Mundo ficciónIniciar sesión“Ela está bem?”
A voz de Brittany, vinda de algum lugar acima de mim, soava mais entediada do que preocupada. “Ela está bem,” disse Jeremy. “Ela faz isso.” Eu nunca tinha feito isso. Nem uma vez. Mas a sala já estava deslizando de lado, o lustre acima de mim se borrando numa mancha dourada, e meus joelhos cederam antes que eu conseguisse dizer isso a alguém. Meu peito queimava como se algo dentro dele tivesse se rachado ao meio. Tentei alcançar a cadeira mais próxima e errei completamente. “Aquela não é a secretária dele? Do escândalo?” Vozes se juntaram sobre mim, sussurrando depressa, do jeito que as pessoas sussurram quando algo ruim acontece com outra pessoa e elas não querem perder nada. Encontrei o rosto de Xavier abrindo caminho entre a multidão bem antes de tudo escurecer. E um instante antes disso, vi o rosto de Victoria com clareza. Ela não estava com medo por mim. Estava assistindo como se tivesse esperado anos para me ver cair no chão. Acordei com um bipe. Meus olhos se abriram para um teto branco, num quarto que cheirava a antisséptico. Xavier estava sentado na cadeira ao lado da minha cama, a gravata frouxa, a camisa amassada como se ele tivesse dormido com ela — se é que tinha dormido. “Você acordou.” Os ombros dele relaxaram, como se estivesse prendendo a respiração havia horas. Ele se inclinou e ajeitou meu cobertor sem pedir, envolvendo-o em torno do meu ombro do jeito que se faz por alguém que não se pode perder. Deixei que ele fizesse isso. Meu corpo inteiro ainda parecia pertencer a outra pessoa, e as mãos dele eram a única coisa firme naquele quarto. “O que aconteceu comigo?” Minha garganta parecia lixa. A porta se abriu antes que ele pudesse responder. Um médico entrou segurando uma prancheta, sem olhar diretamente para mim. “Senhora Devonte.” Ele disse meu sobrenome de casada com cuidado. “Seus exames de sangue voltaram com algo incomum. Algo que não acontece por acidente.” “Como assim, não acontece por acidente?” “Quero dizer que alguém tem envenenado a senhora.” Ele disse aquilo sem rodeios, como quem arranca um curativo rápido para doer menos. “Aos poucos. Ao longo de meses, não dias.” A palavra envenenada ainda não fazia sentido. Fiquei ali tentando encaixá-la na minha vida, e ela não cabia em lugar nenhum. Pensei em cada copo d’água que Jeremy já tinha me entregado, cada prato que ele tinha passado pela mesa com um sorriso, e meu estômago revirou devagar e frio. “Tem mais uma coisa.” Ele hesitou, e isso me assustou mais do que tudo o que ele tinha dito até ali. “A senhora estava grávida. Cedo o suficiente para talvez nem ter notado. Sinto muito, senhora Devonte. O bebê não sobreviveu.” Minha mão voou até o estômago. Pressionei a palma contra o nada, contra um bebê que eu nem sabia que carregava, e minha garganta se fechou em torno de um som que me recusei a deixar escapar na frente de um estranho. As lágrimas vieram assim mesmo, silenciosas, escorrendo antes que eu pudesse impedi-las. Ao meu lado, Xavier tinha ficado completamente imóvel. Não imóvel de choque. Outra coisa. Como um homem fazendo contas de cabeça e não gostando da resposta pela segunda vez seguida. Ele segurou minha mão livre sem dizer nada, o polegar deslizando devagar sobre os meus nós dos dedos, e deixei que ele a segurasse porque eu não tinha mais nada em mim para puxá-la de volta. “Há quanto tempo,” sussurrei, “isso vem acontecendo comigo?” “Meses, no mínimo. Não foi uma dose única. Foi repetido. Contínuo.” A boca dele se apertou numa linha fina. “Sinto muito.” Meses. Pensei em cada manhã que eu tinha culpado o