Ao ver os olhos dela avermelhados, o gerente, no fim das contas, não ousou fazer mais perguntas.
Ele organizou rapidamente os documentos e disse com respeito:
— Providenciaremos os trâmites o mais rápido possível e, quando chegar o momento, informaremos imediatamente a senhora sobre o horário exato de ida para a ilha.
Larissa assinou com firmeza e rapidez. Em seguida, tirou o cartão preto da carteira e, ao passá-lo, sua mão permaneceu estável, sem o menor tremor.
Ao voltar para casa, já estava completamente escuro.
No momento em que Larissa empurrou a porta, a luz amarelada e acolhedora da sala se derramou para fora, iluminando uma cena animada no sofá.
Marcelo estava descascando uma maçã para Nanda. Seus dedos longos seguravam a faca com elegância, e seus movimentos eram refinados, como os de alguém que esculpia uma obra de arte. Os três irmãos mais velhos estavam sentados ao redor do sofá. O segundo irmão segurava uma bandeja com remédios e tentava convencê-la em voz baixa:
— Nanda, já está na hora de tomar o remédio.
— É amargo demais. — Nanda franziu o nariz, fazendo charme. — Eu quero comer um doce.
O terceiro irmão imediatamente tirou do bolso um bombom de leite:
— Era o seu preferido quando você era pequena. Eu sempre mantive alguns comigo para você.
Larissa permaneceu parada na entrada, com as pontas dos dedos cravadas na palma da mão.
— Larissa? — Marcelo foi o primeiro a percebê-la. Ele largou a faca de frutas e caminhou até ela. — Por que você não esteve em casa hoje? Aonde foi?
Sua voz continuava suave, tão suave que nem parecia vir do homem que abraçou e beijou Nanda intensamente na porta do cartório naquela tarde.
Larissa não disse nada. Seu olhar passou por ele e pousou sobre Nanda.
Marcelo seguiu a direção do olhar dela e explicou em tom natural:
— Nanda voltou ao país com uma doença terminal. O último desejo dela é que nós a acompanhemos nesta etapa final. — Ele fez uma pausa antes de continuar. — Embora tenha sido errado ela fugir do casamento naquela época, pensei que, afinal, ela é sua irmã. Em consideração a você...
— Em consideração a mim? — Larissa de repente sorriu. — Ou será que você simplesmente nunca conseguiu esquecê-la?
Marcelo franziu levemente a testa:
— Larissa...
— Larissa! — O irmão mais velho, Sandro Freitas, se aproximou. Por hábito, quis afagar os cabelos dela, mas congelou no meio do gesto e, em vez disso, deu leves tapinhas em seu ombro. — Nanda não tem mais muitos dias de vida, e nesta casa não fará diferença sustentar mais uma pessoa.
— Exatamente. — Continuou o segundo irmão, Emerson Freitas. — Embora ela tenha sido travessa quando era criança, depois de sofrer tanto lá fora, agora já reconheceu os próprios erros. No fim das contas, somos uma família.
O terceiro irmão, Douglas Freitas, se aproximou ainda mais, pressionando ela:
— Larissa, você sempre foi a mais sensata, não é?
Larissa ouvia cada um deles dizer uma frase atrás da outra, e seu coração doía até ficar quase entorpecido.
No fim, ela assentiu levemente:
— Está bem.
Os quatro homens soltaram um suspiro de alívio ao mesmo tempo, e seus rostos revelaram expressões de consolo.
— Fique aqui fazendo companhia para Nanda por enquanto. — Marcelo disse com suavidade. — Nós vamos arrumar o quarto dela.
Somente depois que o som dos passos deles desapareceu na escada, Nanda caminhou lentamente até ela.
Seu rosto estava pálido, mas isso não conseguia esconder o brilho vitorioso em seus olhos:
— Larissa, depois de cinco anos sem nos vermos, eu trouxe um presente para você.
Larissa recuou um passo por reflexo.
Desde pequena, os "presentes" dados por Nanda sempre eram armadilhas, ou eram bonecas com agulhas escondidas, ou bolos misturados com laxante.
— Fique tranquila. — Nanda sorriu com doçura e inocência. — Eu não vou machucar você de novo como fiz cinco anos atrás.
Depois de dizer isso, ela enfiou à força a caixa de presente nos braços de Larissa e, ainda a ajudou a abrir a tampa.
— Ah!
Uma cobra venenosa, inteiramente negra, se lançou para fora de repente e mordeu com violência o pulso de Larissa.
Uma dor aguda se espalhou instantaneamente. Por instinto, Larissa arremessou a caixa para longe, mas atingiu o ombro de Nanda.
