A noite não traz descanso, traz o eco da voz de Torres no meu ouvido, a memória tátil do envelope passando pela mesa, brilho da frieza, uma vez aceso, recusa-se a ser apagado. Ilumina pesadelos silenciosos onde eu sou tanto a figura com a chave quanto a figura na gaiola.
Dante dorme ao meu lado, um sono profundo e imóvel de general após traçar a estratégia final. Eu fico acordada, olhando para o teto, contando as batidas do meu coração até que se fundam com o tique-taque do relógio no pulso. Sou a isca que mordeu de volta. A sensação é estranha, intoxicante e doentia.
O dia amanhece e vejo Dante acordar exatamente às seis. Seus olhos se abrem, claros e focados, sem um vestígio da névoa do sono. Vira-se e me observa, sabendo que eu estou acordada.
— Hoje — diz, a única palavra carregada de finalidade.
— Sim.
Ele se levanta, veste-se com a precisão habitual, hoje não é um dia de terno. Veste calças de gabardine e uma camisa cinza, sem gravata, como costumo dizer, uma roupa de trabalho