Mundo de ficçãoIniciar sessãoSe queria salvar a família, precisaria falar com Lorenzo.
A ideia era absurda.
Mas voltar para casa sem tentar era pior.
Giulia deixou a taça sobre uma mesa e atravessou o salão.
Cada passo parecia mais alto do que a música. Ela sentia olhares nela, alguns discretos, outros descarados. Talvez por não pertencer àquele ambiente. Talvez por estar caminhando direto para um homem que todos pareciam evitar sem permissão.
Lorenzo estava perto de uma varanda aberta, conversando com dois homens mais velhos. Quando Giulia se aproximou, um deles parou de falar. O outro olhou para ela como se ela fosse uma interrupção inconveniente.
Lorenzo não se virou de imediato.
— Signor Vitale — Giulia disse.
A própria voz saiu mais firme do que ela esperava.
Lorenzo ergueu lentamente os olhos para ela.
De perto, ele era ainda mais perturbador.
Não havia gentileza em seu rosto. Nem surpresa. Apenas uma calma controlada, quase insultante.
— Você está perdida? — ele perguntou.
A voz dele era baixa. Grave. Aveludada de um jeito perigoso.
Giulia sentiu um arrepio e odiou a si mesma por isso.
— Não.
— Então sabe com quem está falando.
— Sei.
— E mesmo assim interrompeu minha conversa.
Os homens ao lado dele ficaram rígidos, como se esperassem que Giulia pedisse desculpas e desaparecesse.
Ela deveria ter feito isso.
Em vez disso, sustentou o olhar dele.
— Meu nome é Giulia Moretti.
Pela primeira vez, algo mudou na expressão de Lorenzo.
Não foi muito. Um leve estreitamento dos olhos. Uma sombra passando pelo rosto.
Mas Giulia viu.
— Moretti — ele repetiu.
— Meu pai era Carlo Moretti.
Um dos homens ao lado de Lorenzo desviou o olhar. O outro murmurou algo quase inaudível.
Lorenzo permaneceu em silêncio.
Giulia continuou antes que perdesse a coragem.
— Sei que ele deixou dívidas. Sei que existem documentos assinados. Eu não vim negar isso. Vim pedir tempo.
— Tempo — Lorenzo repetiu, como se a palavra fosse estranha.
— Minha mãe está doente. Eu trabalho, posso pagar em parcelas. Não tudo de uma vez, mas—
— Você veio a um baile privado — ele a interrompeu — usando um convite que não está em seu nome, para negociar uma dívida que não entende com homens que não conhece.
Giulia sentiu o rosto aquecer.
— Eu entendo o suficiente.
— Não. — Lorenzo se aproximou um passo. — Se entendesse, não estaria aqui.
O perfume dele chegou antes do toque: madeira escura, couro, algo frio e limpo. Giulia teve a sensação absurda de que aquele homem carregava a noite na pele.
— Signor Vitale, eu não vim causar problemas.
— Pessoas que causam problemas raramente anunciam essa intenção.
— Eu só quero um acordo justo.
Um silêncio se formou ao redor deles.
Lorenzo inclinou ligeiramente a cabeça.
— Justo?
— Sim.
— Seu pai roubou dinheiro de pessoas que não toleram perdas. Ele assinou garantias. Fez promessas. Desapareceu antes de cumprir qualquer uma delas.
— Ele morreu — Giulia retrucou, a voz mais baixa.
— Alguns homens morrem convenientemente.
A frase a atingiu como um tapa.
Giulia deu um passo adiante antes que o medo a segurasse.
— Não fale dele assim.
Os olhos de Lorenzo se tornaram ainda mais frios.
— Cuidado.
— Não. — A palavra saiu trêmula, mas saiu. — Ele cometeu erros. Talvez muitos. Mas era meu pai. E minha mãe está pagando por eles sem sequer saber o que aconteceu.
Lorenzo a observou por um longo momento.
Giulia teve a estranha sensação de estar sendo desmontada por dentro. Ele olhava para ela como se procurasse rachaduras, mentiras, fraquezas. E talvez encontrasse todas.
— Você fala como alguém que acredita em inocência — ele disse.
— E você fala como alguém que esqueceu o que isso significa.
Um dos homens ao lado dele prendeu a respiração.
Lorenzo não se moveu.
Por um instante, Giulia pensou que tinha ido longe demais. Mas havia uma parte dela, a parte cansada de ter medo, que não se arrependeu.
A boca de Lorenzo se curvou de leve. Não era um sorriso gentil. Era quase uma advertência.
— Você é corajosa, Giulia Moretti.
O nome dela nos lábios dele soou íntimo demais.
