Entre a Hipocrisia e o Ciúmes

Isabelle

Ver Eduardo na minha frente, cheio de cobranças, me irrita profundamente. Não aguento mais lidar com isso.

— Senhor Torres — começo dizendo — imagino que o senhor entenda que não tem qualquer direito de me cobrar. Eu farei o que for melhor para a minha carreira, da mesma forma que sua empresa fará o melhor por ela. Agora, peço licença.

Saio do banheiro e vou em direção ao bar. Preciso de uma bebida forte para aguentar os últimos acontecimentos. Caio havia sido uma grata e divertida surpresa esta noite. Foi muito bom dançar com ele e, quando fez a proposta para uma entrevista, me senti leve. Não tenho mais expectativas de crescimento na Torres, não depois da rasteira que levei. Talvez mudar seja o melhor.

Peço um mojito, minha bebida favorita. Assim que pego o copo e penso em sair, vejo Liz se aproximar. Não tem como essa noite ficar pior.

— Oi, Isa. Vi você dançando com o Caio. Muito esperta: já que não tem talento, resolveu dormir com ele? Assim vai chegar ao cargo que deseja. Te admiro muito.

— Liz, só existe uma de nós que não poderia obter um bom cargo por talento e capacidade. E ambas sabemos que é você. Seu talento é ter papai rico. Sem ele, você é uma menina vazia, incompetente e burra. Com licença. Se eu continuar falando com você, meu cérebro vai atrofiar.

Essa menina mimada me odeia, quando eu sou a única entre nós duas que tem motivos para ressentimentos. Cada segundo que passo na Torres me faz perceber que meus dias estão contados lá.

Me retiro e vou ao encontro de Caio. Agora sou eu quem o chama para dançar. Desde que André foi conversar com alguns executivos, o nosso concorrente se tornou meu abrigo no meio desta gente vazia.

— Confesso ter ficado surpreso com o convite — diz Caio, enquanto dançamos uma música lenta. As luzes estão baixas, o clima na pista de dança é envolvente e me tranquiliza. O cheiro do meu par, um perfume amadeirado, me deixa estranhamente inebriada.

— Ora, estou apenas devolvendo o convite. Espero que aprecie, jovem senhor.

Faço um charme. Nunca fui a mulher de tomar iniciativa, sempre fui tímida e fechada. Mas quantas oportunidades devo ter perdido por ser assim? Eu sinto no fundo do meu coração que preciso mudar, preciso me tornar alguém diferente.

— Aprecio qualquer coisa vindo da senhorita. Principalmente um sim para o meu convite de entrevista. Nós dois sabemos que você merece mais do que o Torres pode te oferecer — tanto como chefe, quanto como namorado.

Essa última frase me pega desprevenida. Como ele sabe da nossa relação? Eduardo sempre fez questão de esconder. Além de André — meu outro chefe e melhor amigo de Edu — Gustavo é o único que sabe, contei em um dia de desabafo, após mais uma humilhação.

— Eu prometo pensar, Caio. Quanto ao namorado, não se engane: nós não somos nada. E eu sei bem disso.

— Não são porque o Torres é um elitista de merda. Isabelle, eu sei que ele já deve ter te convencido de que é isso que você merece: um amor às escuras, sem que ninguém nunca saiba quem você é. Mas você merece mais. Você merece muito mais.

A dança termina e me dirijo ao terraço. A cidade parece tão pequena vista daqui de cima. É difícil acreditar que lá embaixo os prédios sejam tão altos.

— Sabe… — diz André, se aproximando — de todos os lugares do mundo, você precisa estar no mais alto. Eu odeio altura, Isa.

Sorrio quando vejo meu par chegar. Deveria estar com raiva por ele ter me abandonado por boa parte do evento, mas não consigo. André tem o dom de arrancar o melhor de mim.

— Eu gosto de como me sinto pequena vendo as coisas daqui de cima.

— Louca. Você me lembra minha mãe. Ela ama altura.

— Você nunca fala dela. Acho que é a primeira vez que ouço você falar da sua mãe. Me conta mais.

— Ela amava dançar, cantar… era a personificação da vida. Até… enfim, melhor a gente entrar. Eu te levo para casa.

André parece triste e fico curiosa. Acho estranho ele falar da mãe dele assim no passado. Ela está viva e, pelo que sei, vendendo saúde.

— Espera. Me diz o que aconteceu com sua mãe. Você estava tão feliz falando dela e, de repente, ficou triste. O que mudou?

— Tudo, Isa. Tudo mudou. Nós perdemos minha irmã… e tudo mudou. Um dia a gente estava completo: minha irmã em casa com a gente, meu pai realizado, eu um irmão mais velho orgulhoso e minha mãe radiante. E então tiraram tudo isso da gente. Mas eu vou ter de volta. Eu vou devolver a peça que nos falta. Agora vamos, já falei muito da minha vida. Você merece encerrar a noite com um papo mais alegre.

---

Estou indo para meu apartamento e logo avisto Eduardo na porta. Ele raramente vem até aqui. Acha minha casa simples demais, meu bairro suburbano demais.

— O que foi, Edu?

— Me deixa entrar com você? Quero conversar. Não quero brigar. Apenas falar.

Não deveria aceitar, deveria mandá-lo embora, mas ainda existe essa força que nos une, sufocante, que torna impossível colocar um ponto final na nossa história.

Aceito e entramos. Edu parece abatido, como se não dormisse há dias. Sei que é loucura: nos vimos quase agora e esse homem vendia beleza. Ele não perde tempo e já começa a falar:

— Belle, eu não quero perder você. Não quero te perder como profissional e como mulher. Eu sei que disse que o que temos não é sério, mas te ver dançando com outro cara e lembrar que nunca dançamos juntos me destruiu. Eu não pretendo me envolver com outras mulheres. Sou exclusivamente seu e, em troca, você é exclusivamente minha.

— Edu, eu não sei como isso pode dar certo. Eu não me vejo mais em uma empresa que deu meu cargo para alguém sem qualificação.

— Eu sei que isso te magoou, mas você vai crescer lá dentro. Me dê apenas uma chance. Eu vou te mostrar que podemos fazer dar certo. Eu sei que não parece, mas eu valorizo você.

Eu queria ser forte e mandá-lo embora. Parte de mim sabe que Edu nunca fez nada para merecer o amor que sinto por ele. Todas as humilhações que eu passei têm nome e sobrenome. Mas meu coração me trai. O amor que eu sinto por ele grita, vibra por ele, e não sei se poderia me perdoar por não tentar. Quero tanto acreditar em suas palavras que resolvo dar mais uma chance. A última.

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