Capítulo 4 — Corredores de Sangue

Ainda não — ele disse.

Duas palavras.

Baixas.

Perigosas.

Giulia sentiu o coração falhar.

Isso deveria me assustar?

Sim.

Você já disse isso antes.

E você continua fingindo que não está assustada.

Talvez eu finja bem.

Não tão bem quanto pensa.

Ela odiava que ele a enxergasse.

Odiava mais ainda que uma parte dela quisesse enxergá-lo de volta.

Lorenzo se afastou primeiro, como se tivesse recuperado o controle antes que algo escapasse.

Eu vou levá-la até a saída. Você vai voltar para casa. Amanhã, alguém irá procurá-la para tratar da dívida.

Giulia estreitou os olhos.

Alguém?

Um representante meu.

Não. Eu quero falar com você.

Você não está em posição de exigir nada.

E você não está em posição de mandar na minha vida.

O olhar dele escureceu de novo.

Você entrou na minha casa. Pronunciou seu nome diante dos meus homens. Foi vista por pessoas que agora vão se perguntar por que a filha de Carlo Moretti teve coragem de se aproximar de mim. A partir do momento em que fez isso, sua vida deixou de ser simples.

Minha vida nunca foi simples.

Ficou pior.

A sinceridade brutal fez o peito dela apertar.

Por causa de você?

Por causa do seu pai. Por causa das escolhas dele. Por causa das pessoas que ainda estão interessadas no que ele sabia.

Giulia deu um passo na direção dele.

Então ele sabia mesmo algo.

Lorenzo não respondeu.

E o silêncio foi resposta suficiente.

O que era?

Vá para casa.

O que meu pai sabia?

Giulia—

Me diga!

Lorenzo a segurou pelo braço.

Não com violência.

Mas com firmeza.

O toque atravessou a pele dela como uma corrente. Os dois olharam ao mesmo tempo para a mão dele, depois um para o outro.

Ele soltou devagar, como se o contato também o tivesse afetado.

Seu pai mexeu com homens que não perdoam — Lorenzo disse. — E agora você está chamando atenção desses mesmos homens.

Homens seus?

A pergunta ficou entre eles.

Lorenzo não desviou o olhar.

Alguns foram meus. Talvez não sejam mais.

Giulia sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com o vento.

Isso deveria me tranquilizar?

Não.

Você é sempre tão reconfortante?

Só com quem não me desafia.

Então deve ser uma raridade.

Dessa vez, a boca dele se curvou de leve.

Foi rápido, mas transformou o rosto dele por um segundo. Tornou-o mais humano. Mais perigoso ainda.

Você fala demais.

E você ameaça demais.

Eu ainda não ameacei você.

Que sorte a minha.

Os olhos dele desceram outra vez para a boca dela.

Giulia parou de respirar.

Não era possível que estivesse acontecendo. Não ali. Não com aquele homem. Não enquanto seu mundo desabava e o nome do pai morto era sussurrado por criminosos em corredores escuros.

Mas o corpo dela não obedecia à razão.

Havia algo em Lorenzo Vitale que parecia feito para arruinar mulheres inteligentes.

E Giulia precisava ser inteligente.

Por sua mãe.

Por si mesma.

Ela deu um passo para trás.

Eu vou embora.

Boa decisão.

Mas isso não acabou.

Lorenzo a observou, a expressão indecifrável.

Não — ele disse. — Receio que não.

Ele a acompanhou pelo corredor de volta ao salão. Quando reapareceram juntos, várias cabeças se viraram. Giulia sentiu o peso dos olhares, das perguntas silenciosas, das interpretações maldosas.

Uma mulher de vestido vermelho cochichou com outra. Um homem mais velho franziu a testa. Os seguranças próximos à porta se endireitaram.

Giulia percebeu tarde demais que sair ao lado de Lorenzo talvez fosse mais perigoso do que entrar sozinha.

Ele não pareceu se importar.

Na entrada do palazzo, a noite estava fresca. O vento vindo do mar levantou alguns fios do cabelo dela. Giulia desceu os primeiros degraus, mas parou ao perceber que Lorenzo continuava atrás.

Não precisa me escoltar até a rua.

Preciso.

Por quê?

Ele olhou para a rua escura, depois para ela.

Porque você veio até aqui sem entender que Palermo muda de rosto depois da meia-noite.

Eu nasci em Palermo.

Mas não na minha Palermo.

