Mundo de ficçãoIniciar sessão
Giulia Moretti odiava a forma como os palácios de Palermo conseguiam parecer vivos à noite.
As fachadas antigas, douradas pela luz dos candelabros, erguiam-se contra o céu escuro como testemunhas silenciosas de pecados que ninguém ousava confessar. Janelas arqueadas observavam a cidade com olhos de pedra. Varandas de ferro trabalhado se projetavam sobre a rua estreita, enfeitadas por flores vermelhas que pareciam gotas de sangue penduradas no escuro.
O Palazzo Belladonna brilhava no alto da colina como se não pertencesse ao mesmo mundo que as pessoas comuns.
E Giulia definitivamente pertencia ao mundo das pessoas comuns.
Ela parou diante da entrada principal, segurando a pequena bolsa preta contra o corpo. O vestido azul-marinho que usava era bonito, mas simples demais para aquele lugar. Tinha sido emprestado por uma vizinha, ajustado às pressas com pontos invisíveis feitos por sua própria mãe, e ainda assim Giulia sentia que todos seriam capazes de notar que ela não nascera para salões de mármore, champanhe caro e sobrenomes capazes de abrir portas antes mesmo de serem pronunciados.
Respirou fundo.
O ar de Palermo tinha cheiro de mar distante, pedra quente e dinheiro antigo.
— Você pode fazer isso — murmurou para si mesma, em italiano, tentando impedir que a voz tremesse. — É só uma conversa.
Mas era mentira.
Não era só uma conversa.
Era a diferença entre salvar sua mãe ou perder a casa onde haviam vivido por vinte e quatro anos. Era a diferença entre manter o nome Moretti de pé ou vê-lo afundar sob a vergonha das dívidas deixadas por seu pai.
Seu pai.
A simples lembrança de Carlo Moretti fez o estômago dela apertar.
Há três meses, Carlo tinha morrido deixando atrás de si um funeral barato, uma viúva doente e uma pilha de documentos que cheiravam a desespero. Empréstimos. Assinaturas. Promessas. Nomes que Giulia não reconhecia.
E, entre esses nomes, um se repetia como uma sentença.
Vitale.
Família Vitale.
A primeira vez que ouviu aquele nome, a vizinha baixou a voz e fez o sinal da cruz.
— Não se envolva com eles, menina.
Giulia deveria ter ouvido.
Mas naquela noite ela não tinha o luxo da prudência.
Um homem de terno escuro abriu a porta do palazzo antes mesmo que ela tocasse a campainha. Ele era alto, ombros largos, expressão vazia. Os olhos passaram por ela de cima a baixo com um julgamento silencioso.
— Convite.
Giulia engoliu em seco e retirou o envelope da bolsa. O convite não era dela. Pertencera a um velho conhecido do pai, que aceitou entregá-lo depois que ela implorou por uma chance de falar com alguém da família Vitale. Talvez ele tenha sentido pena. Talvez só quisesse se livrar dela.
O segurança examinou o papel por tempo demais.
— Seu nome?
— Giulia Moretti.
Ao ouvir o sobrenome, algo quase imperceptível mudou no olhar dele.
Foi rápido, mas não passou despercebido.
— Espere aqui.
— Eu tenho convite — ela disse, tentando manter a firmeza.
— Eu disse para esperar.
O homem se afastou para falar com outro segurança no interior do palazzo. Giulia ficou imóvel na entrada, com o coração batendo no pescoço. Por um segundo, pensou em ir embora. Voltar para casa, tirar aquele vestido, sentar ao lado da mãe e fingir que havia outra saída.
Mas não havia.
O médico de sua mãe já tinha avisado: o tratamento precisava continuar. As contas não esperariam. E os homens que apareceram na porta da casa Moretti dois dias antes tinham deixado claro que dívida com gente poderosa não era esquecida.
“Seu pai prometeu pagar. Agora alguém vai pagar por ele.”
A lembrança fez sua pele gelar.
O segurança voltou.
— Entre.
Giulia passou por ele com a coluna reta, embora suas pernas estivessem prestes a falhar.
O interior do Palazzo Belladonna era ainda mais opulento do que ela imaginara. O salão principal parecia arrancado de outro século: piso de mármore claro, colunas imensas, lustres de cristal refletindo luz sobre taças douradas, pinturas antigas observando os convidados das paredes. Música clássica flutuava pelo ar, misturada a risadas baixas, tilintar de copos e perfumes caros.
