Mundo ficciónIniciar sesión“Ele pode me ver depois.”
Resmunguei aquilo baixinho, saindo do hospital antes que Xavier voltasse com a comida. O que quer que ele precisasse me dizer podia esperar. Eu tinha perguntas que só Jeremy podia responder, e estava cansada de deixar mais uma hora passar sem fazê-las. A cobertura parecia diferente no segundo em que entrei. Móveis novos. Arte nova nas paredes onde antes ficavam nossas fotografias, substituídas agora pelo rosto sorridente de uma mulher em molduras que costumavam guardar o meu. Até o ar cheirava diferente, algum perfume novo sobreposto ao espaço que eu costumava chamar de lar. “Ah. Você está aqui.” A voz de Brittany, atrás de mim, confortável demais numa casa que ainda não era dela. “Vejo que você se mudou para cá,” eu disse, mantendo a voz neutra mesmo com o peito apertado, recusando-se a relaxar. “Onde eu pertenço.” Ela deu um passo mais perto, me estudando como se estivesse decidindo o quanto eu já sabia, e o quanto seria divertido me deixar descobrir o resto sozinha. Os olhos dela percorreram meu vestido, meu cabelo, meu rosto, catalogando cada lugar onde eu tinha começado a desmoronar desde a festa. Ela queria que eu percebesse que ela estava notando. Esse era todo o propósito de atravessar o quarto tão devagar, arrastando aquilo, deixando o silêncio se esticar até doer mais do que qualquer palavra doeria. “Você é tão fácil,” ela disse, quase com doçura, “de manipular.” “O que isso quer dizer?” Ela só sorriu, o tipo de sorriso que promete uma resposta eventualmente, no próprio ritmo dela, pelas próprias razões dela. “Você vai descobrir. Você sempre foi esperta. Só nunca na hora que importava.” Tive vontade de segurá-la pelos ombros e sacudir a verdade para fora dela. Não fiz isso. Alguma coisa me disse que o que quer que ela quisesse revelar, ela queria revelar nos próprios termos, e forçar aquilo agora só ia me custar depois, numa moeda que eu ainda não entendia, mas já sentia que não podia gastar. “Onde está o Jeremy?” perguntei em vez disso. “Não está aqui por sua causa.” Ela se virou para sair, depois parou na porta, olhando de volta para mim por cima do ombro como se tivesse quase esquecido uma última coisa. “Pergunte a ele sobre os seus pais algum dia. Veja o que ele diz.” Ela já tinha sumido antes que eu pudesse perguntar o que aquilo significava. Meus pais. Mortos havia mais de uma década, enterrados e chorados, e de alguma forma, aparentemente, não separados de nada disso. Não tive a chance de encontrar Jeremy. Não tive a chance de fazer mais nada. Senti a parede antes de entender que o golpe estava vindo. A dor explodiu do lado da minha cabeça, brilhante e total, e minha visão se estilhaçou em branco por um segundo antes de o quarto inclinar para o lado. A última coisa que ouvi foi a voz de Jeremy, distante, gritando um nome que não era o meu. Depois, nada. O alarme do meu celular me arrancou do sono, e por um segundo inteiro o teto acima de mim não fez o menor sentido. Sentei rápido demais. O quarto inclinou com força. Por um momento achei que ainda estava no hospital, ainda sangrando, ainda em algum ponto perdendo a batalha contra a morte. Depois a dor bateu, baixa no peito, exatamente onde sempre começava, e algo dentro de mim ficou muito quieto. Reconheci aquela dor. Já a tinha sentido antes. Dias atrás. Uma vida inteira atrás. Meus lençóis eram da cor errada. Meu travesseiro cheirava ao detergente que eu usava dois anos atrás, não o que troquei depois do casamento. Meu próprio quarto parecia uma fotografia de si mesmo, familiar e errado ao mesmo tempo. Peguei o celular antes de me deixar pensar demais sobre por que minhas mãos já estavam se movendo. A data na tela não fazia sentido. Fiquei olhando até fazer. Três dias. Eu tinha voltado três dias inteiros, para uma manhã que já tinha vivido uma vez, para uma vida que ainda não tinha acontecido e que também, de alguma forma, já tinha acontecido. Minhas mãos tremiam em volta do celular, não de medo dessa vez, mas de algo mais próximo da incredulidade se firmando em certeza. A porta se abriu. Jeremy entrou olhando o celular, vestindo o mesmo terno que tinha usado na manhã em que me entregou os papéis de divórcio que eu ainda nem tinha recebido nessa versão das coisas. Nada daquilo tinha acontecido. Nem os papéis. Nem a festa. Nem Brittany, nem Victoria, nem qualquer fio que ligasse os três de volta a dois pais mortos que eu tinha passado uma década acreditando que não tinham mais nada a ver com a minha vida. Tudo ainda estava pela frente, ainda por escrever, e pela primeira vez desde que acordei na cama de um estranho dois anos atrás, seria eu segurando a caneta. Cada movimento que ele fizesse a partir daquele ponto, eu já saberia que estava vindo antes mesmo dele. “Você está bem?” ele perguntou, sem tirar os olhos da tela. Olhei para ele. Realmente olhei, de um jeito que nunca tinha me permitido fazer em dois anos de casamento. Meu pulso desacelerou em vez de disparar. Minhas mãos ficaram firmes em vez de tremerem. Algo no meu peito se aquietou numa espécie de calma para a qual eu ainda não tinha nome. “Estou melhor,” eu disse, “do que estive em muito tempo.” Ele quase sorriu com aquilo, já se virando de volta para o celular, já esquecendo que eu tinha dito qualquer coisa. “Você está estranha,” ele disse, sem erguer os olhos. “Aconteceu alguma coisa?” “Nada aconteceu,” eu disse. “Ainda não.” Deixei que ele acreditasse. Deixei que ele pensasse que essa manhã ia se parecer exatamente com a que ele lembrava de ter vivido na primeira vez. Porque daqui a três dias, ele ia me entregar os papéis de divórcio por causa de uma laranja que eu nem tinha terminado de cortar. E dessa vez, quando ele fizesse isso, eu já saberia exatamente em qual gaveta trancada do escritório dele estavam os documentos que iam acabar com ele primeiro. Pensei em Xavier também, na mão dele fechada em volta da minha naquele quarto de hospital, quente de um jeito que não tinha nada a ver com conforto e tudo a ver com algo que nenhum de nós dois tinha dito em voz alta ainda. Ele estava em algum lugar por aí agora, três dias mais jovem nessa versão do mundo, carregando o mesmo segredo que eu carregava. O celular de Jeremy vibrou na mesa de cabeceira. Ele olhou para ele, e aquele mesmo olhar suave e desprotegido cruzou o rosto dele, o mesmo que eu costumava achar que era destinado a mim. Não era. Nunca tinha sido. Fiquei observando-o se vestir como se nada no mundo tivesse mudado, cantarolando baixinho, já na metade de um dia que ele achava que entendia completamente. Ele não fazia ideia de que eu já tinha vivido essa manhã uma vez e morrido três dias depois. Ele não fazia ideia de que eu estava prestes a passar cada hora entre agora e então garantindo que aquilo nunca mais acontecesse.






