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Capítulo 5 — A Filha Que Nunca Foi Escolhida

Valentina demorou alguns minutos para conseguir entrar no carro.

Ela ainda segurava o cartão preto que Leonardo lhe entregara. Passou o polegar sobre os números gravados, tentando entender por que um homem como ele se preocuparia com alguém que acabara de conhecer.

Aquilo não fazia sentido.

Ela era apenas uma funcionária do Grupo Vasconcelos. Uma mulher comum, com um casamento destruído e uma família que, ao que tudo indicava, jamais a enxergou como filha de verdade.

Guardou o cartão na bolsa e ligou o carro.

Durante o caminho de volta, seu celular tocou várias vezes.

Henrique.

Ela ignorou.

Poucos segundos depois, o nome de Lívia apareceu na tela.

Ignorou também.

Então veio a ligação de sua mãe, Beatriz Moreira.

Valentina respirou fundo antes de atender.

— Onde você está? — a voz da mãe saiu seca. — Henrique está desesperado atrás de você.

Ela quase riu.

— Desesperado? Ele estava muito ocupado beijando a Lívia quando eu saí.

Do outro lado da linha, houve um breve silêncio.

Um silêncio que confirmou tudo o que ela já suspeitava.

— Filha, você precisa entender que as coisas saíram do controle...

— Você sabia.

Não era uma pergunta.

Beatriz demorou alguns segundos para responder.

— Eu descobri há alguns dias.

Valentina sentiu o coração apertar.

— E não me contou?

— Eu estava tentando resolver a situação.

— Resolver como? Convencendo meu noivo a continuar comigo enquanto ele dormia com a minha irmã?

— Valentina! Cuidado com as palavras!

Ela estacionou o carro em um acostamento, incapaz de continuar dirigindo.

— Cuidado? A senhora quer que eu tenha cuidado? Eu encontrei os dois juntos, mãe! No quarto dela!

A voz de Beatriz mudou. Já não havia culpa, apenas impaciência.

— Você está fazendo um escândalo desnecessário. Henrique e Lívia se envolveram, isso é verdade, mas ninguém planejou machucar você.

As lágrimas voltaram a encher os olhos de Valentina.

— Ninguém planejou? Então por que todos esconderam isso de mim?

— Porque sua irmã passou por muita coisa. Ela acabou de recuperar a família que perdeu durante anos. Ela está fragilizada.

Valentina fechou os olhos.

Era sempre assim.

Lívia era a menina frágil.

Lívia era a filha que precisava de proteção.

Lívia era a prioridade.

E ela?

Ela era a filha que tinha obrigação de compreender.

— Eu também sou sua filha.

A frase saiu tão baixa que quase se perdeu no silêncio.

Beatriz suspirou do outro lado da linha.

— Você sabe que nós amamos você, mas a situação da Lívia é diferente. Ela é nosso sangue.

As palavras atravessaram Valentina como uma lâmina.

Ela ficou sem voz.

Durante anos, tentou ignorar os comentários, os pequenos gestos, as diferenças de tratamento. Convenceu a si mesma de que tudo estava apenas em sua imaginação.

Mas não estava.

Ela nunca foi igual.

Nunca ocupou o mesmo lugar.

Nunca foi escolhida.

— Entendi — respondeu, controlando o choro. — Obrigada por deixar isso tão claro.

Ela desligou antes que a mãe pudesse dizer mais alguma coisa.

Ficou alguns minutos parada, olhando para o vazio.

Lembrou-se do dia em que os Moreira a adotaram. Ela tinha apenas seis anos. O casal prometeu que ela jamais se sentiria sozinha outra vez. Cresceu acreditando naquelas palavras.

Até que a filha biológica voltou.

Lívia havia sido sequestrada quando bebê e encontrada muitos anos depois. A notícia emocionou a cidade inteira. Os jornais contavam a história do reencontro milagroso da família Moreira.

Ninguém contou que, depois daquele reencontro, a filha adotiva foi sendo apagada aos poucos.

Primeiro vieram os jantares em família sem que a chamassem.