Homens de terno italiano conversavam em grupos fechados. Mulheres com joias discretas e vestidos impecáveis deslizavam como se o chão tivesse sido feito para recebê-las.
Giulia sentiu-se uma intrusa antes mesmo de dar o terceiro passo.
Ainda assim, continuou.
Ela precisava encontrar alguém chamado Enzo Vitale. Fora esse o nome indicado nos documentos do pai. O homem que, aparentemente, controlava a cobrança. O homem que talvez pudesse ouvir uma proposta de parcelamento, um acordo, qualquer coisa que impedisse sua mãe de ser jogada na rua.
Giulia caminhou pelo salão tentando não demonstrar que estava perdida. Pegou uma taça de água de uma bandeja apenas para ter algo nas mãos. Os olhos percorriam os rostos, procurando alguém que parecesse velho o suficiente para ser Enzo.
Foi quando o salão mudou.
Não houve anúncio. Ninguém bateu em taças. A música não parou.
Mas as conversas diminuíram.
Como se uma sombra tivesse atravessado a porta.
Giulia percebeu primeiro o silêncio, depois os olhares. Pessoas que antes riam se endireitaram. Homens poderosos afastaram-se discretamente para abrir caminho. Mulheres voltaram a cabeça com curiosidade e medo.
Então ela o viu.
O homem entrou no salão como se não precisasse pedir licença ao mundo.
Alto, vestido com um terno preto perfeitamente ajustado, camisa branca sem gravata, ele carregava no corpo uma elegância quase cruel. Tinha cabelos escuros, olhos mais escuros ainda e um rosto que parecia talhado para não demonstrar fraqueza. A mandíbula marcada, a boca séria, a postura de quem jamais precisou levantar a voz para ser obedecido.
Ele não era simplesmente bonito.
Era perigoso.
Giulia soube disso antes de saber seu nome.
Havia homens que chamavam atenção pela riqueza. Outros, pela beleza. Aquele chamava atenção pela ameaça invisível que emanava dele. Como se cada passo fosse uma decisão. Como se cada respiração tivesse consequências.
Ele falou algo ao homem ao seu lado, e o homem assentiu imediatamente.
Giulia tentou desviar o olhar.
Falhou.
No mesmo instante, os olhos dele encontraram os dela.
Foi um choque silencioso.
A distância entre eles era grande, o salão estava cheio, mas Giulia sentiu como se ele tivesse atravessado tudo e colocado a mão em sua garganta. O olhar dele não era curioso. Era avaliador. Frio. Preciso. Como se ele tivesse notado cada detalhe: o vestido simples, a postura defensiva, a taça intocada, a pulseira barata no pulso, o medo que ela tentava esconder.
Giulia ergueu o queixo.
Não sabia por que fez isso. Talvez orgulho. Talvez estupidez.
O canto da boca dele quase se moveu.
Quase.
Então ele desviou o olhar, e Giulia voltou a respirar.
— Você não deveria olhar para ele desse jeito.
A voz feminina surgiu ao lado dela. Giulia se virou e encontrou uma mulher de meia-idade usando um vestido verde-escuro e um colar de pérolas.
— Perdão?
A mulher sorriu sem alegria.
— Como se ele fosse apenas um homem.
Giulia olhou de relance para o desconhecido outra vez.
— E ele não é?
A mulher a encarou por alguns segundos, como se decidisse se Giulia era corajosa ou idiota.
— Aquele é Lorenzo Vitale.
O nome caiu entre elas com peso.
Giulia apertou os dedos ao redor da taça.
Vitale.
— Pensei que Enzo Vitale fosse o responsável pela família — ela disse, antes que conseguisse se impedir.
A expressão da mulher se fechou.
— Enzo morreu há dois anos. Lorenzo assumiu tudo.
Tudo.
Giulia sentiu o sangue sumir do rosto.
Então aquele era o homem que talvez tivesse poder sobre a dívida de seu pai. Não um contador. Não um advogado. Não um credor comum.
Lorenzo Vitale.
O nome parecia combinar com ele.
— Você está pálida, cara — a mulher comentou. — É melhor ir embora se não sabe onde está pisando.
Giulia respirou fundo.
— Infelizmente, eu sei exatamente onde estou pisando.
A mulher arqueou uma sobrancelha, mas antes que pudesse responder, alguém chamou seu nome do outro lado do salão. Ela se afastou, deixando Giulia sozinha com uma certeza terrível:







