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Capítulo 4 — O Homem Mais Perigoso da Cidade

Valentina ficou imóvel.

Seu olhar alternava entre Leonardo e os homens de terno que ocupavam a entrada da pequena clínica. Todos estavam armados. Não escondiam isso. E o mais assustador era a forma como o encaravam.

Com respeito.

Com lealdade.

Quase com devoção.

O homem que havia falado deu mais um passo à frente e abaixou a cabeça.

— Chefe, a área já foi isolada. Eliminamos qualquer registro das câmeras próximas ao local do atentado. Também encontramos o carro usado pelos atiradores, mas foi abandonado.

Leonardo permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— E o traidor?

— Ainda estamos procurando. Mas temos uma suspeita.

Os olhos escuros de Leonardo ganharam um brilho frio.

— Então vocês já perderam tempo demais.

A tensão na sala aumentou. Nem mesmo o doutor Augusto teve coragem de interromper.

Valentina sentiu um nó na garganta.

Aquilo não era uma reunião de executivos preocupados com a segurança do presidente de uma empresa. Era algo completamente diferente. Os homens diante dela agiam como soldados recebendo ordens de um comandante.

E ninguém ousava questioná-lo.

Leonardo finalmente desviou a atenção para ela.

— Doutor Augusto, agradeço pela discrição.

O médico ajeitou os óculos.

— Não faço perguntas quando uma vida está em risco. Mas espero que a moça não tenha problemas por ter ajudado o senhor.

Os homens de preto trocaram olhares discretos. Um deles parecia pronto para responder, mas Leonardo levantou a mão, fazendo-o se calar.

— Ela não terá.

A resposta foi firme.

Valentina cruzou os braços.

— O senhor tem certeza? Porque, pelo que vi hoje, pessoas armadas estavam tentando matar você. E agora eu sou a única testemunha de tudo isso.

O homem que estava ao lado de Leonardo deu um passo à frente.

— Senhorita, o melhor para a sua segurança é esquecer o que aconteceu.

Ela ergueu o queixo.

— Eu não estou falando com você.

O segurança pareceu ofendido, mas Leonardo o conteve com um simples olhar.

Então, para surpresa de todos, ele caminhou até Valentina.

— Você é corajosa.

Ela soltou uma risada sem humor.

— Não. Eu só tive um dia horrível e acabei tomando decisões impulsivas.

A resposta fez Leonardo observá-la com mais atenção.

A maquiagem borrada denunciava que ela havia chorado. Os olhos ainda estavam vermelhos, e havia uma tristeza difícil de esconder.

Ele havia notado isso desde o momento em que entrou no carro.

Uma mulher que acabara de ser destruída pela vida e, mesmo assim, decidiu salvar um desconhecido.

— O que aconteceu com você? — perguntou ele.

Valentina ficou surpresa com a pergunta.

Por um instante, pensou em ignorá-la. Afinal, não devia satisfações àquele homem misterioso. Mas alguma coisa na forma como ele a encarava fez a muralha que ela tentava manter de pé rachar.

— Descobri que meu noivo me trai.

Leonardo não desviou o olhar.

— Com quem?

Ela respirou fundo.

— Com a minha irmã.

Os homens atrás dele trocaram olhares discretos. Até o doutor Augusto pareceu sentir pena dela.

Leonardo, no entanto, continuou completamente sério.

— Ele sabia que vocês iam se casar?

— Faltam vinte dias para a cerimônia.

O silêncio que se seguiu foi quase sufocante.

Valentina passou a mão no rosto, tentando esconder a vergonha.

— Desculpe. Você não deve estar interessado em ouvir os problemas de uma desconhecida.

— Eu perguntei porque queria saber.

Ela não soube o que responder.

Um dos celulares dos seguranças tocou. O homem atendeu, ouviu por alguns segundos e caminhou rapidamente até Leonardo.

— Chefe, sua mãe já foi informada. Ela exigiu que o senhor volte para a mansão imediatamente.

— Diga que voltarei quando decidir.

— Ela também disse que os outros líderes estão esperando.

Valentina franziu a testa.

Outros líderes?

Quanto mais escutava, mais estranho tudo parecia.

Leonardo ignorou o recado e voltou sua atenção para ela.

— Onde você mora?

— Na casa dos meus pais.

— E eles sabem da traição?

Ela abaixou os olhos.

— Acho que sim.

— Acha?

Valentina respirou fundo antes de responder:

— Minha irmã nunca faria isso escondida deles. E, olhando para trás, percebo que algumas atitudes eram estranhas. Eles sempre davam um jeito de justificar a proximidade dos dois.

Leonardo fechou a expressão.

— Então eles escolheram um lado.

Ela sentiu as lágrimas ameaçarem voltar.

— Parece que sim.

Ele ficou em silêncio, como se estivesse refletindo sobre aquelas palavras.

Depois, tirou um cartão preto do bolso do paletó e o entregou a ela.

Não havia nome. Apenas um número de telefone gravado em letras prateadas.

— Se alguém tentar machucar você, ligue.

Valentina pegou o cartão, confusa.

— Por quê?

— Porque você salvou a minha vida.

Ela quase devolveu o objeto.

— Eu não fiz isso esperando recompensa.

— Não é uma recompensa.

Leonardo aproximou-se mais um passo.

Sua voz saiu baixa, mas carregada de uma autoridade impossível de ignorar.

— É uma garantia.

Antes que ela pudesse perguntar o que aquilo significava, um dos homens abriu a porta da clínica.

Lá fora, uma fila de carros pretos aguardava.

Os seguranças formaram um corredor para que Leonardo passasse. Ele caminhou até a saída, mas parou ao alcançar a porta.

Sem olhar para trás, disse:

— A partir de hoje, ninguém toca em Valentina Moreira.

O homem que parecia comandar os seguranças respondeu imediatamente:

— Sim, chefe.

Ela arregalou os olhos.

— Espera... eu não preciso de proteção!

Leonardo finalmente virou o rosto.

Havia algo intenso em seu olhar, uma firmeza quase assustadora.

— Isso não depende de você.

E, sem dar qualquer explicação, entrou no carro.

A comitiva partiu poucos segundos depois, desaparecendo na escuridão da estrada.

Valentina permaneceu parada diante da clínica, segurando o cartão preto entre os dedos.

Ela não entendia quem era Leonardo Vasconcelos.

Não entendia por que um empresário precisava de homens armados, nem por que todos o chamavam de chefe com tanto respeito.

Mas uma coisa estava clara.

Naquela noite, ao salvar um desconhecido, ela entrou em um mundo do qual talvez nunca mais conseguisse sair.

E, a poucos quilômetros dali, sentado no banco traseiro de seu carro blindado, Leonardo observava a paisagem pela janela enquanto apertava o celular na mão.

— Descubram tudo sobre Valentina Moreira — ordenou.

O homem ao seu lado assentiu.

— Tudo, senhor?

Leonardo fechou os olhos por um instante, recordando a imagem dela enfrentando homens armados para salvá-lo.

Depois respondeu, em um tom que não admitia questionamentos:

— Tudo. Quem ela ama, quem a fez chorar... e quem vai pagar por isso.

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