Mundo de ficçãoIniciar sessãoDepois que a mãe saiu, Deyse chorou amargamente, sentindo uma angústia insuportável. Ela se ajoelhou no chão, como se uma dor profunda estivesse dilacerando seu coração, como se uma lâmina estivesse cortando seus sentimentos em pedaços.
Uma jovem se aproximou: era Liliane, sua colega de quarto e bolsista. — Deyse, o que aconteceu? Você está sentindo dor? — perguntou Liliane, preocupada. Deyse não respondeu, apenas continuou a chorar. — Por favor, alguém me ajude! — gritou Liliane. Um jovem que passava se aproximou, preocupado. — O que aconteceu? — indagou ele enquanto tentava ajudar Deyse a se levantar. — Eu não sei… Ajude-me a levá-la para o quarto — pediu Liliane, com a voz trêmula. O jovem segurou Deyse em seus braços e a levou até o quarto. Assim que entraram, ele a deitou na cama com cuidado. Liliane pegou um copo com água e ofereceu a ela. — Obrigada, Arthur — disse Liliane, aliviada. — Não precisa agradecer — respondeu ele, olhando para Deyse, que ainda estava deitada. — Deyse, o que você está sentindo? — perguntou Arthur com preocupação. Mas ela não respondeu; apenas chorou ainda mais. Liliane sentou-se ao lado da amiga e a abraçou suavemente. — Está tudo bem — disse ela com calma. — Não sei o que aconteceu, mas quero que saiba que a dor não é eterna. Para alcançar a vitória, é preciso enfrentar e conquistar as guerras da vida. Ela continuou: — As mais lindas poesias foram escritas nas mais intensas tribulações. O que estou querendo dizer é que nas nossas angústias encontramos força. E depois que essa angústia passa, olhamos para trás e conseguimos dizer: "Eu venci! Sou mais forte do que imaginava". Com essas palavras reconfortantes, Deyse encostou a cabeça na amiga e os soluços começaram a diminuir lentamente. Quando estava mais calma, ela começou a falar: — Desde pequena, minha mãe sempre demonstrou preferência pela minha irmã. Ela sempre me intimidou e me batia; minha mãe dizia que eu merecia isso por provocar minha irmã. E sempre que desaparecia dinheiro... quem levava a culpa? — Você? — perguntou Liliane. — Exato — confirmou Deyse com um tom de desespero na voz. — E o seu pai? O que ele dizia? — perguntou Liliane com curiosidade. — Meu pai era muito ocupado; trabalhava tanto que quase não ficava em casa. Os únicos dias em que eu não apanhava eram quando ele estava por perto… mas isso acontecia raramente, só nos finais de semana — explicou Deyse. — E você nunca pensou em contar o que acontecia? — indagou Liliane suavemente. — Eu tentei uma vez… mas fui ameaçada pela minha mãe. Meu pai nunca estava em casa quando isso acontecia… Quando minha mãe decidiu me mandar para um colégio interno foi um alívio — revelou Deyse com um sorriso triste nos lábios. —Deyse, você não deveria ter escondido os maus-tratos do seu pai. As coisas poderiam ser diferentes— Agora você tem 25 anos e está quase se formando; falta apenas dois meses. Siga sua carreira, você é incrível no que faz e não precisa se preocupar com sua mãe e irmã. Olha, eu não conheço essa tal de Amara, mas se conhecesse, com certeza daria uns bons t***s nela! Deyse riu ao ver o gesto de Liliane, que balançava a mão aberta de forma brincalhona. Mas logo, a expressão de Deyse se tornou séria. —Eu nunca soube que papai estava enfrentando problemas financeiros. Agora arrumaram um casamento para mim! Daqui a um mês! Como posso casar tão nova com alguém que não conheço? Eles me venderam! Liliane se levantou indignada. —Isso é um absurdo! Quem eles pensam que são para fazer isso? Você já falou com seu pai sobre isso? —Você não entende, Liliane. Foi meu pai quem organizou esse casamento em troca de uma simples colaboração em um projeto. Eles só querem recuperar prestígio na sociedade. Agora entendo porque papai me enviou para um colégio religioso; ele já planejava me usar como uma mercadoria, Deyse disse, as lágrimas escorrendo pelo rosto. —Seus pais são monstros! Desculpe dizer isso,— Liliane exclamou. —Você não pode ceder à chantagem deles! A vida é sua; quem vai estar ao lado de um desconhecido é você, não eles! —Eu não posso fugir disso, Liliane. Meu pai está doente,—Deyse respondeu, mostrando o exame que a mãe havia entregado. —Se ele tiver emoções fortes, pode infartar e morrer.” —Então você está dizendo que vai se casar para satisfazer a vontade da sua família?—Liliane questionou, visivelmente preocupada. —Não fique brava comigo, Liliane,— Deyse suspirou. —Talvez seja melhor assim... Quem sabe eu tenha sorte e meu marido não me bata como minha mãe.— Ela respirou fundo, revelando a dor acumulada. —Eu já sofri tanto nas mãos da minha mãe e irmã que cheguei a tentar tirar minha própria vida quando tinha 12 anos. Pulei no lago e quase me afoguei; alguém me salvou,— Deyse confessou, com os olhos marejados. —Talvez eu corte laços com elas depois do casamento. —Pare com isso, Deyse! Você está dizendo isso só para eu não ficar triste? Eu ainda acho que você deveria denunciar essa família idiota! Isso é crime! Você não é uma mercadoria; você é filha deles e irmã! Qual é o problema em ser pobre? —Está tudo bem, Liliane. Isso é bem comum entre empresários; casamentos são tratados como alianças comerciais,—. Deyse disse, tentando desviar o foco da dor que ainda era evidente em seu olhar. Liliane sentia uma raiva crescente por não poder fazer nada a respeito da situação. —Desculpa,—disse Deyse, tentando se recompor. —Eu preciso sair para respirar um pouco. Se não, sou eu quem vou ter um enfarte aqui,—respondeu Liliane, tentando manter a calma. —Tudo bem,— Deyse respondeu, forçando um sorriso amargo enquanto Liliane ligava o celular e saía andando pelos corredores, com os olhos vermelhos e cheios de lágrimas. No entanto, distraída, ela acabou esbarrando na valentona da faculdade. —Você está cega, bolsista?—a garota disparou com raiva. —Não está me vendo? Liliane apenas olhou para ela e disse: —Desculpa,— afastando-se. Mas a valentona não deixaria isso passar em branco. Ela agarrou o braço de Liliane com força e exigiu: —Ajoelhe-se e peça desculpa! E se você lamber os meus sapatos, aí eu penso se te perdoo. —E se eu não fizer isso?— perguntou Liliane, desafiadora. —Ah, querida,—Célia respondeu com um sorriso desdenhoso, —se você não fizer, vou enfiar sua cabeça no vaso sanitário e você vai sentir na pele o que é mexer comigo. Eu sou uma Montenegro! —E daí que você é uma Montenegro?— retrucou Liliane. Célia continuou: —Você e todos os restos devem me respeitar! Liliane olhou bem nos olhos dela e disse: —Você conhece essa palavra ‘respeito’? Acredito que não. Respeito se conquista; não se força. E você claramente não tem respeito próprio. Você só é uma idiota que provavelmente não é amada em casa e aqui tenta intimidar todo mundo para se sentir bem. Mas deixa eu te dizer uma coisa: isso não funciona comigo. Você me pegou em um dia muito ruim e não tenho paciência para suas palhaçadas e arrogância. É melhor você tirar a mão do meu braço ou vai se arrepender.






