Mundo de ficçãoIniciar sessãoHenrique conseguia ouvir os alertas do meu sistema. Certa vez, o sistema me perguntou: [Hospedeira, seu nível de afeição atingiu o máximo. Deseja eliminar seus sentimentos e retornar ao mundo real?] Ele ouviu cada palavra. Seu semblante se fechou na mesma hora e, naquela noite, ele me tratou com uma frieza que eu nunca tinha visto antes. O que ele não ouviu foi a resposta que dei logo em seguida, com a voz embargada: — Eu não vou embora. Quero ficar com ele. Por isso, no dia do nosso casamento, Henrique me deixou sozinha diante de todos e foi embora sem sequer olhar para trás. E não parou por aí. Ele levou consigo a única Flor Sagrada de Cura existente naquele mundo para tratar Isabela, embora ela tivesse apenas um arranhão superficial. Henrique acreditava que, se reduzisse meu nível de afeição e me fizesse fracassar na missão, eu perderia para sempre a chance de partir. Para me manter presa àquele mundo, passou a ignorar repetidamente tudo o que Isabela fazia comigo. Nem mesmo reagiu quando ela destruiu meu núcleo mágico. No dia em que Isabela enfrentaria a Provação Sagrada, Henrique também permaneceu indiferente enquanto ela quebrava a espada do pacto, ligada diretamente à minha alma. Isabela pisou sobre a lâmina partida e sorriu com uma inocência cruel. — Lívia, o Henrique não aguenta me ver sofrendo. Ele precisou usar a sua vida para suportar uma parte da provação por mim. E, só para deixá-la tranquila, Henrique me prendeu com grilhões capazes de selar minha magia, imobilizando-me no centro do Altar da Tempestade. No instante seguinte, relâmpagos rasgaram o céu e caíram sobre o altar em meio a estrondos ensurdecedores. Desabei ali, coberta de sangue, sentindo a vida escapar de mim a cada respiração. Foi então que o sistema, silencioso havia tanto tempo, voltou a soar: [Hospedeira, seu nível de afeição está prestes a chegar a zero. Deseja reabrir o caminho de volta?] Desta vez, não hesitei. Reunindo o último fio de força que ainda me restava, respondi: — Sim.
Ler maisNo dia em que Isabela perdeu definitivamente toda a magia, Henrique não foi vê-la.Diziam que ela passara a noite inteira chorando e gritando diante da masmorra de gelo das terras do Norte.Às vezes, chamava por Rique. Em outras, dizia que estava doendo. Depois voltava a chorar, repetindo que sabia que tinha errado.Henrique não apareceu.Naquele dia, permaneceu na pequena casa onde eu costumava morar, organizando tudo o que eu havia deixado para trás.O quarto continuava exatamente como antes.O suporte de espadas na parede estava vazio.Sobre a penteadeira, havia um lenço bordado pela metade.E, no fundo do guarda-roupa, ainda estava o casaco de inverno que eu começara a fazer para ele, mas nunca terminara.Quando Henrique o tirou de lá, percebeu que a costura parava na altura do punho.Ali, havia um pequeno ramo de abeto bordado.Ao lado, em pontos tão finos que quase passavam despercebidos, duas letras minúsculas:H.V.Henrique ficou olhando para aquilo por muito tempo.Então se le
Henrique voltou à área de confinamento da Torre Norte.E ficou lá por três dias.Ninguém ousou tentar convencê-lo a voltar.Durante todo aquele tempo, permaneceu sentado à beira do penhasco onde eu havia desaparecido, apertando contra o peito a capa que um dia envolvera meus ombros.O vento e a neve se acumularam sobre seu corpo, mas ele não se moveu.Ao entardecer do terceiro dia, um dos anciãos mais velhos do Templo foi até lá.Parou diante da ponte destruída e observou Henrique por um longo tempo antes de suspirar.— Henrique, ela já se foi. Você precisa voltar.Fez uma breve pausa.— O Templo não pode continuar sem alguém no comando.Henrique não se virou.— Ela não morreu.O ancião franziu a testa.— O cristal da vida dela se apagou. O rastreamento da alma também não encontrou nenhum vestígio. Então isso só significa que ela foi para outro lugar.A voz de Henrique estava terrivelmente rouca.— Ela me contou. Disse que veio de outro mundo.O ancião permaneceu em silêncio por alguns
Henrique passou a noite inteira investigando.O núcleo mágico.A espada do pacto.A Flor Sagrada de Cura.O cravo antimagia.Os grilhões de selamento.Uma coisa depois da outra.Tudo o que antes ele havia tratado como algo sem importância agora voltava diante de seus olhos, revelando, pouco a pouco, uma verdade que durante anos preferira não enxergar.A Flor Sagrada de Cura nunca fora necessária por causa de um simples arranhão de Isabela.Ela descobrira que Henrique havia preparado a flor especialmente para mim, na esperança de reparar meu núcleo mágico danificado.Por isso, justamente no dia em que a flor seria trazida, provocara a própria queda.Minha espada do pacto também não fora usada por acaso durante a Provação Sagrada, num impulso desesperado para se proteger dos raios.Três dias antes da provação, Isabela já havia aberto meu estojo às escondidas e escondido a espada sob o Altar da Tempestade.Até o cravo antimagia havia sido ideia dela.Na época, dissera aos agentes do Templ
A câmara onde eram guardados os cristais da vida ficava na torre antiga, atrás do Templo.Durante trezentos anos, o meu cristal permanecera ao lado do de Henrique.Fora ele próprio quem colocara os dois juntos. Antes de sair, ainda se virara para o guardião da câmara com um sorriso.— Quando forem verificar a energia mágica, verifiquem os dois juntos. Não deixem nenhum deles de fora.O guardião ainda se lembrava perfeitamente daquelas palavras.Por isso, quando Henrique entrou abruptamente na câmara, todos os presentes se ajoelharam.O lugar inteiro mergulhou em silêncio.Ninguém ousava sequer respirar mais alto.Na prateleira mais alta, o cristal de Henrique continuava emitindo uma luz firme e constante.Ao lado, porém, o meu estava completamente apagado.Os veios luminosos que antes percorriam seu interior haviam se rompido. A energia que fluíra por eles se condensara numa mancha escura e imóvel, semelhante a uma gota de sangue seco.Henrique parou diante do cristal.Depois de alguns





Último capítulo