Mundo de ficçãoIniciar sessãoEla parou diante de uma porta semicerrada.
Lá dentro, ouviu vozes masculinas.
— ...a filha de Carlo não pode sair daqui sem ser questionada.
Giulia congelou.
Seu coração deu um salto.
A filha de Carlo.
Ela sabia que não deveria ouvir. Sabia que cada segundo ali aumentava o perigo.
Mas permaneceu imóvel.
— Lorenzo não vai gostar — outra voz disse.
— Lorenzo está ocupado. E se a garota souber o que o pai escondeu?
Giulia levou a mão à boca para conter a respiração.
O que o pai escondeu?
— Carlo morreu antes de falar. Talvez tenha contado à filha.
— Ela parece não saber de nada.
— Aparências enganam.
Um ruído atrás dela a fez se virar.
Tarde demais.
Dois homens surgiram no fim do corredor. Não eram seguranças comuns. Ela percebeu isso pelo modo como caminharam: sem pressa, sem dúvida, como predadores que já sabiam que a presa não tinha para onde correr.
— Signorina Moretti — disse o mais alto, com um sorriso sem calor. — Está longe do salão.
Giulia forçou as pernas a não recuarem.
— Eu estava procurando o banheiro.
— Nesta direção não há banheiro.
— Então me enganei.
Tentou passar por eles, mas o homem bloqueou o caminho. O outro se aproximou pelas costas, fechando a distância.
O medo veio inteiro agora.
Frio. Real. Sem elegância.
— Preciso voltar ao baile — ela disse.
— Antes, algumas perguntas.
— Não tenho nada a responder.
O homem sorriu mais.
— Todos dizem isso no começo.
Giulia tentou manter a voz firme.
— Lorenzo Vitale sabe que vocês estão me cercando?
A menção ao nome dele teve efeito. Os dois trocaram um olhar breve.
Mas não recuaram.
— Don Lorenzo não precisa ser incomodado por assuntos pequenos.
Don Lorenzo.
A confirmação silenciosa do que ela já suspeitava fez o estômago dela se revirar.
— Eu sou um assunto pequeno?
— Ainda não sabemos.
O homem atrás dela tocou seu braço.
Giulia reagiu por instinto. Puxou-se para longe e acertou a taça vazia que ainda segurava contra a mão dele. O vidro caiu no chão e se partiu com um estalo agudo.
— Não toque em mim.
O som pareceu ecoar pelo corredor inteiro.
O homem atingido perdeu o sorriso.
— Você tem o temperamento do seu pai.
— E você tem a educação de um animal.
A mão dele se ergueu rápido.
Giulia fechou os olhos.
O tapa não veio.
Em vez disso, uma voz atravessou o corredor, baixa e mortal.
— Tire a mão dela.
O silêncio que se seguiu foi pior que grito.
Giulia abriu os olhos.
Lorenzo Vitale estava no início do corredor.
Sozinho.
Mas, de alguma forma, parecia mais perigoso do que todos os homens juntos.
Ele não corria. Não precisava. Caminhou lentamente, e cada passo fez os dois homens recuarem quase sem perceber. O rosto dele estava calmo. Calmo demais. Só os olhos denunciavam algo escuro e violento.
— Don Lorenzo — o homem mais alto começou. — Nós só estávamos—
— Eu não perguntei o que estavam fazendo.
A voz dele não subiu.
Por isso mesmo foi mais assustadora.
Lorenzo parou ao lado de Giulia, mas não olhou para ela de imediato. Seu olhar estava fixo no homem que tentara tocá-la.
— Quem deu permissão para interrogá-la?
Nenhum dos dois respondeu.
— Eu fiz uma pergunta.
— Ninguém, Don Lorenzo.
— Então vocês decidiram agir dentro da minha casa, durante um evento meu, contra uma convidada que eu ainda não terminei de avaliar.
A palavra convidada soou estranha, quase irônica.
Giulia quis dizer que não era convidada dele. Que não pertencia àquele lugar. Que não precisava de proteção.
Mas sua garganta estava seca demais.
Lorenzo deu mais um passo na direção dos homens.
— Peçam desculpas.
O mais alto pareceu engolir vidro.
— À signorina?
— Não. Ao lustre. — O tom de Lorenzo ficou ainda mais frio. — Claro que à signorina.
O homem virou-se para Giulia.
— Minhas desculpas, signorina Moretti.
O outro repetiu, mais baixo:
— Desculpe.
Giulia não respondeu.
Lorenzo inclinou a cabeça.
— Agora desapareçam.
Eles obedeceram.
Rápido.
Quando o corredor ficou vazio, Giulia percebeu que estava tremendo. Tentou esconder, fechando as mãos ao lado do corpo.
