Mundo de ficçãoIniciar sessão
Toronto - Canadá
----12 anos antesA vida nem sempre foi gentil comigo.Eu tinha cinco anos quando meu pai morreu. No ano seguinte começou a necessidade de morar dentro de casa. Era silencioso, mas constante.Lembro da minha mãe tentando sustentar tudo sozinha e fazendo com que não percebemos o que estávamos passando, mas era quase impossível não perceber. Eu via o quanto ela trabalhou e o quanto ficou exausta no final do dia. Via como ela se esforçava para sorrir e brincar com a gente mesmo não aguentando parar em pé. Ela sempre foi uma guerreira.Até que, um dia, ela chegou com ele.Disse que era um amigo do trabalho. No começo, foi só isso: "o amigo da mamãe". Ele aparece de vez em quando, sempre com brinquedos, roupas... coisas que a gente não podia ter.E, por um tempo, pareceu bom demais para ser verdade.Ele não demorou para ser instalado. E menos ainda pra mostrar quem ele era de verdade.A casa, que já era pequena, passou a parecer menor ainda. Tudo girava em torno dele. Faça humor dele. Da voz dele.Na maioria das noites, ele chegou bêbado. E era sempre igual. Gritos. Portas. Mãos.Eu pedi para minha mãe ir embora. Implorava. Mas ela só disse que não tinha coragem.O tempo foi passando, pesado, arrastado... até que ela grave. Eu revirava os olhos toda vez que via a barriga crescendo. Se já era difícil fugir com três filhos, com mais um parecia impossível.Mas tinha uma coisa que eu nunca disse em voz alta: eu gostava quando ela estava grávida.Porque ele passou meses sem encostava nela.— Ele chegou? — Thomas sussurrou, quase sem ar.— Acho que sim. — Fiz um gesto para que fique em silêncio. Ele poderia ouvir.A guarda-roupa era o nosso esconderijo. Pequeno, abafado... mas o único lugar onde ainda parecia seguro.— Ele deve estar batendo na mamãe. Eu não posso deixar! — Edward murmurou, meu irmão gêmeo, com a raiva escapando mesmo no silêncio.Edward nunca soube ficar quieto.— Cala a boca! — pedi, quase sem voz. — Ele vai ouvir.— Eu não ligo. — retrucou ele.— Mas eu ligo! — Thomas respondeu, tremendo ao meu lado. — Eu não quero apanhar... faça.Aquilo abre alguma coisa dentro de mim.— Ninguém vai encostar em você! — falei, puxando ele para mais perto. — Eu não vou deixar.Eu sempre disse isso.Não porque tinha certeza... mas porque alguém precisava dizer.Eu era um técnico mais velho, então senti que não deveria examiná-los.A porta do guarda-roupa foi arrancada de uma vez. O susto travou meu corpo antes mesmo de eu conseguir respirar.Ele me encontrou.— Aí você está...A mão dele veio direto no meu cabelo, puxando com força. Fui arrastado para fora antes de conseguir reagir.— Me solte! — minha voz saiu fraca, falhando.— Eu te avisei, Eloise... — disse, se aproximando devagar, como se estivesse aproveitando aquilo. — Mas você gosta de brincar comigo.— Por favor... não... — implorei, sentindo o choro subir.— Agora é a minha vez.As mãos dele foram para o meu pescoço.O ar começou a faltar.Tentei me soltar, empurrar, qualquer coisa... mas era como lutar contra uma parede.— Fica quieta — ele rosnou, perto demais. — Você precisa aprender o seu lugar.Não.Eu não queria aprender.— Solta minha irmã! — Edward avançou com tudo pra cima dele, mas Joseph foi mais rápido.Era Sempre.Joseph o arremessou com tanta força que o corpo dele bateu direto na estante. O barulho foi alto, e eu consegui ouvir o barulho daquelante de vidro se quebrar em cima dela.Meu coração parou.–Eduardo! — gritei, desesperada.Ele estava no chão.Abaixo da estante.Sem conseguir se levantar.Antes que ele me puxasse de novo, um som seco cortou o ar. Algo pesado acertou a cabeça dele.E, de repente... ele caiu.O silêncio veio estranho, quase assustador.— Mamãe... — sussurrei, o problema escapando junto com o ar que eu nem sabia que ainda prendia.Ela não respondeu. Já estava ao lado de Edward.Vi quando ela falou a estante com uma força que eu nem sabia que ela tinha. O rosto dela mudou ao ver o corte no braço dele... mas ela não desmoronou.Nunca desmoronava.— Tá tudo bem, meu amor — disse, acariciando o rosto dele, como sempre fazia. — A mamãe vai cuidar de você.Edward tremia, mas segurou a mão dela como se fosse a única coisa que ainda mantinha ele ali.— Ele morreu? — Thomas falou, saindo devagar da guarda-roupa.A voz dele me corta.Minha mãe deixou ele para perto na mesma hora, beijando a cabeça dele com cuidado.— Não, querido... eu espero que não — disse, firme, mas baixa. — Mas a gente precisa ir.Ir.Aquilo bateu diferente.—Pra onde? — Thomas perguntou.Ela hesitou.— Eu ainda não sei... — respondeu. — Só sei que a gente precisa ficar junto.Sempre juntos.— Arrumem suas coisas. Eu vou acordar os outros.Ela saiu rápido.Eu ajudei Edward a se levantar. Ele apoiou o peso em mim, ainda fraco. A gente não falou nada. Só fiz o que preciso. Quando percebi, nossas mochilas já estavam prontas.Quando descemos, encontrei minha mãe cercada pelos menores. Todos grudados nela, como se o abraço dela fosse a única coisa que ainda mantinha a gente inteira. E talvez fosse. Poucos minutos depois, já estávamos na rua.Sem rumores.Eu carreguei minha mochila nas costas e segurava firme nas mãos de Benjamin e Jade, uma de cada lado. Não podia soltar. Não queria soltar. Minha mãe levava Sophie no colo, ainda dormindo, envolvida em uma manta cor-de-rosa. Edward e Thomas vieram atrás, carregando o resto.O frio cortava.— Eu estou com frio... — Benjamin murmurou, se encolhendo.Apertei a mão dele.— Eu também — Thomas disse, a voz baixa. — Falta muito, mãe?— Não — ela respondeu, ajeitando Sophie com cuidado. — A rodovia já está perto.Quando chegamos, minha mãe colocou Sophie nos braços do Edward e foi direto para o guichê.— Pra onde a gente vai? — Benjamim perguntou.— Pra longe — Edward respondeu, enviando com cuidado.Longe.Aquilo bastava.— A gente vai dar um passeio. — eu respondi forçando um sorriso.Puxei ela e Benjamin para perto, tentando manter os dois distraídos. Lancei um olhar para Edward.Chega.Sem mais perguntas.— O papai já vai chegar? — Jade disse, uma voz final.Engoli seco.— Vai... sim.Não olhei pra ele.Olha pra minha mãe.Ela estava no guichê, entregando o dinheiro que guardava por tanto tempo. As mãos firmes... mas os olhos não. Era tudo o que a gente tinha.— vemm — ela chamou.Pegou Sophie de volta e abriu ela contra o peito, como se tivesse medo de soltar.— Minha perna tá doendo... — Jade murmurou.— Vem — Edward disse, pegando ela no colo mesmo exausto.A gente entrou no ônibus. Sentei na janela. Encostei a testa no vidro gelado, enganando o coração que não parava. Edward ajeitou Jade no colo. Ela dormiu rápido.— Você acha que ele vem atrás da gente? — ele disse, baixo.— Espero que não.






