito imponente. Ele se movia com uma elegância letal, cada passo calculado, como um rei que havia acabado de recuperar seu trono.
— Você... — Lívia começou, mas sua voz falhou. Ela pigarreou, tentando recuperar a autoridade. — Você está limpo e muito bem, Frederico.
Ele parou a dois metros dela. O cheiro de álcool barato havia sumido, substituído pelo aroma de sândalo e sabão caro. O contraste era perturbador.
— Roupas novas não mudam quem um homem é, Dona Lívia — a voz dele ecoou pelo escritório, mais clara agora, mas mantendo aquele tom grave que vibrava no peito dela. — Por que me trouxe aqui? Já recebeu sua filha de volta.
Lívia caminhou até ele, forçando-se a sustentar o olhar. Perto dele, ela se sentia pequena, algo que raramente acontecia.
— Meus seguranças falharam ontem. Você, um homem que não tinha nada a ganhar, agiu antes de todos eles. Eu tenho inimigos, Frederico. Pessoas que querem o que eu herdei do meu marido. Pessoas que não hesitariam em usar a Loren para me destruir.
Ela deu mais um passo, sentindo o calor que emanava do corpo dele.
— Eu quero você como sombra da minha filha. Babá em tempo integral, segurança quando necessário. Você viverá aqui. Terá o melhor salário da cidade.
Frederico soltou um riso seco, sem humor.
— Você quer colocar um lobo para cuidar da sua ovelha? Você nem sabe quem eu sou. Eu poderia ser um assassino, uma ameaça pior do que as que você já enfrenta.
Lívia estreitou os olhos, sentindo uma faísca de desafio.
— Meus investigadores procuraram por você a noite toda. Não existe um registro de "Frederico" com suas características nos últimos dez anos. Você é um fantasma. Mas o jeito que você olhou para a minha filha ontem... — ela baixou o tom — ...não era o olhar de um assassino. Era o olhar de um homem que já perdeu tudo e não suportaria ver mais ninguém perder o que ama.
O silêncio pesou entre eles. Frederico sustentou o olhar, e por um segundo, Lívia jurou ter visto uma rachadura na armadura dele — uma dor tão profunda que a fez querer tocá-lo.
— Aceite a proposta — ela insistiu. — Ou volte para o bueiro de onde te tirei. A escolha é sua.
Frederico olhou para as próprias mãos, limpas agora, mas que ainda sentiam o peso invisível do sangue de seu passado em São Paulo. Ele precisava de um propósito. E aquela mulher... aquela mulher era a primeira coisa que o fazia sentir-se vivo em anos.
— Eu aceito — ele disse enfim. — Mas com uma condição.
— Qual?
— Não tente desenterrar o que está morto, Lívia. Meu passado pertence às sombras. Se você tentar iluminá-lo, todos nós sairemos queimados.