Errado demais.
— Sou desesperada — ela corrigiu.
— As duas coisas costumam se confundir.
— Vai me ouvir ou vai apenas tentar me intimidar?
Lorenzo deu um passo ainda mais próximo. Agora a distância entre eles era quase indecente para dois desconhecidos em um salão cheio.
— Se eu estivesse tentando intimidá-la, você saberia.
Giulia sentiu o coração bater mais forte.
E odiou perceber que não era apenas medo.
Era ele.
A presença dele. O olhar. A voz. A maneira como parecia dominar o espaço sem tocar em nada.
— Então me dê uma resposta — ela disse. — Posso pagar a dívida aos poucos. Posso trabalhar. Posso vender a casa, se for necessário. Mas preciso de tempo.
Lorenzo olhou para ela como se a palavra casa tivesse despertado algo.
— Você ainda mora na Via Calderai?
Giulia gelou.
— Como sabe onde moro?
— Eu sei muitas coisas.
— Isso deveria me assustar?
— Sim.
A honestidade brutal dele a deixou sem resposta por um segundo.
— Pois não assusta — ela mentiu.
Dessa vez, o quase sorriso dele apareceu de verdade. Pequeno, perigoso, rápido.
— Mentirosa.
Giulia apertou as mãos.
— Signor Vitale—
— Lorenzo.
Ela piscou.
— O quê?
— Se vai invadir meu mundo e pedir misericórdia, ao menos diga meu nome corretamente.
A palavra misericórdia fez o orgulho dela queimar.
— Eu não estou pedindo misericórdia.
— Está.
— Estou propondo um acordo.
— Não há acordo possível quando uma das partes não tem nada a oferecer.
Giulia sentiu a humilhação subir pela garganta.
Ele tinha razão. E o pior era isso.
Ela não tinha dinheiro. Não tinha influência. Não tinha proteção. Tinha apenas uma mãe doente, uma casa ameaçada e uma coragem que começava a parecer ridícula diante dele.
Ainda assim, ergueu o rosto.
— Tenho minha palavra.
O olhar de Lorenzo desceu rapidamente até a boca dela, depois voltou aos olhos.
— Neste mundo, palavras valem muito pouco.
— Talvez no seu.
— Principalmente no meu.
Giulia se sentiu presa entre fugir e continuar. O salão parecia menor. A música, distante. Lorenzo ocupava tudo.
— Então diga o que quer — ela falou.
O ar entre eles ficou mais pesado.
Lorenzo a encarou com intensidade suficiente para fazer sua pele aquecer.
— Você não quer saber o que homens como eu querem.
A frase deveria tê-la assustado.
Assustou.
Mas também despertou algo perigoso, algo que ela não queria nomear. Giulia odiou a própria reação. Odiou aquele homem por conseguir perturbá-la em poucos minutos.
Antes que pudesse responder, um rapaz jovem se aproximou de Lorenzo e murmurou algo em seu ouvido.
O rosto de Lorenzo se fechou.
Ele olhou para Giulia uma última vez.
— Vá embora.
Ela franziu o cenho.
— Ainda não terminamos.
— Terminamos por enquanto.
— Não pode simplesmente me dispensar assim.
— Posso.
— Lorenzo—
Os olhos dele escureceram ao ouvir o nome.
Por um segundo, o mundo pareceu prender a respiração.
— Vá para casa, Giulia Moretti — ele disse baixo. — Antes que descubra que existem portas que, depois de abertas, não se fecham.
Ele se afastou sem esperar resposta.
Giulia ficou parada, humilhada e furiosa, observando-o atravessar o salão com a mesma autoridade silenciosa com que entrara. Os homens que o acompanhavam foram atrás.
Ela deveria ir embora.
Deveria aceitar que falhara, voltar para casa e pensar em outra forma de proteger a mãe.
Mas algo dentro dela se recusava a sair dali apenas com uma ameaça bonita e nenhuma resposta concreta.
Giulia respirou fundo, olhou ao redor e percebeu que algumas pessoas ainda a observavam. Virou-se depressa, procurando uma saída lateral para recuperar o ar. O salão estava abafado demais. Sua pele ardia. Sua cabeça latejava.
Ela encontrou um corredor menos iluminado ao lado da escadaria principal e seguiu por ele.
As vozes do baile ficaram para trás.
O corredor era comprido, revestido por painéis de madeira escura e retratos antigos. Giulia caminhou devagar, tentando organizar os pensamentos. Em algum lugar da casa, risadas ecoavam. Lá fora, uma brisa atravessava janelas entreabertas, trazendo o cheiro salgado do mar.







