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DESCOBERTA
O ponteiro do relógio avança rapidamente, e os segundos que se passam são preciosos. Preciso chegar logo em casa. Esse pensamento martela na minha mente em um ritmo frenético, quase doentio, enquanto aperto a alça da bolsa contra o corpo e acelero os passos pela calçada movimentada, tentando manter o passo firme, a postura erguida e a aparência de uma mulher equilibrada. O vento frio do fim de tarde castiga meu rosto e agita algumas mechas soltas do meu cabelo, mas não é o clima rigoroso que faz meus dedos tremerem sob o tecido fino do casaco. É o horário. É a casa que me espera. Não posso chegar depois do John. A rotina da minha casa precisa ser precisa. Tudo tem que estar em absoluta ordem, exatamente conforme o John quer. Nada pode estar fora do lugar; nada pode denunciar cansaço, atraso ou distração. Se meu marido chegar e a chave girar na fechadura antes que eu esteja lá dentro, o ar da cobertura se torna imediatamente insuportável. Se a mesa de jantar não estiver posta com o alinhamento milimétrico que ele exige, se os talheres não refletirem a luz na posição correta, se a sala não estiver exatamente como ele gosta, se alguma almofada estiver torta no sofá de linho, se as flores do aparador estiverem levemente inclinadas ou se o jantar atrasar meros cinco minutos... Eu não sei nem o que ele vai falar para mim. Na verdade, sei. Sei muito bem. John não precisa gritar para me destruir. Basta usar aquele tom de voz calmo, manso e profundamente analítico — como se estivesse explicando uma lei a uma criança incapaz de compreender — para desmontar a minha mente peça por peça, até que eu já não saiba onde começou o erro, restando apenas a certeza de que, de alguma forma, a culpa foi minha. Odeio essa sensação com todas as minhas forças, e percebo que perdi o domínio dos meus próprios pensamentos e do meu destino. Não estou pensando na minha fome, no meu cansaço, na dor nas costas ou nos enjoos que me acompanham desde cedo, nem na vontade desesperada de sentar em algum lugar e respirar sem medo. Estou pensando nele. Sempre nele. No que John vai achar, no que John vai dizer. John sempre vai me corrigir, quer eu tenha feito tudo certo ou não. Ele sempre tem uma crítica a fazer, nunca um elogio. Ele tem o poder de transformar qualquer pequeno deslize meu em culpa, faz-me sentir ingrata e me convence de que sou uma mulher tomada pela instabilidade emocional. Desde o nosso casamento, ele aponta a minha incapacidade de ser uma esposa à altura do nome Spencer. Penso tanto nele que, às vezes, tenho a impressão de que a voz dele mora dentro da minha cabeça, policiando todos os meus gestos antes mesmo que aconteçam. De repente, o telefone vibra dentro da bolsa, provocando um salto violento no meu coração. Paro abruptamente no meio da calçada, quase sendo atingida por um homem apressado que resmunga alguma coisa ao passar por mim. Nem respondo. Puxo o aparelho depressa, com as mãos úmidas de suor, e encaro a tela como quem encara uma sentença. É a Brenda. Sempre que ela consegue falar comigo, me dá broncas. Um arrepio de puro medo me percorre antes mesmo de deslizar o dedo para atender. Brenda sabe que não deve ligar. Se John encontrar qualquer vestígio dela no meu telefone, a noite se transformará em um interrogatório silencioso, longo e cruel — daqueles em que ele não levanta a voz, mas faz cada pergunta parecer uma armadilha. Ainda assim, o nome dela na tela acende uma parte antiga de mim, uma parte quase enterrada que sente saudade de ouvir uma voz que me chama pelo que eu era antes de virar apenas a esposa de John Spencer. Respiro fundo, tentando estabilizar a voz para que nenhum vestígio de pânico transpareça, e encosto o corpo na parede de uma loja, me esquivando do fluxo de pedestres: — Oi, Brenda... Saudades, amiga. — Quando é que você vai resolver se libertar desse teu marido psicopata? — A voz dela surge sem preliminares, cortante e direta, ecoando no meu ouvido como um chamado à realidade que venho tentando ignorar há anos. — E não me venha com desculpas! Foi um sacrifício conseguir falar contigo hoje, Annelise. Fecho os olhos por um segundo, sentindo um aperto doloroso no peito. Não é só a palavra que me assusta. Psicopata. É a certeza com que Brenda a pronuncia. Como se já tivesse visto tudo do lado de fora, como se as paredes da minha casa fossem transparentes para ela e todas as desculpas que inventei para sobreviver tivessem perdido a validade. — Não fala assim dele, Brenda. Por favor... — Eu vou falar, Annelise! Porque alguém precisa falar a verdade para você antes que seja tarde demais! — O John só é uma pessoa muito detalhista — argumento, e sinto a fragilidade da minha própria justificativa ecoar no ar antes mesmo de terminar a frase. — Ele gosta de tudo no lugar, só isso. Ele cuida do nosso espaço. Foi criado assim, em uma família muito tradicional. Eles têm hábitos diferentes dos nossos. Do outro lado da linha, Brenda solta uma risada curta, seca, desprovida de qualquer humor. — Detalhista? Ele é tão detalhista que mapeou a sua vida inteira, Annelise! Teu marido é um psicopata, entenda de uma vez por todas! — A voz de Brenda vibra com uma mistura de raiva e compaixão. — Ele sempre soube que nós éramos amigas. Sabia que fui eu quem te segurou pela mão quando você saiu daquele orfanato aos dezoito anos, que fui eu quem dividiu um apartamento minúsculo com você e te ajudou a arranjar aquele emprego na lanchonete da universidade para você juntar dinheiro e cursar a faculdade. E o que o John fez? Te afastou de tudo e de todos. Engolo em seco, a garganta fechada enquanto as palavras dela atingem feridas que tento esconder até de mim mesma. — Ele sabia que eu era a única pessoa que poderia olhar para você e dizer: "isso não é amor" — Brenda continua, implacável. — E você, simplesmente por amor, abandona quem sempre te ajudou! O que ele fez quando vocês começaram a namorar? Usou a sua insegurança para fazer você se afastar de mim e do Lion. No seu próprio casamento, você não teve o direito de convidar seus únicos amigos de verdade! Os convidados foram todos da família dele, da alta sociedade, exatamente como a mãe dele quis. Você foi apenas uma figurante no próprio casamento, Lise...






