Mundo ficciónIniciar sesiónValentina apertou o volante com tanta força que os dedos ficaram brancos.
Ela não podia estar enganada.
O homem caído no banco do passageiro, com a camisa encharcada de sangue, era Leonardo Vasconcelos. O presidente do Grupo Vasconcelos, dono de um dos maiores conglomerados empresariais do país. O homem que raramente aparecia na empresa e cuja presença bastava para deixar diretores e acionistas em silêncio.
Mas nada fazia sentido.
Por que um empresário estaria fugindo de homens armados? E por que se recusava a ir para um hospital?
— Você... é mesmo o senhor Leonardo? — perguntou, ainda sem acreditar.
Ele permaneceu calado.
O suor escorria por sua testa, e a respiração estava cada vez mais pesada. Ainda assim, mantinha a postura firme, como se a dor fosse algo com que estivesse acostumado a conviver.
— Continue dirigindo — disse, em tom baixo. — Não temos muito tempo.
Valentina deixou as perguntas de lado. Pisou no acelerador e seguiu em direção à pequena clínica do doutor Augusto, um médico aposentado que havia sido grande amigo de seu avô. O lugar funcionava discretamente nos fundos de uma antiga casa, longe do movimento do centro da cidade.
Quase vinte minutos depois, ela estacionou diante do portão.
Saltou do carro e começou a bater desesperadamente.
— Doutor Augusto! Abra, por favor!
Alguns segundos depois, um senhor de cabelos grisalhos apareceu na varanda, usando óculos e um velho casaco de lã.
— Valentina? O que aconteceu?
— Eu preciso da sua ajuda. Tem um homem ferido no carro.
O médico correu até o veículo. Quando abriu a porta do passageiro e viu o sangue, sua expressão mudou completamente.
— Ele levou um tiro.
— O senhor consegue ajudar?
Doutor Augusto olhou para Leonardo, que ainda estava consciente.
— Preciso levá-lo para dentro agora.
Os dois conseguiram ampará-lo até a sala de atendimento improvisada. Leonardo cambaleou, mas recusou qualquer demonstração de fraqueza. Apenas se apoiou na parede enquanto o médico separava os instrumentos.
— Vou precisar cortar a camisa — avisou o doutor.
Leonardo fez um leve movimento afirmativo.
Valentina desviou o olhar por respeito, mas acabou notando uma marca escura em seu ombro. Era uma tatuagem parcialmente escondida, formada por uma serpente enrolada em uma adaga.
Havia algo estranho naquele símbolo.
Antes que pudesse observar melhor, o médico pediu:
— Valentina, preciso que me ajude. Pegue aquelas compressas e mantenha a luz apontada para o ferimento.
Ela se aproximou.
Nunca teve medo de sangue, mas a quantidade que escorria da lateral do abdômen dele era assustadora.
— A bala atravessou de raspão — explicou o médico. — Com sorte, não atingiu nenhum órgão vital.
Leonardo não soltou um único gemido.
Enquanto o doutor limpava o ferimento, ele mantinha os olhos fixos em Valentina. Um olhar intenso, quase desconcertante.
— Você devia ter ido embora — falou de repente.
— E deixar você morrer naquela rua?
— Sim.
Ela balançou a cabeça.
— Eu não conseguiria viver com isso.
Algo mudou na expressão dele. Foi rápido, quase imperceptível, mas Valentina teve a sensação de que aquela resposta o atingira de um jeito inesperado.
Após quase uma hora, o curativo estava feito.
— Você teve muita sorte — disse o médico. — Mas vai precisar de repouso absoluto por alguns dias.
Leonardo apenas ajeitou a manga do paletó sobre o curativo improvisado.
— Agradeço pela ajuda.
Então, levou a mão ao bolso interno do casaco para pegar a carteira, mas Valentina o interrompeu.
— Não precisa.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Está recusando dinheiro?
— Eu ajudei porque era o certo.
O silêncio tomou conta da sala.
Doutor Augusto observou os dois, curioso, mas preferiu não comentar nada.
Naquele instante, um celular começou a tocar.
Era o telefone de Leonardo.
Ele olhou para a tela e atendeu imediatamente.
— Fale.
A voz do outro lado parecia aflita. Valentina não conseguiu entender as palavras, mas viu o rosto dele endurecer.
— Não. Ninguém deve saber onde estou... E encontrem o traidor antes do amanhecer.
Traidor?
Ela sentiu um arrepio.
Leonardo desligou a ligação e guardou o aparelho. Quando levantou a cabeça, encontrou o olhar inquieto dela.
— O que está acontecendo? — perguntou. — Quem eram aqueles homens?
Ele demorou alguns segundos para responder.
— Quanto menos você souber, mais segura estará.
— Eu já estou envolvida! Quase morri junto com você!
Leonardo caminhou até ela, ignorando a própria dor. Parou tão perto que Valentina conseguiu sentir o perfume amadeirado que ainda permanecia em sua roupa.
— Justamente por isso, escute com atenção.
A voz dele saiu baixa e firme.
— A partir desta noite, se alguém perguntar, você nunca me viu. Nunca me ajudou. Nunca esteve naquela rua.
Ela sustentou o olhar dele.
— E se eu não aceitar?
Um pequeno sorriso surgiu no canto dos lábios de Leonardo. Não era um sorriso gentil. Era o sorriso de um homem acostumado a dar ordens.
— Você vai aceitar.
Antes que ela pudesse responder, faróis iluminaram as janelas da clínica.
Três carros pretos pararam diante do portão.
As portas se abriram ao mesmo tempo, e vários homens de terno desceram rapidamente. Todos carregavam a mesma postura séria e disciplinada.
O primeiro deles entrou na casa e abaixou a cabeça diante de Leonardo.
— Chefe... encontramos o senhor.
Valentina ficou imóvel.
Chefe?
O homem continuou:
— A família inteira já sabe do atentado. Seus irmãos estão reunidos e aguardam suas ordens. O traidor será encontrado antes do nascer do sol.
Ela voltou o olhar para Leonardo, completamente sem reação.
Na empresa, ele era conhecido como um empresário brilhante e reservado.
Mas, naquele momento, cercado por homens armados que o tratavam com absoluta reverência, Valentina percebeu que havia salvado alguém muito maior... e muito mais perigoso... do que imaginava.
E teve a estranha sensação de que aquele encontro não terminaria naquela noite.







