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CECÍLIA OZÉIAS
... Os sons de gemidos do outro lado do corredor ecoavam dentro do meu quarto minúsculo. Fazia dias que eu procurava emprego, e amanhã finalmente teria uma entrevista importante. Minha única chance até agora. O problema? Minha nova vizinha parecia completamente viciada em fazer sexo… e em gemer alto. Muito alto. Enquanto ela gritava sem parar às três da madrugada de domingo, enfiei o travesseiro contra o rosto na tentativa inútil de abafar o som. — Meu Deus… cala a boca… — resmunguei, exausta. As paredes daquele apartamento fino pareciam feitas de papel. Cada som atravessava meu quarto como se estivesse acontecendo ao meu lado. Não sei exatamente em que momento peguei no sono. Só lembro do cansaço vencendo meu corpo. E então… PI PI PI PI— Abri os olhos assustada com o despertador tocando às sete da manhã de segunda-feira. — Droga! Levantei correndo, tropeçando nos próprios pés enquanto procurava roupas limpas. Meu cabelo parecia um ninho de pássaros, minhas olheiras estavam enormes e meus óculos quase caíam do rosto. Mas eu não podia perder aquela oportunidade. Não podia. O metrô conseguiu piorar ainda mais meu humor. O cheiro abafado, as pessoas empurrando umas às outras e até os sons estranhos das rodas nos trilhos pareciam vindos diretamente do inferno para alguém que dormiu menos de três horas. Quando finalmente cheguei à empresa, quase perdi o ar. O prédio era gigantesco. Luxuoso. Sofisticado. Definitivamente um lugar onde pessoas como eu não pertenciam. Ajeitei a bolsa no ombro e fui até a atendente do andar de baixo, tentando parecer minimamente apresentável. — Bom dia… eu tenho uma entrevista marcada. Enquanto ela procurava meu nome no computador, vi um homem atravessar o saguão em direção ao elevador. Terno impecável. Postura elegante. E um corpo absurdamente definido. Meu coração tropeçou sem motivo. A atendente finalmente me entregou a informação da sala, e eu corri para alcançar o elevador antes que as portas se fechassem. Entrei rapidamente ao lado dele. E não foi premeditado. Foi apenas… coincidência. Ele tinha um cheiro perfeito. Não era forte ou exagerado. Era elegante. Limpo. Masculino. Madeirado. E aquilo, de alguma forma, me deixou nervosa. Eu sempre fui tímida, mas a postura ereta dele, a forma calma como permanecia imóvel dentro do elevador, fizeram os pelos do meu corpo se arrepiarem lentamente. Prendeu minha atenção. Ele não olhava para mim. E eu também não podia demonstrar qualquer interesse em alguém como ele. Nem sabia quem era aquele homem. Mas era bonito em um nível absurdo. O tipo de homem que parecia ter saído da capa de uma revista de luxo. O elevador finalmente se abriu. E então aconteceu. Nós saímos no mesmo andar. Meu coração tropeçou no peito quando o vi entrando em uma sala enorme no final do corredor. Não… Não pode ser. Aquele homem maravilhoso era meu futuro chefe? A atendente do andar chamou minha atenção, pedindo alguns documentos e informações. Entreguei tudo tentando agir normalmente, mas minha mente continuava presa na imagem dele. E no som da respiração pesada que ouvi dentro do elevador. Depois de desejar mentalmente meu próprio chefe, eu já não sabia se conseguiria encará-lo outra vez sem passar vergonha. Esperei quase meia hora sentada na recepção. Minhas pernas não paravam de tremer. Ansiedade. Medo. E uma sensação estranha no peito que eu definitivamente não queria entender. Até que o telefone da atendente tocou. — Pode entrar. O senhor Barcellos vai recebê-la agora. Meu estômago afundou. Levantei tão nervosa que quase tropecei no próprio salto. Por um momento, achei que tinha desaprendido a andar. Mas fui. Totalmente desajeitada. A voz grave dele atravessou a sala assim que bati na porta. — Entre. Ele estava de costas quando entrei. Observava a cidade pelas enormes janelas atrás da mesa. Permaneci em silêncio, esperando que ele começasse. Então ele se virou. E me olhou. Um olhar intenso. Calmo. Perigoso. Senti minhas pernas fraquejarem na mesma hora. Eu não sabia exatamente o que aquele olhar dizia. Mas sabia que mexia comigo. Sem precisar falar nada, ele apontou discretamente para a cadeira à sua frente. Eu me sentei rapidamente. Ele caminhou até sua mesa e se acomodou na cadeira, mantendo os olhos presos em mim como se estivesse me analisando por