Mundo de ficçãoIniciar sessãoValentina ficou imóvel.
Seu olhar alternava entre Leonardo e os homens de terno que ocupavam a entrada da pequena clínica. Todos estavam armados. Não escondiam isso. E o mais assustador era a forma como o encaravam.
Com respeito.
Com lealdade.
Quase com devoção.
O homem que havia falado deu mais um passo à frente e abaixou a cabeça.
— Chefe, a área já foi isolada. Eliminamos qualquer registro das câmeras próximas ao local do atentado. Também encontramos o carro usado pelos atiradores, mas foi abandonado.
Leonardo permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— E o traidor?
— Ainda estamos procurando. Mas temos uma suspeita.
Os olhos escuros de Leonardo ganharam um brilho frio.
— Então vocês já perderam tempo demais.
A tensão na sala aumentou. Nem mesmo o doutor Augusto teve coragem de interromper.
Valentina sentiu um nó na garganta.
Aquilo não era uma reunião de executivos preocupados com a segurança do presidente de uma empresa. Era algo completamente diferente. Os homens diante dela agiam como soldados recebendo ordens de um comandante.
E ninguém ousava questioná-lo.
Leonardo finalmente desviou a atenção para ela.
— Doutor Augusto, agradeço pela discrição.
O médico ajeitou os óculos.
— Não faço perguntas quando uma vida está em risco. Mas espero que a moça não tenha problemas por ter ajudado o senhor.
Os homens de preto trocaram olhares discretos. Um deles parecia pronto para responder, mas Leonardo levantou a mão, fazendo-o se calar.
— Ela não terá.
A resposta foi firme.
Valentina cruzou os braços.
— O senhor tem certeza? Porque, pelo que vi hoje, pessoas armadas estavam tentando matar você. E agora eu sou a única testemunha de tudo isso.
O homem que estava ao lado de Leonardo deu um passo à frente.
— Senhorita, o melhor para a sua segurança é esquecer o que aconteceu.
Ela ergueu o queixo.
— Eu não estou falando com você.
O segurança pareceu ofendido, mas Leonardo o conteve com um simples olhar.
Então, para surpresa de todos, ele caminhou até Valentina.
— Você é corajosa.
Ela soltou uma risada sem humor.
— Não. Eu só tive um dia horrível e acabei tomando decisões impulsivas.
A resposta fez Leonardo observá-la com mais atenção.
A maquiagem borrada denunciava que ela havia chorado. Os olhos ainda estavam vermelhos, e havia uma tristeza difícil de esconder.
Ele havia notado isso desde o momento em que entrou no carro.
Uma mulher que acabara de ser destruída pela vida e, mesmo assim, decidiu salvar um desconhecido.
— O que aconteceu com você? — perguntou ele.
Valentina ficou surpresa com a pergunta.
Por um instante, pensou em ignorá-la. Afinal, não devia satisfações àquele homem misterioso. Mas alguma coisa na forma como ele a encarava fez a muralha que ela tentava manter de pé rachar.
— Descobri que meu noivo me trai.
Leonardo não desviou o olhar.
— Com quem?
Ela respirou fundo.
— Com a minha irmã.
Os homens atrás dele trocaram olhares discretos. Até o doutor Augusto pareceu sentir pena dela.
Leonardo, no entanto, continuou completamente sério.
— Ele sabia que vocês iam se casar?
— Faltam vinte dias para a cerimônia.
O silêncio que se seguiu foi quase sufocante.
Valentina passou a mão no rosto, tentando esconder a vergonha.
— Desculpe. Você não deve estar interessado em ouvir os problemas de uma desconhecida.
— Eu perguntei porque queria saber.
Ela não soube o que responder.
Um dos celulares dos seguranças tocou. O homem atendeu, ouviu por alguns segundos e caminhou rapidamente até Leonardo.
— Chefe, sua mãe já foi informada. Ela exigiu que o senhor volte para a mansão imediatamente.
— Diga que voltarei quando decidir.
— Ela também disse que os outros líderes estão esperando.
Valentina franziu a testa.
Outros líderes?
Quanto mais escutava, mais estranho tudo parecia.
Leonardo ignorou o recado e voltou sua atenção para ela.
— Onde você mora?
— Na casa dos meus pais.
— E eles sabem da traição?
Ela abaixou os olhos.
— Acho que sim.
— Acha?
Valentina respirou fundo antes de responder:
— Minha irmã nunca faria isso escondida deles. E, olhando para trás, percebo que algumas atitudes eram estranhas. Eles sempre davam um jeito de justificar a proximidade dos dois.
Leonardo fechou a expressão.
— Então eles escolheram um lado.
Ela sentiu as lágrimas ameaçarem voltar.
— Parece que sim.
Ele ficou em silêncio, como se estivesse refletindo sobre aquelas palavras.
Depois, tirou um cartão preto do bolso do paletó e o entregou a ela.
Não havia nome. Apenas um número de telefone gravado em letras prateadas.
— Se alguém tentar machucar você, ligue.
Valentina pegou o cartão, confusa.
— Por quê?
— Porque você salvou a minha vida.
Ela quase devolveu o objeto.
— Eu não fiz isso esperando recompensa.
— Não é uma recompensa.
Leonardo aproximou-se mais um passo.
Sua voz saiu baixa, mas carregada de uma autoridade impossível de ignorar.
— É uma garantia.
Antes que ela pudesse perguntar o que aquilo significava, um dos homens abriu a porta da clínica.
Lá fora, uma fila de carros pretos aguardava.
Os seguranças formaram um corredor para que Leonardo passasse. Ele caminhou até a saída, mas parou ao alcançar a porta.
Sem olhar para trás, disse:
— A partir de hoje, ninguém toca em Valentina Moreira.
O homem que parecia comandar os seguranças respondeu imediatamente:
— Sim, chefe.
Ela arregalou os olhos.
— Espera... eu não preciso de proteção!
Leonardo finalmente virou o rosto.
Havia algo intenso em seu olhar, uma firmeza quase assustadora.
— Isso não depende de você.
E, sem dar qualquer explicação, entrou no carro.
A comitiva partiu poucos segundos depois, desaparecendo na escuridão da estrada.
Valentina permaneceu parada diante da clínica, segurando o cartão preto entre os dedos.
Ela não entendia quem era Leonardo Vasconcelos.
Não entendia por que um empresário precisava de homens armados, nem por que todos o chamavam de chefe com tanto respeito.
Mas uma coisa estava clara.
Naquela noite, ao salvar um desconhecido, ela entrou em um mundo do qual talvez nunca mais conseguisse sair.
E, a poucos quilômetros dali, sentado no banco traseiro de seu carro blindado, Leonardo observava a paisagem pela janela enquanto apertava o celular na mão.
— Descubram tudo sobre Valentina Moreira — ordenou.
O homem ao seu lado assentiu.
— Tudo, senhor?
Leonardo fechou os olhos por um instante, recordando a imagem dela enfrentando homens armados para salvá-lo.
Depois respondeu, em um tom que não admitia questionamentos:
— Tudo. Quem ela ama, quem a fez chorar... e quem vai pagar por isso.