Depois, as viagens nas quais não havia mais lugar para ela.

Então começaram as comparações.

"Lívia é mais espontânea."

"Lívia sofreu demais."

"Você é madura, Valentina. Precisa entender."

Ela sempre entendia.

Cedia.

Perdoava.

Aceitava.

Mas, naquela noite, algo dentro dela havia se quebrado.

Quando chegou à mansão, encontrou todos reunidos na sala principal.

Seu pai, Alberto Moreira, estava sentado na poltrona. Beatriz permanecia ao lado dele. Henrique andava de um lado para o outro, enquanto Lívia chorava no sofá, amparada pela governanta.

Valentina sentiu um gosto amargo na boca.

Parecia que a vítima era a irmã.

Assim que a viu, Henrique caminhou em sua direção.

— Meu amor, eu estava preocupado. Você desapareceu.

Ela deu um passo para trás.

— Não me chama assim.

— Eu sei que você está magoada, mas precisamos conversar.

— Conversar sobre o quê? Sobre qual dos dois começou a traição? Ou sobre quantas vezes vocês riram de mim enquanto eu organizava o nosso casamento?

Lívia levantou-se imediatamente.

— Eu nunca ri de você!

Valentina a encarou.

— Então me diz... em qual momento você decidiu roubar a minha vida?

Alberto bateu a mão na mesa de centro, interrompendo a discussão.

— Chega! Esta família já passou vergonha demais por hoje.

Valentina olhou para o homem que chamava de pai.

— Vergonha? O senhor está preocupado com a vergonha?

— Estou preocupado com o escândalo que isso pode causar. O casamento está anunciado, os convites foram enviados e Henrique faz parte dos nossos negócios.

Henrique aproveitou a oportunidade.

— Senhor Alberto tem razão. Nós podemos resolver isso com calma.

Valentina não acreditava no que estava ouvindo.

— Resolver? Como? Vocês esperam que eu finja que nada aconteceu?

Beatriz aproximou-se dela.

— Filha, pense com a cabeça fria. Você e Henrique têm uma história. Talvez seja apenas uma fase. Talvez ele esteja confuso.

Lívia abaixou a cabeça, fingindo chorar.

— A culpa é minha. Se vocês quiserem, eu vou embora.

Henrique imediatamente segurou a mão dela.

— Não! Você não vai a lugar nenhum.

Aquela cena foi suficiente.

Valentina deu um sorriso triste.

Agora ela enxergava tudo.

Os olhares.

Os silêncios.

As ausências.

Ela era a única que ainda não tinha entendido que seu relacionamento havia acabado muito antes daquela noite.

Sem dizer uma palavra, tirou do dedo a aliança de noivado.

Henrique arregalou os olhos.

— Valentina... não faz isso.

Ela caminhou até ele e colocou o anel na palma de sua mão.

— Você escolheu a pessoa errada para trair.

— Eu posso consertar tudo!

Ela balançou a cabeça.

— Não. O que você fez não tem conserto.

Virou-se para os pais.

— E vocês também fizeram uma escolha.

Beatriz deu um passo à frente.

— Filha...

— Não me chamem assim. Não esta noite.

Valentina subiu as escadas sem olhar para trás.

Entrou no quarto e trancou a porta.

Apoiou-se contra a madeira, sentindo as pernas fraquejarem.

Então abriu a bolsa para pegar um lenço e, sem querer, seus dedos tocaram o cartão preto que havia guardado.

Ela o encarou por alguns segundos.

"Se alguém tentar machucar você, ligue."

As palavras de Leonardo ecoaram em sua memória.

Valentina não fazia ideia de quem ele realmente era.

Não sabia por que homens armados o chamavam de chefe, nem por que ele parecia carregar o peso de uma guerra invisível.

Mas, naquele instante, enquanto toda a sua família ficava do outro lado da porta defendendo as pessoas que a destruíram, ela teve uma estranha sensação.

O homem mais perigoso que já conheceu... talvez fosse o único que realmente estivesse disposto a ficar ao lado dela.

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