inteiro. A entrevista começou. Mas cada pergunta parecia pessoal demais. — Mora sozinha? — Sim. — Tem facilidade em lidar com pressão? — Acho que sim. — E consegue obedecer ordens? Minha respiração falhou por um segundo. O jeito como ele perguntou aquilo… Calmo. Baixo. Intenso. Ergui os olhos devagar e encontrei o olhar escuro preso ao meu. — Consigo. Os lábios dele quase se moveram em um sorriso. Eu não consegui entender aquele sorriso de lado. Foi rápido. Discreto. Mas aconteceu. E aquilo me deixou ainda mais nervosa. Desviei os olhos imediatamente, tentando ignorar o jeito intenso como ele me observava. Minhas mãos estavam suando, meu coração parecia acelerado demais e eu tinha certeza de que estava pagando o maior mico da minha vida naquela entrevista. Então, na tentativa desesperada de parecer normal, movi a mão rápido demais. E acabei derrubando a caneta dele da mesa. O som do objeto caindo no chão ecoou pela sala silenciosa. — Meu Deus… desculpa… — falei na mesma hora, completamente sem graça. Minha vontade era desaparecer. Me abaixei rapidamente para pegar a caneta antes que aquilo parecesse ainda pior. Nem pensei direito no que estava fazendo. Só queria resolver logo. Mas minha ansiedade me deixava ainda mais atrapalhada. Quando percebi, estava ajoelhada no chão diante dele. Praticamente de quatro. Fechei os olhos por um segundo, sentindo o rosto inteiro esquentar de vergonha. Perfeito. Agora ele devia estar me achando completamente ridícula. Peguei a caneta com rapidez, mas antes de me levantar, senti uma presença próxima demais. Meu coração desacelerou por um segundo. Ergui os olhos lentamente. E vi ele parado bem na minha frente. Muito perto. Perto o suficiente para que eu sentisse novamente o perfume sofisticado dele. Perto o suficiente para perceber o jeito como a respiração dele parecia mais pesada agora. Meu olhar subiu devagar. A camisa social preta marcava perfeitamente o corpo forte dele. As mangas dobradas deixavam os antebraços expostos, e aquilo não deveria chamar minha atenção daquela forma… mas chamou. Então cheguei aos olhos dele. Escuros. Intensos. Presos em mim. A mandíbula dele estava travada como se estivesse tentando manter o controle de alguma coisa. E então percebi algo que fez minha respiração falhar. Ele mordeu discretamente o lábio inferior enquanto me encarava. Meu estômago virou completamente. Eu não tinha experiência com homens como ele. Na verdade, eu mal tinha experiência com homens. Mas havia alguma coisa naquele olhar que eu conseguia sentir. Desejo. A palavra surgiu na minha mente antes que eu pudesse impedir. E isso deveria me assustar. Deveria. Mas, estranhamente… não assustou. Pela primeira vez em muito tempo, senti meu corpo reagir de um jeito diferente. Quente. Sensível. Vivo. Meus dedos apertaram a caneta enquanto eu permanecia ali, ajoelhada diante dele, sem conseguir desviar o olhar. Então percebi a tensão no corpo dele. O jeito rígido como mantinha os ombros. A respiração controlada. E o volume discreto do pau dele começando a se formar sob o tecido da calça social. Meu coração disparou tão forte que achei que ele pudesse ouvir. Aquilo era errado. Completamente errado. Mas a ideia de provocar aquele homem de alguma forma fez um arrepio percorrer minha coluna inteira. E o pior? Eu gostei da sensação. Ele deu um passo à frente. Meu ar sumiu imediatamente. Ele se abaixou devagar até ficar na minha altura. O movimento foi calmo. Controlado. Como se soubesse exatamente o efeito que causava em mim. Os dedos firmes tocaram meu queixo com delicadeza, mas havia autoridade naquele toque. Meu corpo inteiro congelou. Ele ergueu meu rosto lentamente, obrigando-me a encará-lo. E eu encarei. Porque simplesmente não conseguia fazer outra coisa. Os olhos dele passearam pelos meus lábios por um breve segundo antes de voltarem aos meus olhos. — Você é muito desastrada… — a voz grave saiu baixa, quase rouca. Minhas pernas ficaram ainda mais fracas. — Desculpa… eu só estou nervosa… Um canto dos lábios dele se ergueu novamente. Mas dessa vez o sorriso parecia diferente. Mais perigoso. Mais íntimo. Mais masculino. Ele me observou em silêncio por alguns segundos que pareceram durar minutos inteiros. Como se estivesse pensando. Decidindo alguma coisa. Então apertou levemente meu queixo entre os dedos e disse, firme: — Está contratada.






