Depois que papai Dante saiu do canil, também deixei a Mansão Pinto.
Comprei um frasco de agrotóxico e fui até a antiga casa da mamãe.
Deitei na cama abraçada à foto dela. Quando levei o frasco à boca, porém, parei.
Se eu morresse daquele jeito e alguém me encontrasse, só daria trabalho à polícia.
Então escrevi uma carta, deixando claro que eu mesma escolhi morrer.
O líquido amargo queimou minha língua, desceu pela garganta e incendiou meu estômago.
Logo, tudo escureceu.
"Mamãe, estou indo!"
Não sabia quanto tempo passou quando meu estômago se revirou. Vomitei com violência e despertei sufocada pelo mal-estar.
Assim que vi o teto desconhecido, me sentei num impulso, tomada por uma alegria quase febril.
— Mã...
A palavra morreu nos meus lábios.
Quem estava diante de mim era papai Zé.
Vestido com um jaleco branco, ele segurava minha carta numa das mãos. Seus dedos tremiam de tanta força.
No instante seguinte, jogou o papel no meu rosto.
— Você está se superando, Isadora. Agora aprendeu a usar a própria morte para nos obrigar a olhar para você?
A voz dele atravessou o quarto, afiada.
— Nem para morrer você consegue ir para longe? Por que escolheu justamente aquele lugar? Você sujou o quarto da sua mãe. Tem noção disso?
Fiquei perdida sob seus gritos.
Entre os quatro, papai Zé sempre foi meu favorito.
Zé Pereira era um médico genial, um especialista que parecia dominar todas as áreas da medicina.
Ele me ensinava coisas sobre o corpo humano, me mostrava como funcionava a acupuntura e passava mais tempo comigo do que qualquer um dos outros.
Era gentil. Divertido.
Por muito tempo, acreditei que ele fosse meu pai de verdade.
Até quando Eva apareceu, papai Zé não lhe deu a mesma atenção que os outros três.
Em vez disso, olhou para mim e prometeu:
— Isa, você é a única filha do papai Zé. Ninguém vai tomar o seu lugar.
Até o dia em que Eva desmaiou diante de todos.
Ao examiná-la, papai Zé puxou uma agulha de acupuntura da nuca dela.
Papai Zé perguntou o que aconteceu.
Antes que ele terminasse, Eva se ajoelhou diante de mim.
— Isa, me perdoe. Eu não contei nada ao papai Zé. Ele descobriu sozinho. Pode me espetar de novo, eu deixo.
Foi a primeira vez que vi papai Zé perder a cabeça.
A decepção cobria seu rosto quando ele me encarou.
— Isadora, eu lhe ensinei tudo isso para salvar vidas, não para matar ninguém!
Não importava o quanto eu negasse. Ele não acreditou em uma única palavra.
Além dele, eu era a única pessoa naquela casa capaz de cravar uma agulha naquele ponto exato.
— Zé, se acalme.
Só então percebi que papai Dante também estava no quarto. O rosto dele parecia uma nuvem carregada.
— Isadora tentou se matar uma vez em casa e depois bebeu agrotóxico no antigo apartamento da Alisa. Acho que alguma coisa aconteceu com a cabeça dela...
Papai Zé nem o deixou terminar.
— Dante, você está com pena dela? Já esqueceu do que essa garota é capaz para enganar a gente?
O desprezo endureceu sua voz.
— Ela se agarra a dinheiro e luxo com unhas e dentes. Você acha mesmo que abriria mão de nós quatro? Ela só fez esse show porque hoje é aniversário da Eva. Quer estragar o dia dela e voltar a ser o centro das atenções.
A dúvida no rosto de papai Dante se desfez aos poucos.
— Você tem razão.
Nesse instante, os dois celulares tocaram ao mesmo tempo.
Eles olharam as telas e abriram as mensagens.
— Papai Dante, papai Zé, quando vocês vão voltar para casa? Os outros dois papais já estão aqui esperando.
A voz doce de Eva encheu o quarto.
— Hoje é minha festa de dezoito anos. Se vocês demorarem mais, eu vou ficar brava.
Um sorriso surgiu no rosto dos dois.
Com os celulares nas mãos, eles gravaram áudios para acalmar a pequena princesa, escolhendo cada palavra com todo o cuidado.
Aquela cena me pareceu dolorosamente familiar.
Um dia, eles me mimaram daquele mesmo jeito.
Os homens continuavam os mesmos. Só o coração mudou de dona.
Enquanto os dois repetiam “minha princesinha”, me arrastei em silêncio até a janela.
Eu sempre tive medo de sentir dor. Por isso, procurei formas mais suaves de morrer.
Mas não conseguia esperar mais. Na frente dos dois, passei por cima do parapeito.
E me joguei.
Adeus.
Meus dois papais.