Capítulo 5 — Território de Lorenzo

A frase foi tão precisa que Giulia sentiu vontade de chorar.

Em vez disso, endureceu.

Você não sabe nada sobre minha dor.

Sei mais do que pensa.

Havia algo na voz dele. Uma sombra quase imperceptível.

Giulia olhou para ele com atenção.

Você perdeu alguém?

O olhar de Lorenzo se fechou imediatamente.

Não faça perguntas sobre minha vida.

Mas pode fazer sobre a minha?

Posso.

Porque é Lorenzo Vitale?

Porque tenho poder para isso.

Giulia riu baixo, sem humor.

Pelo menos é honesto.

Mentiras desperdiçam tempo.

Curioso. Homens como você vivem delas.

Homens como eu vivem apesar delas.

A frase ficou no ar.

Giulia voltou a olhar pela janela, mas sua mente trabalhava depressa. Lorenzo não era o que esperava. Ou talvez fosse exatamente o que esperava, e isso a assustasse mais.

Frio. Arrogante. Perigoso.

Mas não descuidado.

Não vulgar.

E, apesar de tudo, havia nele uma espécie de código. Distorcido, talvez. Violento, sem dúvida. Mas existia.

O carro entrou na Via Calderai alguns minutos depois. A rua era estreita, com prédios antigos, varais entre janelas e luzes fracas. Giulia sentiu vergonha sem querer. Depois sentiu raiva por sentir vergonha.

A casa Moretti ficava no fim da rua, simples, com tinta descascada perto da porta e vasos de manjericão na janela.

O carro parou.

Giulia abriu a porta antes que o motorista pudesse fazê-lo.

Obrigada pela carona — disse, sem olhar para Lorenzo.

Giulia.

Ela parou na calçada.

Lentamente, virou-se.

Lorenzo saiu do carro também. A presença dele naquela rua parecia absurda. Grande demais. Escura demais. Como se a noite tivesse se vestido de homem e parado diante da casa dela.

Amanhã, meus homens virão verificar a segurança.

Não.

Sim.

Minha mãe não pode ver homens armados na porta.

Então eles não serão vistos.

Você não entendeu. Eu não quero seus homens aqui.

Lorenzo se aproximou.

O que você quer deixou de ser o ponto central quando foi cercada no corredor.

Minha vida não é território seu.

Ele parou diante dela.

A luz amarelada de um poste desenhava sombras no rosto dele. Por um instante, parecia menos homem e mais lenda perigosa da Sicília. O tipo de nome que mães sussurravam para filhos desobedientes. O tipo de homem do qual mulheres sensatas fugiam.

Giulia deveria fugir.

Mas estava cansada de fugir de problemas que não criou.

Escute bem — ela disse, a voz baixa para não acordar os vizinhos. — Eu fui até você por causa de uma dívida. Não porque queria entrar no seu mundo. Não porque queria sua proteção. Não porque queria ser observada por seus homens. Amanhã podemos falar de dinheiro. Mas a minha casa, a minha mãe e a minha vida ainda são minhas.

Lorenzo a encarou por longos segundos.

Então deu um passo mais perto.

Perto demais.

Giulia sentiu as costas quase tocarem o portão.

Você entrou no Palazzo Belladonna como filha de Carlo Moretti — ele disse. — Saiu de lá vista ao meu lado. Foi ameaçada dentro da minha casa. Ouça com atenção, Giulia, porque não vou repetir.

O coração dela batia forte o bastante para doer.

Não sou uma de suas propriedades.

Os olhos dele escureceram.

Não. Você é algo muito pior.

O quê?

Lorenzo inclinou a cabeça, a voz baixa como promessa e sentença.

Uma mulher que meus inimigos agora vão usar para me testar.

Giulia perdeu o ar.

Ele se afastou um passo, mas o domínio da presença dele continuou ali, prendendo-a.

Amanhã falaremos da dívida — Lorenzo disse. — Esta noite, tranque a porta. Não abra para ninguém. E, se vir qualquer homem estranho nesta rua, ligue para este número.

Ele tirou um cartão preto do bolso interno do paletó e o colocou na mão dela.

O cartão não tinha nome.

Apenas um número gravado em relevo.

Giulia olhou para o cartão, depois para ele.

E se eu não ligar?

Então vou descobrir mesmo assim.

Você é impossível.

Sou necessário.

Não para mim.