Aproveitando o impulso, Nanda caiu sentada no chão e soltou um grito agudo de dor:
— Dói tanto.
— O que aconteceu?
Quando os quatro homens desceram correndo as escadas, o que viram foi exatamente aquela cena.
Nanda estava caída no chão, com o rosto banhado em lágrimas, enquanto Larissa segurava o pulso ensanguentado, com o rosto pálido como papel.
Marcelo foi o primeiro a correr até elas e empurrou Larissa com força:
— O que você está fazendo?
Larissa cambaleou e bateu contra uma mesa pequena, uma dor lancinante atravessou a parte inferior de suas costas.
— Nanda teve a bondade de te dar um presente. — Sandro ajudou Nanda a se levantar, com o rosto frio. — E foi assim que você a tratou?
— Era uma cobra. — Larissa estava coberta de suor frio por causa da dor. — Ela soltou uma cobra venenosa para me morder.
— Que absurdo você está dizendo! — Douglas a interrompeu com severidade. — Nanda agora mal consegue andar. Como ela teria tempo de arranjar uma cobra venenosa para ferir você?
Nanda chorava de forma extremamente dolorosa:
— Marcelo, Sandro, Emerson, Douglas, eu apenas queria dar um presente para me reconciliar com a minha irmã. Nunca imaginei que ela tinha tanto ressentimento contra mim para me caluniar dessa maneira.
Larissa não esperava que, passados cinco anos, Nanda ainda mantinha uma atuação tão perfeita. Se sentindo profundamente injustiçada, se apressou em se apoiar com dificuldade para pegar a caixa de presente:
— Eu não estou mentindo. Se vocês não acreditam, então olhem.
— Chega! — Marcelo agarrou seu pulso com força. O ferimento da mordida de cobra voltou imediatamente a sangrar em abundância. — Ela é sua irmã e ainda está doente, como você pôde ser tão cruel?
Emerson já havia tomado Nanda nos braços:
— Vamos primeiro ao hospital. Ela não pode sofrer nenhum abalo.
Os quatro saíram às pressas, e ninguém voltou a olhar para Larissa nem sequer uma vez.
— Era mesmo uma cobra venenosa.
Larissa permaneceu ajoelhada no chão. O veneno começou a se espalhar, e sua visão foi ficando cada vez mais turva.
Ela viu a empregada correr até ela em completo desespero, ouviu os gritos aterrorizados da outra, mas sua consciência foi se apagando aos poucos.
— Sra. Larissa! Sra. Larissa! — A empregada Lilian se ajoelhou ao lado dela, tremendo enquanto lhe dava leves tapas no rosto. — A senhora precisa acordar!
A ambulância a levou ao hospital em meio ao som estridente da sirene, mas, assim que ela foi empurrada para a sala de emergência, o médico foi chamado às pressas para outro lugar.
— Desculpe, todos os médicos foram transferidos para o quarto VIP. — Disse a enfermeira, constrangida. — O estado da Srta. Nanda piorou repentinamente. A chefia deu uma ordem rigorosa: hoje, todos os médicos só podem cuidar da Srta. Nanda. É melhor vocês procurar outro hospital.
Lilian falou em tom aflito, com a voz embargada:
— Não pode ser. A minha Sra. Larissa não vai aguentar. Se a transferirem para outro hospital, ela certamente vai morrer.
Larissa estava deitada na cama do hospital, com a consciência oscilando entre momentos de lucidez e apagamento. A dor intensa fazia suor frio escorrer por todo o seu corpo, mas o que mais doía era o coração.
Ela tirou o celular e, reunindo todas as forças que lhe restavam, ligou para Marcelo.
O telefone tocou por muito tempo antes de ser atendido.
— Marcelo... — Sua respiração estava fraca. — Eu fui mordida por uma cobra venenosa... Será que você pode, mandar um médico.
— Larissa! — A voz de Marcelo estava fria como gelo. — Por causa daquele empurrão que você deu em Nanda, o estado dela piorou! Ela está com câncer. Como você pôde ser tão cruel? E numa hora dessas, você ainda quer fingir?
— Não... Eu realmente...
A ligação foi desligada sem piedade.
Larissa segurou o celular, enquanto as lágrimas escorriam silenciosamente por seu rosto. Com tanta dor, ela se encolheu toda, e sua consciência foi ficando cada vez mais turva.
— Sra. Larissa! Sra. Larissa! — Lilian chorava e gritava enquanto a sacudia. — Não durma! A senhora não pode dormir de jeito nenhum!
Mas ela já não conseguia mais resistir. Sentia tanta dor, tanto cansaço.
Então, lentamente, ela fechou os olhos.