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CAPÍTULO SEIS: Depois da Floresta

Não dormi.

Fiquei deitada de olhos abertos até o teto virar cinza com a manhã, revivendo cada segundo daqueles dois minutos na borda da floresta com uma precisão que meu cérebro não costumava reservar para coisas boas. A mão de Kai no meu rosto. O modo como ele havia recuado quando Dorian apareceu — não assustado, não surpreso, mas pronto. Como alguém que já esperava aquilo e estava só aguardando o momento certo.

E Dorian, com aquela calma de quem achou exatamente o que estava procurando, olhando para mim antes de olhar para ele.

Levantei com o alarme sem ter fechado os olhos uma vez.

A escola tinha aquele peso específico das manhãs depois de alguma coisa ruim — como se o ar estivesse mais denso, como se as pessoas andassem um pouco mais devagar sem saber por quê. O velório de Maya Sorensen era no fim de semana. Os corredores tinham cartazes com o rosto dela que pareciam não combinar com nada ao redor, brilhantes demais para um lugar tão opaco.

Encontrei Kai no corredor principal. Ele estava com os irmãos — Luca, dezoito anos, o mais calado dos três, e Damon, dezesseis, que compensava o silêncio do irmão com energia suficiente para duas pessoas. Quando Kai me viu, os outros dois trocaram um olhar rápido e se afastaram sem que ninguém pedisse.

Aquilo também era algo que eu havia parado de achar estranho.

— Você dormiu? — ele perguntou.

— Não. Você?

— Um pouco. — Mentira. Tinha as mesmas marcas na expressão que eu provavelmente tinha. — Sobre ontem à noite—

— Depois — cortei, baixinho. — Aqui não.

Ele fechou a boca. Assentiu.

Fui para a primeira aula carregando o silêncio como coisa física. Na sala de inglês, a cadeira ao meu lado estava vazia. Dorian chegou exatamente quando o professor Marsh fechava a porta, sem pressa, sem desculpa, e sentou com a mesma naturalidade de sempre — como se o horário fosse uma sugestão e ele simplesmente tivesse chegado quando quis.

Não disse nada até a metade da aula.

— Você foi embora sem me deixar explicar — disse, em voz baixa o suficiente para não alcançar as outras carteiras.

— Não havia nada para explicar.

— Havia bastante.

Virei a página do caderno com mais força do que o necessário.

— Dorian. Eu acabei de ver duas pessoas prontas para se jogar uma na garganta da outra no meio de uma rua escura. Não estava exatamente no humor para mediação.

Ele ficou quieto por um segundo. Depois:

— Dois dias atrás você me perguntou quem matou a menina da floresta e eu disse que não sabia ao certo. — Uma pausa. — Agora sei.

A caneta parou na folha.

Levantei os olhos para ele devagar. Estava me olhando de perfil, os olhos fixos na frente com aquela postura de quem faz questão de parecer casual quando não está sendo casual nenhum.

— Então me conta — disse.

— Não aqui.

— Onde?

Ele virou o rosto para mim. A luz da manhã batia nas íris dele daquele jeito cambiante — mais verde do que cinza naquele ângulo, ou talvez o contrário — e havia naquele olhar algo que era ao mesmo tempo alerta e completamente tranquilo.

— Você conhece o café velho na rua do mercado? Às seis.

— Por que eu iria? — perguntei.

— Porque você quer saber — disse ele. Simples. Sem pressão, sem manipulação. Apenas a verdade nua. — E porque se não souber, vai continuar saindo de casa à meia-noite para ficar na borda de florestas onde as pessoas estão morrendo.

Não respondi.

Às seis, eu estava no café.

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