Mundo de ficçãoIniciar sessãoSelene continuou ouvindo, sentindo o chão desaparecer debaixo dos pés.
— todo esse dinheiro? — a madre arregalou os olhos ao receber o cheque com um valor.
— E em troca… — o outro completou, com um sorriso cínico. — Apenas nos disponibiliza as mais crescidas, as meninas que já estão chegando aos 16 e 18 anos é suficiente.O coração de Selene gelou.
— Eu não posso… isso é errado… — a madre sussurrou, aflita, mas a insegurança em sua voz era clara, mesmo entregando o cheque a eles, — Errado? — o primeiro debochou. — Errado é deixar essas crianças passando fome. A senhora poderia salvá-las. É só nos dar o que não vai demorar a se perder de qualquer forma, estamos apenas oferecendo um valor por algo que já é inevitável quando elas saírem. Afinal, nenhuma delas vai continuar aqui a partir dos 18 anos. Você pode nos mandar com a promessa de um novo lar, o que não é mentira, já que elas poderão ter uma casa, comida, roupas, tudo que quiser. — Não sei… — Você tem tempo de pensar. Não vamos querer respostas negativas quanto a isso, e amanhã você pode escolher qual delas já está pronta para ir com a gente. Ou, se você mesma não escolher, nós mesmos faremos!Selene sentiu o sangue ferver. Sem pensar, saiu de trás da parede e avançou.
— Vocês são monstros! — gritou, a voz trêmula, mas cheia de coragem. — Acham mesmo que podem vir aqui e transformar meninas inocentes em mercadoria?Os dois homens a fitaram, surpresos pela ousadia.
— Selene, não! — a madre tentou segurar seu braço, mas ela se soltou.Selene ergueu a mão e, em um gesto impulsivo, deu um tapa no rosto de um deles.
— Canalhas! Saiam daqui! O que pensam que estão fazendo?O impacto ecoou no silêncio que se seguiu.
O homem tocou o rosto devagar, depois riu com desprezo. — Essa pirralha tem coragem… — o outro comentou, enquanto o homem que recebeu o tapa tinha um olhar sombrio. — É por isso que pessoas como ela devem saber onde estão se metendo.De repente, ela foi empurrada contra a parede com violência. O ar saiu de seus pulmões.
— Vai aprender a não meter o nariz onde não é chamada, vadia! — o outro rosnou, segurando-a pelo braço.A madre tentou intervir, mas foi agarrada também, contida à força e jogada no chão.
— Madre... fique de fora disso! Não machuquem ela — Selene gritou, tentando ir em direção à madre, mas uma dor lancinante tomou suas costas.Selene se debatia, gritando, mas um deles a arrastou pelo corredor em direção à porta lateral. O medo tomou conta; a adrenalina queimava em suas veias.
Foi então que uma voz soou atrás deles, calma e carregada de veneno.
— Deixem ela comigo.Os homens pararam de imediato. Selene, mesmo assustada, virou o rosto.
No batente da porta, recostado com um sorriso torto, estava Mathias. O olhar dele era frio, quase divertido, como se já soubesse o que estava prestes a acontecer. — Eu cuido da minha noiva.Selene congelou. O deboche dele foi pior do que qualquer ameaça.
O grito saiu antes de Selene conseguir pensar. A dor do tapa ainda queimava na face quando a mão rude a agarrou pelo braço e a empurrou pela porta. — Mathias, seu desgraçado, não pensei que ia te encontrar tão cedo! — ela asseverou, avançando contra ele.Dois homens a seguravam de cada lado como se ela fosse apenas um objeto incômodo. A madre tentava se interpor, em lágrimas.
Selene lutava, socando os braços que a prendiam, arrancando unhas na pele. A madre tentou se aproximar e foi rechaçada com um chute.O som do corpo da mulher batendo ecoou mais alto que os risos dos homens. A pequena sala onde as crianças brincavam ficou suspensa em silêncio, como se o próprio ar tivesse congelado. As portas tinham sido trancadas pelos tutores que cuidavam delas, para que nenhuma visse o que estava acontecendo.
— Madre, por favor — implorou Selene, a voz quebrada. — Não deixe que eles levem as meninas, não deixe essa imundície se infiltrar no nosso orfanato, por favor.Um dos homens recostou o pé no ombro da madre, empurrando-a para trás.
— Ou a senhora colabora, ou este lugar fecha. Entendeu? — disse ele, com voz baixa e venenosa. — E aí, quem vai cuidar das criancinhas? Ninguém... Podemos pegar cada uma e vender. Imagina leilão de crianças de oito anos? Estamos te dando uma chance.A madre, com lágrimas nos olhos e as mãos tremendo, fez um gesto de rendição, sem forças para outra coisa.
O aperto no peito de Selene foi como um punhal. Não havia polícia, não havia justiça, só aquelas figuras que agora decidiam o destino do orfanato.
— Elas não vão causar problemas, podem ir embora. Eu vou ensinar a Selene seu lugar.Os capangas se entreolharam e, com um meio sorriso, soltaram Selene.
— Essa pirralha se mete demais. Deveríamos dar um recado, por isso é bom que você não alivie as coisas para ela — o outro alertou em tom de ameaça e se retiraram.O sorriso de Mathias era frio, quase um troféu. Ele chegou até Selene com passos preguiçosos, pegando-a pelo cabelo com uma mão firme e arrastando-a alguns metros, fora do pátio, para que ninguém mais a ouvisse gritar.
— O que você está fazendo aqui? Pensei que ele ficaria com você por alguns dias, sem falar que está bem demais para alguém que foi vendida — perguntou ele, sem afeto. — Por que se meteu nisso?Antes que Selene pudesse responder, o celular dele tocou. Pegou o aparelho com a outra mão, apertou para atender e ouviu a voz do chefe do outro lado, áspera e rápida.
— Mathias, a mercadoria não foi entregue. Tivemos alguns imprevistos e o chefe teve que mudar o caminho. Você deveria ter sido mais cuidadoso. Ele quer o dinheiro de volta agora. Ou traga a moça amanhã.Mathias mordeu o lábio com impaciência. Doeu quando puxou Selene com mais força, fazendo-a cambalear no chão na saída do lugar. A mão que segurava seu cabelo apertou, provocando outro gemido de dor.
— Calma — disse Mathias, com voz baixa, olhando para o chamador. — Eu resolvo. Vou investigar o que aconteceu para que o plano tenha dado errado.Quando desligou, virou-se para ela com olhos que não conheciam remorso.
— Mas que merda! Por que você fugiu, hein? — Eu fugi? E tinha como? Mas, para seu azar, não aconteceu nada — ela riu com deboche.Com desprezo, Mathias deu-lhe um tapa que a jogou de costas no chão sujo. Selene sentiu o mundo rodar; o lábio estourado ardia.
— Por que está fazendo isso? — conseguiu sussurrar, cada palavra saindo como se raspasse sua garganta. — Por que você está envolvido com esses homens? Por que com o orfanato? É a minha casa, por que está fazendo essas coisas horríveis?






