Capítulo 3
A dor que eu esperava nunca veio. Uma árvore amorteceu minha queda.

Quando me tiraram de lá, papai Zé apareceu com o rosto sem cor e me deu uma bofetada.

— Isadora, quando você vai parar com isso?

Papai Dante não estava melhor. Tremia dos pés à cabeça. Veio até mim e me acertou um chute.

— Isadora, o que você está tentando fazer?

Caí no chão.

Meu estômago ainda queimava por causa da lavagem. Com o chute, a dor explodiu, como se uma faca me atravessasse por dentro e girasse sem piedade.

Um gosto de sangue e podridão subiu pela garganta.

Cuspi o sangue e me ajoelhei diante dos dois.

— Sr. Dante, Dr. Zé... parem de me salvar. Me deixem morrer.

Os dois me encararam, atônitos.

Papai Dante franziu a testa.

— Essa é a sua nova chantagem? Vai usar a própria morte para nos pressionar?

— Não. — Ergui os olhos, já tomados pelas lágrimas. — Eu vi o Sistema da mamãe. Ele me disse que, se eu morrer, posso ir para junto dela. Por favor... não me impeçam. Me deixem morrer.

Minha voz se quebrou.

— Assim vocês não vão mais precisar se preocupar comigo disputando o amor de vocês com a Eva. Também não vão precisar me manter presa só para me vigiar.

Depois do que aconteceu com Eva, papai Nuno, que veio do Exército, decidiu me castigar.

Ele me trancou por cinco dias e cinco noites num quarto escuro.

Deixou uma luz forte apontada direto para os meus olhos e não me permitiu dormir.

Sempre que meu corpo começava a ceder, ele me aplicava adrenalina.

Quando aqueles cinco dias acabaram, a primeira coisa que fiz foi implorar aos quatro que me deixassem ir embora.

Mas eles se recusaram.

— Mesmo debaixo dos nossos olhos, você conseguiu fazer tudo isso. Se sair daqui, ninguém sabe até onde vai chegar para atormentar e machucar a Eva.

— Exatamente! Nós prometemos à sua mãe que cuidaríamos da sua educação. Você não vai embora!

Talvez tenha sido por eu mencionar mamãe. A dureza no rosto dos dois cedeu um pouco. Por um instante, até reencontrei ali uma ternura que conhecia bem.

— Isadora, você tem certeza de que viu o Sistema da sua mãe? Quando isso aconteceu? — Papai Dante me ajudou a levantar.

Contei a verdade. O Sistema apareceu naquela manhã, quando eu já estava quase morrendo de fome.

Os dois trocaram um olhar.

— Isadora, talvez você não saiba, mas, antes de partir, sua mãe nos contou que o Sistema desapareceria assim que a missão terminasse. — Papai Zé mediu as palavras. — É possível que você tenha sofrido uma alucinação.

Balancei a cabeça depressa.

— Não. Era o Sistema dela, sim. Dr. Zé, por favor, pare de me salvar. Só me deixe morrer.

A palavra morrer escureceu o rosto de papai Zé.

Ele tentou se conter, mas não conseguiu.

— Se foi alucinação ou não, não cabe a você decidir. Vamos levar você a um psiquiatra.

Depois, passou a mão pelos meus cabelos, como fazia antigamente.

A expressão dele, porém, parecia estranha. Quase indecifrável.

— Já se passaram três anos. Nós conversamos e decidimos que, se você prometer não se aproximar mais da Eva, não vamos voltar a casti...

Ele nem terminou.

Papai Rogério e papai Nuno surgiram diante de nós.

— Dante, Zé, vocês viram a Eva?

Os dois congelaram.

— Ela não estava com vocês agora há pouco?

Rogério Mendes parecia fora de si.

— Ela recebeu uma ligação e sumiu. Disse que um colega queria lhe entregar um presente e saiu para buscar. Será que...

O sangue desapareceu do rosto dos quatro.

Três anos antes, também no aniversário de Eva, um colega telefonou e a chamou para sair.

Depois disso, aqueles delinquentes...

Como se obedecessem ao mesmo impulso, os quatro se viraram para mim.

Sob aqueles olhares, meu corpo inteiro se encolheu.

Nenhum deles precisou dizer nada. Eu entendi.

— Não... não fui eu.

— Como não foi você? — Papai Dante explodiu.

Ele avançou, agarrou minha roupa pela gola e me ergueu num rompante.

— Isadora, então era por isso que você passou o dia tentando morrer? Para nos distrair? Onde você escondeu a Eva?

Balancei a cabeça, desesperada.

— Não. Eu não fiz nada. Juro que não fiz.

Mas papai Dante, cego de raiva, não queria me ouvir.

— Você ainda não se arrependeu, Isadora? Não vive dizendo que quer morrer? Ótimo. Hoje eu realizo seu desejo.

Ele ergueu o punho para me acertar.

No último instante, papai Nuno segurou seu braço.

— Dante, aqui não. Tem gente demais olhando. — Alertou ele, em voz baixa.

Papai Dante conteve o golpe e me lançou um olhar cortante.

— Levem ela para casa.

O silêncio dentro do carro pesava como uma sentença.

Meus pais ligavam sem parar, mobilizando todos para encontrar Eva. Encolhida num canto, eu tremia sem conseguir me controlar.

Sabia que a tempestade estava prestes a cair sobre mim.

Quando o carro parou, me arrancaram do banco.

Bastou olhar para a casa à minha frente para perder o controle.

Eu conhecia aquele lugar. Já passei por aquilo ali.

O medo tomou meu corpo antes mesmo que eu conseguisse pensar. Caí de joelhos.

— Eu realmente não sei onde a Eva está. Por favor, me deixem em paz.

Papai Zé agarrou meus cabelos e puxou minha cabeça para trás. Sua voz saiu gelada.

— Você não queria morrer? Depois de tantos anos como pai e filha, nós mesmos vamos ajudar você.

Meu corpo inteiro tremia.

Eu queria morrer.

Mas tinha medo da dor.

E, depois que me levaram até ali, sabia que não me deixariam escapar.

Eles me arrastaram para dentro.

Mais de dez homens fortes já esperavam no cômodo.

Papai Nuno me jogou no chão. Com o cenho fechado, me encarou como se eu fosse uma decepção sem conserto.

— Ensinem ela a se comportar.

Mãos surgiram de todos os lados.

Alguns homens prenderam meus braços e minhas pernas. Outros começaram a cravar pregos na minha carne.

A dor tomou cada parte do meu corpo.

Gritei por socorro, enlouquecida.

Chamei por meus pais uma vez. Depois outra. E outra.

Quando percebeu que aqueles homens estavam prestes a ir ainda mais longe, Zé não aguentou.

— Parem!

Ele se aproximou e se abaixou diante de mim.

— Isadora, diga onde você escondeu a Eva. Se falar a verdade, podemos poupar você em consideração à sua mãe.

As lágrimas escorriam sem parar.

— Eu não sei. Juro que não sei. Eu não fiz isso.

Zé abriu a boca, mas papai Nuno segurou Zé pelo braço.

— Zé, você ainda não sabe como ela é? Se pegarmos leve, ela nunca vai admitir. Em todos esses anos maltratando a Eva, por acaso confessou alguma vez?

Algo estranho atravessou o olhar de Zé.

Por fim, ele afastou a mão.

— Continuem.

Naquele instante, entendi que não sairia viva dali.

A dor se espalhava, cada vez mais intensa, mas parei de gritar.

Em meio à consciência turva, o rosto da mamãe pareceu surgir diante de mim.

Podiam bater.

Podiam continuar.

Dessa vez, eu realmente ia encontrá-la.

Meus quatro pais ainda faziam ligações sem parar.

Até que um número conhecido apareceu no celular de papai Dante.

— Eva, onde você está?

A voz dela ecoou pelo cômodo.

— Papai Dante, estou comendo fora com uns colegas. Por que vocês me ligaram tantas vezes?

Os quatro congelaram.

— Você não foi sequestrada?

Eva soltou uma risada.

— Do que vocês estão falando? Por que alguém me sequestraria? Depois a gente conversa. Já estou voltando para casa.

Quase ao mesmo tempo, o mordomo ligou para avisar que já estava com ela.

O alívio percorreu os quatro.

— Graças a Deus, a Eva está bem. — Papai Zé respirou fundo.

Então arregalou os olhos para Dante.

— Isadora!

Só naquele momento se lembraram de que eu ainda estava ali.

Mandaram os homens parar e vieram até mim.

Chamaram meu nome várias vezes.

Não respondi.

— Isadora, pare de fingir. Já encontramos a Eva.

— Dessa vez, nós nos enganamos sobre você.

Papai Dante se agachou e tocou meu corpo.

Nenhuma reação.

Foi então que percebeu uma coisa.

Eu já não gritava de dor fazia tempo.

O rosto dele mudou. Com o peito apertado por um mau pressentimento, aproximou a mão do meu nariz.

Mas já era tarde. Eu não respirava mais.

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