A frase a calou.

Havia arrogância nela, sim. Mas também verdade.

A Palermo de Giulia tinha mercados barulhentos, roupas estendidas nas janelas, vizinhas fofoqueiras, igrejas antigas e cafés apertados. A Palermo de Lorenzo tinha homens armados, dívidas de sangue, palácios fechados e nomes sussurrados com medo.

Duas cidades no mesmo lugar.

Dois mundos separados por uma porta.

E naquela noite Giulia tinha atravessado essa porta.

Um carro preto parou diante deles.

Entre — Lorenzo disse.

Ela olhou para o veículo, depois para ele.

Não vou entrar no seu carro.

Vai caminhar sozinha?

Vou chamar um táxi.

Não.

Isso não foi uma pergunta.

Nem minha resposta.

Giulia soltou um suspiro irritado.

Você tem noção de como é insuportável?

Já me disseram.

Imagino que ninguém tenha sobrevivido para repetir.

Um brilho breve passou pelos olhos dele.

Alguns sobreviveram.

Que generoso.

O motorista saiu e abriu a porta traseira. Giulia permaneceu imóvel.

Eu não confio em você — ela disse.

Lorenzo a encarou.

Inteligente da sua parte.

E ainda espera que eu entre?

Espero que você queira chegar viva em casa.

O frio percorreu a espinha dela.

Estou em perigo mesmo fora daqui?

O rosto dele ficou sério de um jeito diferente.

Depois desta noite, sim.

Giulia olhou de volta para o palazzo. Para as luzes, as janelas, as sombras atrás das cortinas. De repente, cada pessoa lá dentro parecia possível ameaça.

Por quê? Só porque falei com você?

Porque falou comigo. Porque é filha de quem é. Porque alguém parece interessado em descobrir o que você sabe.

Mas eu não sei nada.

Eles não sabem disso.

Ela fechou os olhos por um instante.

Sua vida, que já parecia frágil, acabara de se tornar uma peça em um jogo que ela não entendia.

Quando abriu os olhos, Lorenzo ainda a observava.

Eu aceito a carona — ela disse. — Mas não pense que isso significa que estou sob suas ordens.

Ele se aproximou apenas o bastante para que sua voz chegasse baixa aos ouvidos dela.

Você gosta muito de esclarecer o que não significa.

Porque homens como você costumam interpretar silêncio como consentimento.

A expressão dele endureceu.

Homens como eu?

Poderosos. Arrogantes. Acostumados a comprar tudo.

Eu não compro tudo.

Não?

Algumas coisas eu tomo.

Giulia deveria ter recuado.

Mas ficou parada.

Então tente tomar algo meu e descubra o preço.

O olhar dele se tornou tão intenso que o ar pareceu diminuir.

Por um segundo impossível, Giulia pensou que ele fosse tocar seu rosto. Ou sua cintura. Ou seus lábios.

Mas Lorenzo apenas abriu mais a porta do carro.

Entre, Giulia.

Dessa vez, ela obedeceu.

Não por submissão.

Por sobrevivência.

O interior do carro cheirava a couro caro e perigo contido. Lorenzo entrou do outro lado, e a porta se fechou com um som pesado. O motorista arrancou em silêncio.

Palermo passou pela janela como um sonho escuro: ruas estreitas, sacadas antigas, luzes amarelas, motocicletas estacionadas, sombras encostadas em esquinas.

Giulia manteve os olhos na cidade, recusando-se a olhar para o homem ao seu lado.

Mas sentia Lorenzo mesmo assim.

A presença dele preenchia o banco traseiro. O silêncio dele tinha peso. O perfume dele parecia estar em toda parte.

Sua mãe — ele disse de repente. — Qual doença?

Giulia virou o rosto.

Por que quer saber?

Perguntei.

E eu perguntei por quê.

Ele a encarou por um instante.

Para saber quanto tempo você tem antes que as dívidas deixem de ser seu maior problema.

A resposta foi dura, mas não cruel. Não totalmente.

Giulia olhou para as próprias mãos.

Coração. Ela precisa de remédios, acompanhamento, repouso. Meu pai escondia a gravidade das coisas. Depois que ele morreu, tudo apareceu de uma vez.

Lorenzo ficou em silêncio.

Vai usar isso contra mim também? — ela perguntou.

Eu não preciso usar sua dor contra você. Ela já está fazendo isso sozinha.

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