Elena respirou fundo ao ouvir o barulho da porta da garagem se abrindo.
Ele tinha chegado.
Olhou rapidamente para o próprio reflexo no vidro da janela.
Alisou o vestido.
Conferiu se o relógio estava sobre a mesa.
Depois tocou discretamente a bolsa onde havia escondido a pequena caixa de veludo.
Seu coração batia tão forte que ela podia jurar que qualquer pessoa ao seu redor conseguiria ouvir.
— Senhora Elena... — disse uma das funcionárias, sorrindo. — Está nervosa?
Ela soltou uma risada baixa.
— Um pouco.
— Tenho certeza de que o Alfa vai adorar a surpresa.
Elena sorriu.
Também queria acreditar nisso.
As portas de vidro do hall começaram a se abrir.
Os seguranças se posicionaram dos dois lados da entrada.
Ela deu um passo à frente.
Os primeiros homens entraram.
Depois vieram mais dois seguranças.
Até que Kael apareceu.
Mas...
Ele não estava sozinho.
Nos braços dele havia uma mulher.
Os longos cabelos loiros escondiam parte do rosto.
Ela parecia desacordada.
As roupas estavam rasgadas e havia pequenos cortes em seus braços.
Kael caminhava depressa.
Seu olhar estava completamente voltado para ela.
— Abram caminho! — ordenou.
Os funcionários se afastaram imediatamente.
Elena permaneceu parada.
Sem entender.
— Kael...
Ele passou por ela.
Nem sequer diminuiu o passo.
Como se ela não estivesse ali.
— Chamem o Liam! Agora! — gritou.
Um dos seguranças pegou o telefone imediatamente.
— Ele já está vindo, Alfa.
Kael apenas assentiu.
Foi então que a mulher em seus braços se mexeu.
Abriu os olhos lentamente.
Olhou para Kael.
— Eu... estou sonhando?
A voz era fraca.
Quase um sussurro.
Kael segurou seu rosto com delicadeza.
— Não.
Você está em casa.
Elena sentiu o peito apertar.
Nunca...
Nunca tinha ouvido Kael usar aquele tom de voz com ela.
A mulher sorriu de leve.
Depois fechou os olhos outra vez.
Kael voltou a caminhar em direção ao elevador.
Foi quando Elena conseguiu ver seu rosto por completo.
O mundo pareceu parar.
Não.
Não podia ser.
Selene.
Seu corpo ficou imóvel.
Durante anos, aquele nome havia sido apenas uma lembrança distante.
A mulher que toda a alcateia acreditava que seria a Luna de Kael.
Seu primeiro amor.
A mulher que desapareceu durante o ataque da Matilha Rubra.
Elena lembrava perfeitamente daquele dia.
Lembrava do caos.
Dos gritos.
Do sangue.
E lembrava, principalmente, do momento em que empurrou Kael para longe de um golpe que teria acabado com sua vida.
Ela ainda carregava uma cicatriz nas costas por causa daquele ataque.
Mas Kael nunca perguntava sobre ela.
O elevador se abriu.
Antes de entrar, Kael finalmente olhou para Elena.
Por um segundo, ela acreditou que ele diria alguma coisa.
Qualquer coisa.
"Desculpe."
"Depois conversamos."
"Espere por mim."
Mas ele apenas falou:
— Prepare um quarto ao lado do meu.
Elena franziu a testa.
— Ao lado... do nosso?
— Sim.
Ela vai ficar conosco por um tempo.
A frase caiu como uma pedra.
Elena tentou dizer alguma coisa.
Mas nenhuma palavra saiu.
As portas do elevador se fecharam.
O silêncio tomou conta do hall.
As funcionárias começaram a recolher os pratos do jantar.
Uma delas apagou as velas.
Outra retirou o bolo.
Como se aquela noite nunca tivesse existido.
Foi então que Elena percebeu que ainda segurava a bolsa.
Ela a abriu lentamente.
Retirou a pequena caixa de veludo.
Passou o dedo sobre a tampa.
Lá dentro estava a notícia que mudaria a vida dos dois.
Mas não naquela noite.
Ela fechou os olhos.
— Senhora Elena...
Era Liam.
Ele havia acabado de chegar.
Seu olhar foi imediatamente para a caixinha.
Depois para a mesa vazia.
E, por fim, para o elevador.
Ele entendeu tudo sem que ela precisasse dizer uma única palavra.
— Ele ainda não sabe... não é?
Elena respirou fundo.
As lágrimas finalmente venceram.
— Não.
E... agora...
Acho que nunca vai existir um momento certo para contar.
Liam não respondeu.
Mas, enquanto olhava para a mulher que tentava conter o choro sozinha, um pensamento atravessou sua mente.
Se Kael continuar sem enxergar a mulher que tem ao lado... um dia será tarde demais.