— Não é bem assim, Brenda... você está exagerando — sussurro, tentando desesperadamente colar os pedaços de uma ilusão esfarrapada que, por quatro longos anos, é a única coisa que me mantém de pé.
Minhas próprias palavras soam vazias, sem vida, como um eco distante e patético ressoando no fundo do meu próprio peito.
Eu estou tremendo, minhas pernas ameaçam ceder a cada passo que dou pela calçada fria, mas me esforço com todas as forças para manter o tom de voz baixo, quase inaudível, em um sussurro assustado.
O adestramento é tão profundo que tenho a sensação aterrorizante de que a voz de John pode ressoar no fundo da minha mente a qualquer segundo, farejando a minha desobediência só por estar no telefone.
— O John cuida de mim, ele tem um zelo excessivo comigo porque sabe perfeitamente de onde eu vim. Ele sabe que fui abandonada ainda recém-nascida, que passei por traumas que nenhuma pessoa deveria passar.
Você sabe disso melhor do que ninguém, Brenda, eu tinha só dois anos quando me deixaram naquele berço de ferro do orfanato, embrulhada em uma manta gasta, sem um bilhete, sem um nome de família, sem absolutamente nada. Eu não tinha ninguém no mundo, o John me deu um teto, me deu o sobrenome respeitado dele, me tirou da invisibilidade.
Ele só... ele só quer me proteger das crueldades lá fora. Ele vive me dizendo que o mundo é cruel, hostil e perigoso para pessoas fracas, ingênuas e sensíveis como eu, ele cansa de me repetir que, sem a tutela dele, eu não saberia nem me sustentar, que eu me destruiria em dois dias se estivesse sozinha.
— Ah, tá bom, Annelise, eu vou desligar agora porque juro que não tenho mais estômago para continuar ouvindo você arrumar desculpas para o homem que está te desidratando por dentro! —
A voz de Brenda vem afiada como uma lâmina, rasgando o alto-falante do fone e cortando minhas justificativas ao meio. —
Esse desgraçado está sugando a sua alma dia após dia enquanto você sorri, abaixa a cabeça e ainda agradece por estar trancada dentro daquela casa!
Sinto a minha garganta fechada de uma vez só, o ar simplesmente não entra nos meus pulmões. Um nó cego se forma no meu peito e o pânico puro me domina, o pânico de ser cortada do mundo externo, o terror absoluto de perder a única pessoa na terra que ainda se lembra de quem eu era antes de me transformar nesse fantasma submisso e amedrontado.
— Brenda, espera... não desliga, por favor, por favor, não me deixe sozinha...
— Só mais uma coisa antes de eu desligar, você tem falado com o Lion?
O nome dele faz o meu corpo inteiro enrijecer no mesmo instante, é como se uma descarga elétrica percorresse toda a minha espinha, congelando meus movimentos no meio da rua.
A simples menção a Lion Stanford traz à tona uma Annelise que parece ter sido enterrada há séculos: o som dos meus próprios passos sem medo, o barulho acolhedor dos corredores da faculdade, as tardes ensolaradas em que dividimos uma mesa simples na lanchonete do campus onde eu trabalhava limpando balcões, as risadas francas, a sensação de ser vista como um ser humano de valor.
— Não, claro que não — digo, a voz falhando. — Desde o dia em que o John me pediu em casamento e colocou esse anel no meu dedo, ele me proibiu terminantemente de pronunciar o nome do Lion. E
le me fez apagar o número dele da minha lista na frente dele, olhando nos meus olhos. O John me explicou com paciência como as intenções do Lion nunca foram puras, que ele estava apenas se aproveitando da minha ingenuidade de órfã para me usar e me descartar depois, o John me abriu os olhos para a minha própria cegueira...
— Pára de repetir essas mentiras doentias dele, Annelise! — Brenda me interrompe, a voz vibrando de uma fúria contida. —
Pára de falar como se ele fosse o teu salvador! Você sabe perfeitamente que o Lion é infinitamente mais influente e tem muito mais poder financeiro do que toda essa família tradicional e arrogante do teu marido junta!
A fortuna dos Stanford controla os principais negócios desta região, o Lion é respeitado por todo mundo.
Se você quisesse, Annelise, se você desse apenas um sinal, um único pedido de socorro, o Lion moveria céus e terra, destruiria quem quer que fosse para te tirar de dentro dessa casa. Ele sempre foi completamente apaixonado por você, todo mundo na universidade via o jeito que ele te olhava, o cuidado e o respeito gigantesco que ele tinha pela sua história e pelo seu esforço. O John viu isso também!
O John enxergou o perigo que o Lion representava para o domínio dele, e foi exatamente por isso que a primeira coisa que aquele parasita fez foi chutar o Lion para longe da sua vida!
— Não!
Eu nunca procurarei Lion — afirmo, e uma lágrima quente finalmente escapa dos meus olhos, queimando a minha pele fria antes de pingar na gola do meu casaco fechado. —
Eu jamais faria isso, eu não posso e não tenho o direito de envolver o Lion na podridão da minha vida. S
eria humilhante demais, eu prefiro morrer a deixar que ele me veja assim... reduzida a isso. Uma coitada, uma mulher quebrada e incapaz, implorando por socorro para o homem que eu magoei e me afastei quando escolhi me casar com o John.
— Humilhante, Annelise? Humilhante é a cela de ouro que você aceitou chamar de lar! Humilhante é ver você passando os seus dias pedindo desculpas por simplesmente existir e respirar!