Dois anos atrás.

“Kara? Que diabos você está fazendo na minha cama?”

A mão de Jeremy se fechou em volta do meu braço e me puxou para encará-lo. Eu estava nua. Ele estava nu. Nenhum dos dois lembrava uma única coisa sobre como tínhamos parado ali, e o quarto girava de um jeito que tinha tudo a ver com o quanto eu devia ter bebido na noite anterior.

“Eu…” Minha boca não funcionava direito. Minha cabeça latejava como se algo estivesse tentando escapar do meu crânio. Os lençóis cheiravam errado, como um quarto de hotel em vez da minha própria cama, e nada nas últimas doze horas fazia o menor sentido.

Saí correndo da cama, pegando roupas do chão, as mãos tremendo tanto que mal funcionavam. A porta se escancarou antes mesmo de eu conseguir colocar o vestido todo.

Câmeras. Uma parede inteira delas, piscando, cegando, enchendo um quarto que dez segundos atrás não pertencia a mais ninguém além de nós dois.

“Senhor Devonte, é verdade que está traindo sua noiva?”

“Sua secretária é o verdadeiro relacionamento aqui?”

Jeremy ficou congelado, agarrando um cobertor contra o peito, sem dizer absolutamente nada. Eu tinha um caminho livre direto até a porta. Cada câmera estava apontada para ele, não para mim.

Eu não aproveitei.

Não entendo completamente, mesmo agora, por que me coloquei na frente dele em vez de simplesmente sair andando. Talvez fossem os dois anos sendo aquela que resolvia os problemas dele. Ou a sensação nauseante de que o que quer que tivesse acontecido ali era de alguma forma culpa minha, mesmo eu não conseguindo lembrar da noite o bastante para saber se isso era verdade.

“Vocês estão todos enganados.” Ajeitei o vestido e me plantei entre as câmeras e a cama. “Ele bebeu demais comemorando o noivado. Vim ajudá-lo a chegar em segurança até a cama. Não aconteceu nada.”

Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia. Em algum lugar atrás de mim, Jeremy ainda não tinha se mexido, ainda não tinha dito uma única palavra para me apoiar, e eu continuei falando mesmo assim porque alguém naquela sala tinha que fazer isso.

Por um segundo, realmente pareceu que ia funcionar.

Então uma repórter se abaixou e pegou algo do chão, e a sala inteira mudou de uma vez.

Um lençol. Manchado de escuro com sangue. Meu sangue, embora eu ainda não entendesse essa parte. Só que o que quer que tivesse acontecido na noite anterior tinha acontecido com força o bastante para deixar uma marca, e eu não tinha memória nenhuma do momento em que aquilo aconteceu.

Os flashes começaram de novo, mais rápido dessa vez, e alguém gritou uma pergunta que não captei por causa do zumbido nos meus próprios ouvidos. Minhas pernas quiseram ceder ali mesmo, na frente de todo mundo. Travei os joelhos e fiquei em pé, porque cair agora só ia piorar a história.

Eu já revirei aquela noite na cabeça todos os dias desde então. Lembro do bar. Lembro de chorar num drinque sobre um pedido de casamento que eu tinha passado três semanas ajudando a planejar, por um homem que eu amava desde que ele me tirou de uma situação ruim com valentões lá na escola. Lembro de beijar alguém no estacionamento depois, uma voz que eu quase conseguia identificar se ficasse tempo suficiente pensando nela.

Não tinha sido a voz de Jeremy.

Eu nunca me permiti terminar esse pensamento naquela época. Estava ocupada demais tentando sobreviver à versão que todo mundo já tinha decidido que era verdade. Era mais fácil deixar que acreditassem no que queriam do que ficar parada numa sala cheia de câmeras admitindo que eu não sabia realmente o que tinha acontecido com o meu próprio corpo naquela noite.

MAIS TARDE NAQUELA TARDE.

A mão da Senhora Devonte estalou contra minha bochecha com força suficiente para eu sentir gosto de cobre.

“Como você ousa,” ela sibilou.

Eu não tinha mais forças para argumentar, não com o escândalo já se espalhando online, não com Brittany já embarcando num voo para fora do país poucas horas depois de a história estourar.

Aquele timing já tinha me incomodado mesmo naquela época, em algum lugar por baixo de tudo o mais. Uma mulher não mantém um passaporte pronto para um escândalo que ela nunca viu chegando.

Minha bochecha latejava onde a mão dela tinha acertado, e pressionei os dedos ali sem querer, como se pudesse manter a dor num só lugar e impedi-la de se espalhar.

“Sempre te disse para se livrar dessa secretária,” a Senhora Devonte disparou para Jeremy. Ele ficou sentado com a cabeça entre as mãos e não disse nada em minha defesa. Nem uma palavra. Nem sequer um olhar na minha direção do outro lado da sala.

A porta se abriu. O Senhor Devonte entrou, olhou uma vez ao redor da sala, e tomou a decisão que reescreveria o resto da minha vida.

“O Jeremy vai se casar com a Kara,” ele disse. Sem emoção. Definitivo. Como se já tivesse sido decidido em algum lugar onde eu não tinha sido convidada a estar.

A Senhora Devonte ficou pálida como cinzas. “Por cima do meu cadáver.”

“Já está decidido, Irish.” A voz de Arthur permaneceu calma, a calma de um homem que tinha decidido muito antes de entrar naquela sala. “A imprensa já tem a história. Casamento resolve isso. Divórcio ou escândalo não resolve nada.”

“Ele já me disse que tem sentimentos por ela.” Arthur disse a frase com cuidado, como se estivesse recitando algo ensaiado em vez de relatando algo verdadeiro, e esse cuidado deveria ter me deixado desconfiada bem naquela hora.

Não deixou. Eu tinha vinte e três anos e estava apaixonada, e um homem que eu queria havia anos estava sendo entregue a mim pelo próprio pai dele, e eu nunca parei para perguntar por que uma família que tinha deixado tão óbvio o desprezo por mim de repente me entregaria a única coisa que eu mais queria.

“Kara.” Jeremy disse meu nome pela primeira vez desde que os repórteres tinham saído, e algo na voz dele soou quase gentil. Atravessou a sala e se ajoelhou na minha frente, segurando minha mão como se ela fosse algo precioso em vez de algo que ele tinha ignorado uma hora antes. “Case comigo. Falo sério. Não quero mais ninguém.”

Olhei para ele e meu coração fez algo bobo e esperançoso, mesmo depois de tudo que tinha acontecido naquela manhã. Anos observando ele por trás de uma mesa, anos fingindo que não reparava no jeito que ele ria ou no jeito que dizia meu nome quando precisava de algo resolvido, e agora ele estava ajoelhado na minha frente como se eu fosse a única resposta que fazia sentido.

Eu disse sim naquela noite.

Só depois, sozinha no corredor do lado de fora da sala onde eles tinham acabado de decidir o resto da minha vida, ouvi por acaso a voz da Senhora Devonte através da porta, baixa e cruel, destinada só ao marido.

“Ela não faz ideia de filha de quem ela é. Vamos manter assim até termos tirado tudo o que nos é devido.”

Congelei, a mão ainda plana contra a parede, o coração ficando muito quieto e muito alto ao mesmo tempo. A luz do corredor zumbia acima de mim, e em algum lugar atrás daquela porta fechada, o meu futuro inteiro tinha acabado de ser decidido por pessoas que não me viam como nada além de uma dívida a cobrar.

Devido a eles. Por mim.​​​​​​​​​​​​​​​​

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