estresse, cada dor de cabeça que eu tinha culpado o trabalho, cada vez que defendi Jeremy no café da manhã enquanto alguém me envenenava dentro da própria cozinha. “Onde está o Jeremy?” perguntei. A mandíbula de Xavier travou. Ele olhou para a janela em vez de para mim, e isso me disse tudo o que o silêncio dele queria esconder. Lá fora, o céu tinha assumido o cinza chapado do início da noite, e nenhum dos dois disse nada por um tempo longo demais. “Estou aqui,” ele disse por fim, baixo, como se admitir aquilo lhe custasse algo. “Isso tem que valer alguma coisa agora.” Valia. Mais do que eu queria que valesse. Ele saiu um pouco depois para buscar comida, ou talvez só para fugir da pergunta estampada no meu rosto. Fiquei olhando para a porta muito depois de ela se fechar atrás dele. Quando abriu de novo, não era ele. Victoria entrou como se fosse dona do quarto. “Bem.” Os olhos dela percorreram meu corpo devagar. “Você está péssima.” “Como você conhece a Brittany?” Não tive forças para amenizar a pergunta. Algo cruzou o rosto dela e sumiu. “Mundo pequeno,” ela disse, sorrindo de um jeito que deixava claro que não era. “Victoria. O que está acontecendo comigo?” “Não tenho a menor ideia do que você está falando.” Ela alisou a saia com as duas mãos, repetidas vezes, um gesto cuidadoso demais para ser sem querer. “Alguém me envenenou. Durante meses.” Observei o rosto dela enquanto dizia isso. “Você não parece muito surpresa.” “Eu deveria estar?” As palavras saíram rápido demais. Ela percebeu um segundo tarde demais e tentou suavizar a voz. “É horrível. Estou só em choque.” Ela não estava. As mãos dela tinham ficado completamente paradas ao lado do corpo, e um instante antes estavam se mexendo sem parar. Mãos não sabem mentir do jeito que a boca sabe. “Você costumava me contar tudo,” eu disse. “Quando isso parou?” “Talvez quando você parou de ser alguém a quem valia a pena contar coisas.” Ela disse aquilo de leve, como uma piada, mas os olhos dela não sorriram junto com o resto do rosto. “Preciso que você vá embora,” eu disse baixinho. “Kara, não seja dramática. Eu só vim ver como você estava.” A voz dela subiu de tom, ficou mais doce, do jeito que sempre ficava bem antes de ela dizer algo cruel embrulhado em gentileza. “Você sempre teve esse talento de fazer tudo girar em torno de você.” “Vá embora, Victoria.” Ela saiu sem discutir uma única vez, o que me disse mais do que qualquer coisa que ela pudesse ter dito em voz alta. Só quando a porta bateu foi que minhas mãos finalmente começaram a tremer, agora que não sobrava mais ninguém para ver. Ainda estava tremendo quando a porta se abriu de novo, rápido demais para ser Xavier voltando com comida. Era Jeremy. Ele não tinha aparecido nenhuma vez desde que eu acordara. Nem tinha perguntado se eu estava viva. Agora ali estava ele, fechando a porta devagar atrás de si, o tipo de silêncio que uma pessoa usa quando não quer que ninguém do lado de fora ouça o que vem a seguir. Ele não sentou. Ficou de pé perto do pé da cama com as mãos nos bolsos, me estudando como se eu fosse um problema que ele ainda não tinha terminado de resolver. “Você está melhor do que eu esperava,” ele disse. “Você esperava que eu estivesse pior, ou esperava que eu nem acordasse?” Algo cruzou o rosto dele, sumindo antes que eu pudesse nomear. “Precisamos conversar,” ele disse. “Sobre o que o médico encontrou no seu sangue.” Os olhos dele não estavam no meu rosto. Estavam presos na ficha clínica pendurada na ponta da cama, a que ainda guardava os resultados dos meus exames. “Como você já sabe o que está na minha ficha, Jeremy?”






