Capítulo 6 — O Cartão Sem Nome

Giulia soltou uma risada sem alegria.

Se fosse uma dívida de banco, a senhora acha que eu teria ido parar em um palácio cercado de seguranças?

Rosa apertou o robe contra o corpo.

Carlo disse que resolveria.

Carlo morreu.

A frase saiu mais dura do que Giulia pretendia.

A dor atravessou o rosto da mãe, e o arrependimento veio imediatamente.

Desculpe — Giulia murmurou. — Eu não quis...

Quis, sim. — Rosa sorriu com tristeza. — E tem razão.

O silêncio entre elas foi cheio de fantasmas.

Carlo Moretti ainda parecia existir em cada canto daquela casa: na xícara lascada que usava todas as manhãs, no casaco pendurado atrás da porta, nos livros de contabilidade empilhados no escritório pequeno. Mas, depois da morte dele, Giulia tinha descoberto um homem diferente daquele que chamava de pai. Um homem que escondia dívidas, medo e nomes perigosos.

O que ele fez? — Giulia perguntou baixo.

Rosa olhou para ela, e por um instante parecia muito mais velha.

Eu não sei tudo.

Mas sabe alguma coisa.

Sei que ele se envolveu com pessoas erradas. Sei que tentou sair. Sei que estava com medo nas últimas semanas.

Medo dos Vitale?

Rosa não respondeu.

Giulia respirou fundo, sentindo a frustração subir.

Ontem, no palazzo, homens falaram que meu pai escondeu algo. Algo que talvez eu soubesse.

Rosa fechou os olhos.

Santo Deus.

A senhora sabe do que estavam falando?

Não.

Mamma.

Eu disse que não sei.

A voz dela tremeu, mas a firmeza era real. Ou quase.

Giulia não pressionou. Ainda.

Rosa pegou a mão da filha.

Lorenzo Vitale não é apenas um homem rico, Giulia.

Eu percebi.

Não. Você não percebeu. — Os dedos da mãe apertaram os dela. — Há pessoas que vivem acima da lei. Mas os Vitale... eles vivem antes da lei. Como se Palermo tivesse sido construída em volta deles. Ninguém enfrenta essa família sem pagar.

Giulia pensou no salão silenciando quando Lorenzo entrou. Nos homens recuando no corredor. Na forma como aqueles que a encurralaram tinham tremido quando ele apareceu.

Don Lorenzo.

Ele é o chefe — Giulia disse.

Rosa empalideceu mais.

Quem te disse isso?

Ninguém precisou. Todo mundo reage a ele como se fosse.

Enzo era o chefe antes.

Morreu há dois anos. Lorenzo assumiu.

A boca de Rosa se contraiu.

Então é ainda pior.

Por quê?

Porque Enzo era velho. Cruel, mas previsível. Lorenzo... — Rosa parou, procurando palavras. — Lorenzo foi criado para ser implacável.

Giulia deveria ter sentido apenas medo.

Mas o que sentiu foi mais incômodo. Mais complexo.

Lembrou-se da mão dele afastando o vidro quebrado do chão. Do olhar furioso ao ver os homens cercando-a. Da voz baixa dizendo que ela agora estava no território dele.

Proteção e ameaça no mesmo fôlego.

Ele mandou trancar a porta — Giulia disse. — Disse que homens poderiam aparecer.

Rosa apertou a mão no peito.

Então você chamou atenção.

Eu só tentei resolver a dívida.

Com Lorenzo Vitale, nada é “só”.

Giulia levantou-se, inquieta.

Eu não vou fugir de algo que nem entendo.

Coragem não é entrar no escuro sem saber onde pisa.

E medo não paga nossas contas.

Rosa ficou em silêncio.

Aquilo foi cruel. Giulia sabia. Mas também era verdade.

A mãe tossiu, e o som rasgou a cozinha pequena. Giulia buscou água, ajudou-a a beber, acomodou o xale em seus ombros. A fragilidade de Rosa era uma acusação silenciosa contra qualquer ideia de desistir.

Amanhã — Giulia disse, suavizando a voz — alguém de Lorenzo virá falar sobre a dívida.

Rosa fechou os olhos, cansada.

Não deixe esse homem entrar na sua alma.

Giulia quase riu.

Ele mal entrou na nossa rua.

Homens como Lorenzo entram antes pelas frestas. Pelo medo. Pela necessidade. Pela raiva. Quando você percebe, já está justificando a presença deles.

A advertência ficou pairando entre as duas.

Giulia olhou para o cartão preto na mesa.

Eu não vou justificar nada.

