Quando Perdi a Voz, o Mar Me Trouxe Você
Quando Perdi a Voz, o Mar Me Trouxe Você
Por: Lídia
Capítulo 1
O amigo se surpreendeu.

— Então você vai mesmo se casar com a Luiza? E a Tatiana?

Davi fez uma breve pausa antes de responder:

— Quando éramos crianças, Luiza foi morar na minha casa. Meu pai sempre dizia que eu precisava cuidar dela, porque no futuro nós nos casaríamos. Eu cresci tratando ela como minha esposa... cuidar dela virou um hábito. Só mudou quando conheci a Tatiana.

Ao mencionar aquele nome, seus olhos ganharam um brilho diferente.

— A Tatiana pode não vir de uma boa família, mas nunca aceitou isso. Sempre foi forte. Desde a primeira vez que a vi, ela me chamou a atenção.

— Se você gosta tanto dela, por que não vai atrás? — O amigo perguntou, sem entender.

Depois de alguns segundos em silêncio, Davi abaixou o olhar.

— A mãe da Luiza ajudou muito a minha família. Casar com ela é uma responsabilidade minha. Aqueles trinta e três incidentes... foram a minha forma de resistir. Mas agora eu preciso assumir o que me cabe. No futuro, só poder olhar para a Tatiana de longe já vai ser suficiente. Não ouso querer mais nada.

Cada palavra era como uma faca atravessando o coração de Luiza.

Ela precisou se apoiar na parede para não cair.

Sentiu o rosto arder levemente. Ao levar a mão até ali, percebeu que estava molhado de lágrimas.

Não teve coragem de continuar ouvindo.

Cambaleando, voltou para o quarto, o rosto tomado pelo choro.

Jamais imaginou que aqueles trinta e três acidentes tinham sido provocados por Davi.

Na primeira vez, acabou esfaqueada por engano no meio de uma briga.

Na segunda, foi mordida por uma cobra no jardim de casa e quase morreu envenenada.

Na terceira, Davi a levou para uma trilha na montanha.

Ela caiu e passou meio mês na UTI.

......

E tudo isso... porque Davi não queria se casar com ela.

O noivado entre Luiza e Davi havia sido decidido quando ela ainda tinha dez anos.

Naquela época, a família Albuquerque enfrentava uma investigação e corria risco de prisão.

Foi sua mãe, Fernanda, contadora, quem assumiu toda a culpa, permitindo que a família atravessasse a crise.

Por isso, o avô de Davi a levou para a Mansão dos Albuquerque, oficializou o noivado entre os dois e garantiu a ela um futuro seguro.

Desde pequena, todos na família Albuquerque, inclusive o próprio Davi, sempre a trataram muito bem.

Apoiaram tudo o que ela quis fazer, até mesmo a banda, algo visto com desprezo pela alta sociedade.

Ainda assim, permaneceram ao lado dela.

Por isso, Luiza acreditou, sem a menor dúvida, que havia amor entre eles.

Nunca imaginou que fosse apenas responsabilidade... e que, no coração de Davi, já existia outra pessoa.

A dor surda em seu peito se transformou em lâminas que revolviam por dentro, se espalhavam pelo corpo e puxavam todas as feridas.

Dez minutos depois, Davi entrou para fazer a limpeza dos ferimentos.

Ao notar seus olhos levemente avermelhados, se surpreendeu por um instante.

— O que houve? As feridas voltaram a doer?

Ao ver aquela expressão preocupada, a mente de Luiza se encheu de uma única palavra: responsabilidade.

Aquilo a atravessava como um espinho, apertando seu coração até doer.

Ela sempre teve uma sensibilidade à dor acima do normal.

Por isso, até mesmo para limpar os ferimentos, precisava de anestesia.

Quando Davi se preparava para aplicar o anestésico, o celular dele tocou.

Ele deixou a medicação de lado e atendeu.

Luiza fixou o olhar no chaveiro pendurado no celular dele, um pequeno pingente de desenho animado, e, sem querer, mergulhou nas lembranças.

Na primeira vez em que sua banda venceu uma competição, o prêmio foi um pingente.

Feliz, ela o entregou a Davi.

Mas ele apenas jogou o objeto no fundo de uma gaveta.

— Isso é infantil demais. — Ele disse, franzindo a testa.

Agora, porém, no celular dele, havia um pingente idêntico ao de Tatiana.

Ele balançava de um lado para o outro, e aquele movimento feria os olhos de Luiza.

A voz do outro lado da ligação ecoou no silêncio do quarto. Era Tatiana.

— Davi, tem um paciente aqui e eu ainda não tenho muita experiência... você pode vir me ajudar?

Assim que ouviu aquilo, Luiza percebeu com clareza que a aura ao redor de Davi mudava, mais leve, quase feliz.

— Claro, estou indo agora.

A voz dele carregava animação.

Antes, Luiza acreditava que era apenas cuidado com uma estagiária.

Agora, olhando de novo, tudo fazia sentido, cada detalhe revelava o que ele realmente sentia.

Davi desligou o telefone.

Sua mão ignorou o anestésico e pegou diretamente os instrumentos para limpar os ferimentos.

Uma dor violenta atravessou o corpo de Luiza.

Sua cabeça girou, e o suor frio escorreu como chuva.

Com a voz trêmula, ela disse:

— Davi... você ainda não aplicou a anestesia...

Ele não parou. Sem dar muita atenção, respondeu:

— Assim é melhor. A anestesia pode interferir no tratamento. Aguenta um pouco.

A dor era tão intensa que seu corpo começou a tremer.

Os dedos se cravaram no lençol, quase rasgando o tecido.

A voz saiu em súplica:

— Aplica a anestesia, por favor... Está doendo demais...

Ele apenas acelerou os movimentos:

— Aguenta mais um pouco, já vai acabar.

Alguns minutos depois, terminou a limpeza e largou os instrumentos na bandeja.

Luiza já não tinha mais forças, caída sobre a cama.

No campo de visão embaçado, viu apenas os passos apressados de Davi deixando o quarto.

Na verdade, a anestesia não interferia em nada no tratamento.

Ele só queria ir mais rápido até Tatiana, a ponto de não querer esperar nem cinco minutos pelo efeito do remédio.

Naquele instante, o coração de Luiza pareceu ser triturado por lâminas.

As lágrimas escorreram pelos cantos dos olhos, molhando o lençol.

A dor intensa continuava consumindo ela.

Até que, de repente, tudo escureceu diante de seus olhos, e ela perdeu a consciência.
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