Capítulo 8

Capítulo 8

Louise Brown

Eu não devia ter ligado para ele, mas, na hora, não consegui raciocinar. Foi o primeiro número que apareceu quando liguei o celular.

Ver aqueles urubus da imprensa tentando cavar algo que não era da conta deles me deixou nervosa, me trouxe lembranças que só quero apagar. Mas percebi que ele ficou ainda mais incomodado. É claro que ele não quer ser visto ao meu lado assim... de qualquer jeito. Isso certamente não faz bem para ele nem para o nome da sua família.

Apesar de ser sempre tão educado comigo, eu preciso saber o meu lugar. Isso aqui é só um contrato. Repito isso várias vezes na minha mente... e preciso aceitar, são só negócios.

Quando o médico disse que começaria o tratamento da minha tia e que a glicemia dela estava alarmante, meu mundo desabou. Perder a minha tia me destruiria. Ela é tudo o que tenho.

Ele explicou todo o protocolo e eu apenas concordei, sem forças para questionar. Não tenho como mudar essa realidade: ela simplesmente não cuida da diabetes. Está cada vez pior. Ela não tropeçou à toa, a taxa de glicemia estava altíssima.

Sempre foi assim... Ela se descuidou por anos, focada demais em cuidar de mim. Trabalhou muito para que eu não sentisse falta de nada, e acabou se deixando de lado. Agora, estamos aqui.

Mas eu vou fazer o impossível. Não vou poupar esforços. Já fui longe demais para voltar atrás. Ela vai ter o melhor tratamento, custe o que custar.

Recebi uma mensagem do James avisando que estava indo para casa, mas que eu poderia ligar se precisasse de qualquer coisa. Só que agora eu tenho dinheiro. Não vou ligar. Pedir ajuda foi um erro… erro que não vou cometer novamente.

— Louise, por que estamos aqui?

— Tia Valéria, que susto me deu! A senhora está tomando os remédios? Está medindo a glicemia?

— Ah, minha filha... já falei que não gosto. Aquilo tem um gosto horrível. Além disso, é muito caro...

— Chega disso! O valor não importa. Estou ganhando bem, tia, e isso não é mais um problema. Vamos fazer o tratamento direitinho. O doutor começa amanhã cedo. E a senhora vai ter que ficar aqui, porque anda muito rebelde, dona Valéria!

Falei com ela como se fosse uma criança teimosa, tentando impor algum controle naquela situação.

— Eu não mereço tudo isso, Lou... Você devia gastar com você, não comigo. Uma velha que já está passando da hora nesta terra...

— Por favor, não fala assim. Eu não consigo viver sem você. A senhora é tudo o que eu tenho. Não ouse me deixar.

Falei num tom de desespero, quase uma súplica, porque era exatamente assim que eu me sentia. Ela me abraçou e afagou meus cabelos, como sempre fazia quando eu era pequena.

— Você precisa pensar em você, minha pequena. Namorar, casar, ter uma família... viver, enfim.

— E eu vou ter tudo isso. Mas com a senhora junto. Vamos formar essa família. Seus netos correndo por aí te chamando de vovó... Vamos viver tudo isso, está bem?

Ela sempre foi a única mãe que conheci. Mal me lembro dos meus pais, apenas por fotos ou pelas histórias que ela conta. Eles me amaram muito, eu sei disso, mas amor mesmo... só senti dela. Da minha tia Valéria, eu não tenho outra lembrança...

Ela adormeceu por causa dos remédios. Peguei o celular e comecei a escrever uma mensagem para a Elisa. Eu precisava desabafar...

Mas ela está no Japão. Desisti assim que lembrei do fuso horário. Não nos falamos há muito tempo, e eu não tenho mais ninguém, tão íntima com quem possa me abrir. Respirei fundo e me encolhi no pequeno sofá. Eu só precisava descansar um pouco. Só um pouco...

Quando o sono chegou, o rosto que tem me perseguido nos últimos dias apareceu de novo. Aquele sorriso frio... que antes me dava medo... agora me fazia suspirar. O cheiro inebriante de menta com madeira invadiu meus sentidos, me deixando em alerta.

Senti minha intimidade pulsar ao imaginar suas mãos me tocando. Tudo parecia tão real, tão vívido... Tentei lutar contra os pensamentos, contra as imagens que se formavam, mas foi inútil. Sabia que estava sonhando, até que senti um puxão, e despertei assustada.

— Meu Deus! O que está fazendo aqui?!

Era ele. O cheiro não era só imaginação. Ele realmente estava ali.

— Vim trazer umas roupas. E ver se você precisa de algo. Você é minha namorada, esqueceu?

— Xiiii! Não fala isso! Minha tia não sabe de nada! Imagina se ela acorda?!

O tirei rapidamente do quarto, preocupada.

— Não precisa fingir preocupação. Sua conversa com os repórteres foi boa. Eles já foram embora.

Ele me olhou por alguns segundos, como se quisesse dizer algo, mas estivesse buscando as palavras.

— Toma.

Ele me entregou uma sacola de papel de uma loja cara. Dentro, alguns pijamas novos.

— E pra vocês ficarem mais confortáveis, pedi que fossem transferidas para a ala da minha família, aqui no hospital.

— Não precisa! Eu tenho dinheiro. Vou pagar por tudo.

— Louise... isso não é sobre dinheiro. É sobre o melhor tratamento pra sua tia. Apenas aceite. E pare com tanta teimosia. Você estava tentando dormir num sofá minúsculo... lá terá uma cama, espaço, conforto. Tudo à sua disposição.

Antes que eu respondesse, os enfermeiros entraram e levaram a maca com a minha tia. Peguei minha bolsa e os segui, sentindo James logo atrás de mim.

— Amanhã, minha mãe vem fazer uma visita pra vocês. Tente conversar com sua tia sobre “nós” o quanto antes. Mesmo que eu peça pra minha mãe ser discreta... ela está empolgada demais. Não costumo apresentar namoradas, e ela já acha que vamos casar e ter filhos.

Engasguei com a própria saliva de susto. Comecei a tossir ali mesmo no corredor, e ele bateu nas minhas costas até eu me recuperar.

— Se ela souber que é tudo um contrato... e que eu ainda sou virgem, ela vai me odiar.

— É impossível te odiar, Louise. Isso está fora de cogitação, ninguém conseguiria. Bom, eu preciso ir. Se instalem. Mas, repito: se precisar, me ligue.

Os olhos dele encontraram os meus. E eu senti um turbilhão de emoções. Algumas que eu desejava jamais ter sentido. E muito menos... por ele, mas agora vem a parte difícil contar isso a minha tia, como?

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