Lorenzo a encarou com aquela calma perigosa.

Ainda não entendeu, cara.

Giulia odiou o modo como o italiano suave nos lábios dele fez sua pele reagir.

Entender o quê?

Ele deu um último passo para perto dela, tão próximo que Giulia sentiu o calor do corpo dele misturado ao frio da noite. Lorenzo levantou a mão devagar. Por um segundo, ela pensou que ele fosse tocá-la.

Mas ele apenas passou os dedos pelo portão ao lado do rosto dela, empurrando-o para abrir.

Um gesto simples.

Ainda assim, íntimo demais.

Dominante demais.

A partir desta noite — ele disse, com a voz baixa e implacável —, você pertence ao meu território.

Giulia ficou imóvel.

O mundo pareceu silenciar.

Lorenzo sustentou seu olhar por mais um segundo, como se quisesse gravar a frase nela. Depois virou-se, entrou no carro preto e desapareceu pela rua estreita de Palermo, deixando para trás o cheiro de couro, perigo e uma promessa que Giulia não sabia se era proteção ou ameaça.

Ela apertou o cartão na mão.

Do outro lado da porta, sua mãe tossiu.

Giulia fechou os olhos.

Tinha ido ao baile para negociar uma dívida.

Voltava para casa marcada pelo homem mais perigoso da Sicília.

E, no fundo do peito, onde deveria haver apenas medo, havia também uma verdade que a assustava ainda mais:

Lorenzo Vitale não era o tipo de homem que se esquecia.

E agora ele sabia o nome dela.

Giulia não dormiu naquela noite.

A casa Moretti permaneceu mergulhada em silêncio, mas dentro dela tudo gritava.

O relógio antigo da cozinha marcava cada minuto com uma crueldade lenta. A chuva fina começara pouco depois que Lorenzo Vitale desaparecera pela rua estreita, lavando as pedras de Palermo como se a cidade tentasse apagar as marcas da noite. Mas Giulia sabia que algumas marcas não saíam com água.

O cartão preto continuava sobre a mesa.

Pequeno. Discreto. Pesado como uma ameaça.

Não havia nome. Não havia brasão. Apenas um número gravado em relevo, elegante e frio, do mesmo jeito que o homem que o entregara.

Lorenzo Vitale.

Giulia passou os dedos pelo cartão pela décima vez e odiou a sensação de que aquele pedaço de papel tinha poder sobre ela.

Você voltou tarde.

A voz fraca da mãe veio da entrada da cozinha.

Giulia se virou depressa.

Mamma, deveria estar dormindo.

Rosa Moretti estava apoiada no batente, usando um robe antigo por cima da camisola. O rosto pálido, os olhos fundos e a mão pousada no peito denunciavam o cansaço que ela tentava esconder. Mesmo adoecida, ainda carregava uma dignidade suave, uma beleza gasta pelo tempo e pelas preocupações.

Eu ouvi o carro — Rosa disse. — Não era um táxi.

Giulia fechou a mão sobre o cartão.

Um conhecido me trouxe.

Que conhecido?

A pergunta simples atravessou Giulia como uma agulha.

Ela poderia mentir.

Deveria mentir.

Mas a mentira teria gosto de covardia, e naquela casa já existiam segredos demais.

Lorenzo Vitale.

O efeito foi imediato.

Rosa levou a mão à boca. O pouco de cor que havia em seu rosto desapareceu.

Não — ela sussurrou. — Giulia, não.

Eu fui ao baile para tentar negociar a dívida.

Você foi até eles?

Eu precisava fazer alguma coisa.

Não com os Vitale.

A voz da mãe falhou. Ela deu dois passos trêmulos para dentro da cozinha, e Giulia correu para ajudá-la a sentar.

Mamma, calma.

Seu pai prometeu que manteria você longe disso.

Giulia congelou.

Meu pai prometeu?

Rosa fechou os olhos por um segundo, como se tivesse dito mais do que pretendia.

Ele fez muitos erros. Mas queria proteger você.

De quê?

Desses homens.

Giulia sentiu o coração acelerar.

Que homens? Os Vitale?

Rosa desviou o olhar para a janela. Do lado de fora, a chuva riscou o vidro em linhas tortas.

Não fale esse nome nesta casa.

Mamma, eu preciso entender.

Não. O que você precisa é se afastar. Dívida se negocia com advogados, com bancos, com conhecidos. Não com Lorenzo Vitale.

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