Mas, naquela noite, quando finalmente ajudou a mãe a voltar para o quarto e se deitou sem tirar completamente o vestido emprestado, Giulia continuou vendo os olhos de Lorenzo na escuridão.

E odiou não conseguir decidir se eles a perseguiam como perigo ou como promessa.

Na manhã seguinte, Palermo acordou sob um sol pálido.

As ruas ainda estavam úmidas da chuva. Mulheres abriam janelas, vendedores gritavam perto do mercado, motocicletas ziguezagueavam por vielas estreitas como se a cidade não tivesse segredos. Giulia, porém, sabia melhor.

Segredos estavam em toda parte.

No olhar da mãe.

No cartão preto.

Nos documentos do pai trancados dentro de uma caixa no escritório.

E, agora, no carro escuro estacionado discretamente do outro lado da Via Calderai.

Ela viu o veículo assim que abriu a janela do quarto.

Não estava exatamente em frente à casa. Lorenzo fora esperto o bastante para respeitar a aparência de normalidade. Mas o homem dentro dele não era vizinho, nem entregador, nem turista perdido. Estava ali para vigiar.

Giulia fechou a cortina com força.

Arrogante — murmurou.

Vestiu uma blusa branca simples, saia escura e prendeu os cabelos castanhos em um coque baixo. Precisava trabalhar naquela manhã na pequena livraria de Signora Amalia, perto da Piazza Pretoria. Precisava fingir que sua vida ainda tinha rotina.

Quando entrou na cozinha, Rosa já estava sentada, tomando café com leite.

Dormiu? — a mãe perguntou.

Um pouco.

Mentira.

Rosa percebeu, mas não insistiu.

Giulia hesitou antes de falar:

Tem um carro lá fora.

A xícara de Rosa parou no ar.

Dos Vitale?

Provavelmente.

Eu disse.

Ele disse que mandaria alguém verificar a segurança. Não significa que eu aceitei.

Rosa deu um sorriso triste.

Com homens assim, aceitar é detalhe.

Giulia pegou a bolsa.

Vou trabalhar. Se alguém bater—

Não abro.

Nem se disser que vem por causa da dívida.

Nem se disser que é o papa.

Giulia beijou a testa dela.

Eu volto no almoço.

Saiu de casa tentando parecer tranquila. O homem no carro não se moveu. Nem precisou. A existência dele já era mensagem suficiente.

Giulia caminhou pela rua com os ombros tensos. Cada esquina parecia diferente. Cada rosto parecia atento demais. O cartão de Lorenzo estava na bolsa, embora ela tivesse jurado não levá-lo.

Essa era a primeira coisa que a irritava.

A segunda era saber que talvez tivesse sido prudente.

A livraria de Signora Amalia ficava em uma rua estreita, entre uma cafeteria e uma loja de tecidos. Era pequena, cheirava a papel velho, madeira encerada e limão siciliano. Giulia trabalhava ali desde os dezenove anos, organizando prateleiras, atendendo turistas e fazendo traduções simples para visitantes estrangeiros.

Era um lugar comum.

Seguro.

Ou costumava ser.

Você está com cara de quem viu um morto — Amalia comentou assim que Giulia entrou.

A dona da livraria era uma mulher baixa, de cabelos grisalhos presos em um coque e olhos atentos demais para a tranquilidade de qualquer pessoa. Sabia quase tudo sobre quase todos naquela região de Palermo, e o que não sabia inventava com precisão assustadora.

Não dormi bem.

Isso tem nome de homem.

Tem nome de dívida.

Amalia perdeu um pouco do humor.

Alguma notícia sobre os papéis do seu pai?

Giulia deixou a bolsa atrás do balcão.

Mais ou menos.

Mais ou menos nunca é bom.

Giulia passou o pano sobre o balcão, fingindo ocupar as mãos.

Fui ao Palazzo Belladonna ontem.

O silêncio foi imediato.

Amalia olhou para a porta, depois para Giulia.

Você enlouqueceu?

Talvez.

Ninguém vai ao Palazzo Belladonna sem convite.

Eu tinha convite.

Convite verdadeiro?

Giulia não respondeu.

Amalia fez o sinal da cruz.

Madonna santa, menina.

Eu precisava falar com os Vitale.

E falou?

Giulia hesitou.

Com Lorenzo.

A expressão de Amalia mudou como se alguém tivesse apagado a luz.

Lorenzo Vitale?

Existe outro?

Não brinque com isso.

A severidade na voz dela assustou Giulia mais do que esperava.

Amalia se aproximou e baixou o tom.

Você sabe quem é esse homem?

Estou começando a descobrir.

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