Lorenzo finalmente olhou para ela.
A raiva nos olhos dele não desapareceu. Apenas mudou de alvo.
— Eu mandei você ir embora.
Giulia soltou uma risada curta, nervosa e sem humor.
— Que gentileza a sua. Primeiro me ameaça, depois me salva, agora me repreende.
— Você estava ouvindo conversas que não deveria.
Ela ficou imóvel.
— Eu ouvi meu nome.
— Ouviu o bastante para se colocar em perigo.
— Eles falaram do meu pai.
— E isso justifica seguir por corredores escuros em uma casa cheia de homens que você não conhece?
— Eu não sou uma criança.
— Não. — O olhar dele percorreu o rosto dela, desceu por um instante até sua boca e voltou. — Esse é parte do problema.
O ar entre eles mudou outra vez.
Giulia sentiu e odiou sentir.
— Você sabia que eles queriam me interrogar?
— Se eu soubesse, eles não teriam chegado perto.
A resposta veio rápida demais para ser calculada.
Giulia procurou mentira no rosto dele, mas não encontrou. Encontrou apenas irritação. Controle. Algo mais que ela não soube identificar.
— Por que se importa? — perguntou.
Lorenzo ficou em silêncio por um momento.
— Não confunda controle com cuidado.
A frase deveria afastá-la.
Mas havia alguma coisa na forma como ele disse que fez Giulia perceber que talvez ele estivesse avisando a si mesmo também.
Ela respirou fundo.
— Eles disseram que meu pai escondeu algo.
A expressão de Lorenzo se fechou.
— Esqueça isso.
— Não.
— Giulia.
— Não diga meu nome como se isso encerrasse a conversa.
Ele se aproximou.
— Neste mundo, curiosidade mata mais depressa que bala.
— Meu pai morreu. Minha mãe está doente. Minha casa está ameaçada. Não tenho muito a perder.
Os olhos de Lorenzo endureceram.
— Pessoas que dizem isso geralmente ainda não descobriram o quanto podem perder.
Giulia sentiu a frase atingir um lugar fundo demais.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
O som distante da música chegava abafado. No corredor, entre os retratos antigos e os cacos de vidro no chão, Giulia teve a sensação de que sua vida estava mudando de direção, como um trem entrando em um túnel sem luz.
— Eu quero a verdade — ela disse.
— Você quer sobreviver.
— Uma coisa não exclui a outra.
— No meu mundo, exclui quase sempre.
Giulia ergueu o rosto.
— Então talvez o seu mundo precise ser enfrentado por alguém que não tenha medo dele.
Lorenzo a encarou como se ela tivesse dito algo impossível.
Então riu baixo.
Não uma risada feliz. Uma risada incrédula, escura, quase íntima.
— Você tem ideia de quantos homens morreram tentando enfrentar meu mundo?
— Homens talvez. Eu não sou um deles.
O silêncio dele foi intenso.
Os olhos de Lorenzo mudaram. Pela primeira vez, Giulia viu algo além de frieza. Interesse. Não apenas desejo. Não apenas desconfiança. Um interesse perigoso, como se ela tivesse se tornado um enigma que ele pretendia resolver.
Ele se abaixou, pegou do chão um pedaço maior da taça quebrada e o colocou sobre uma mesa lateral, longe dos pés dela.
O gesto foi pequeno.
Quase cuidadoso.
Giulia percebeu.
Ele também percebeu que ela percebeu.
Imediatamente, a expressão dele voltou a se fechar.
— Venha.
— Para onde?
— Para fora daqui.
— Eu sei andar sozinha.
— Isso não está em discussão.
— Tudo com você parece ordem.
— Porque geralmente é.
Giulia cruzou os braços.
— E quando alguém não obedece?
Lorenzo olhou para ela, e a resposta estava no silêncio.
Ela deveria ter sentido apenas medo.
Mas sentiu também uma faísca quente de desafio.
— Eu não pertenço a você, Lorenzo Vitale.
Ele ficou imóvel.
A frase pareceu atravessá-lo de um jeito estranho. Talvez ninguém falasse assim com ele. Talvez todos naquele mundo tivessem aprendido a baixar os olhos, medir palavras, pedir permissão para respirar.
Giulia não sabia fazer isso.
Ou talvez soubesse, mas naquela noite estivesse cansada demais para tentar.
Lorenzo inclinou-se levemente, aproximando o rosto do dela. A diferença de altura a obrigou a erguer o queixo. Ele estava perto o bastante para que ela visse um pequeno corte antigo acima da sobrancelha esquerda, quase escondido pela sombra.







