Virei-me para evitar o toque dele.
— Achei que você fosse passar a noite inteira com a Eunice. Afinal, ela ainda é uma estudante e não consegue viver sem você.
A luz do quarto foi acesa de repente, ofuscando meus olhos.
Gustavo saiu da cama e falou em um tom impaciente.
— Wilma, você precisa mesmo falar com esse tom sarcástico? Já te expliquei várias vezes que vejo a Eunice apenas como uma irmã mais nova. Não existe nada entre mim e ela.
Não respondi nada. Apenas peguei meu celular e mostrei a ele uma postagem que Eunice havia feito no Instagram.
Na foto, a família de Gustavo e a família de Eunice apareciam em perfeita harmonia dentro da sala que estava reservada para nós.
Na imagem, Gustavo estava de cabeça baixa descascando camarões para ela. Eunice se inclinava para tocar o rosto dele.
Os dois estavam tão próximos que pareciam grudados.
A legenda dizia: [Encontro das famílias! O homem que financiou meus estudos por anos vai se tornar meu marido!]
Segurei o celular e olhei para ele de forma direta.
— Vocês sabem mesmo aproveitar os recursos. Eu passei uma semana escolhendo o restaurante. Num piscar de olhos, o local se transformou no lugar onde vocês discutem o próprio casamento.
O rosto de Gustavo mudou levemente. Ele franziu a testa e tentou se justificar.
— Eu não sabia que ela tinha postado isso. Vou ligar para ela apagar agora mesmo.
— Além disso, Eunice deve ter ouvido que nossas famílias iam discutir o casamento. Ela só estava curiosa e postou isso de brincadeira.
— Ela é só uma criança e não entende dessas coisas. Você será a cunhada dela, deveria ser mais compreensiva e parar de implicar com tudo.
Dei uma risada irônica.
— Uma criança de vinte e três anos? Por que você simplesmente não a chama de bebê de uma vez?
Gustavo bagunçou o cabelo com frustração.
— Nós vamos nos casar em breve e eu não quero brigar com você. Vou dormir no escritório esta noite. Só volto quando você parar de fazer drama sem motivo.
A porta do quarto foi batida com força, o que acabou acordando meus pais.
Eles saíram apressados e perguntaram o que havia acontecido.
Balancei a cabeça, disse algumas palavras para confortá-los e pedi que voltassem a dormir.
No dia seguinte, acordei bem cedo. Como esperado, meus pais já estavam na sala de estar e tinham preparado o café da manhã.
Sobre a mesa, estavam as pimentas que trouxeram da nossa terra natal. Era algo que eu adorava comer desde pequena.
Gustavo saiu do escritório com uma expressão péssima.
Meus pais hesitaram por um momento, mas ainda assim o chamaram calorosamente para comer.
No entanto, o homem franziu a testa no mesmo instante.
— O que vocês estão fazendo aqui?
O olhar dele passou pelas pimentas na mesa. Ele tampou o nariz com repulsa.
— E que coisa nojenta é essa? A sala inteira está fedendo a isso. Aqui é a minha casa, não o interior de vocês. Podem ter um pouco de educação e parar de trazer qualquer lixo para cá?
Meus pais ficaram paralisados de vergonha na mesma hora, sem saber onde enfiar as mãos.
Minha mãe se apressou para recolher as pimentas da mesa, falando com pavor na voz.
— Desculpe, Gustavo. Eu lembrei que a Wilma gosta de comer isso desde criança, então trouxe. Não pensei direito. Vou guardar agora mesmo, por favor, não fique bravo...
Na pressa, uma tigela escorregou da mesa e caiu no chão.
Minha mãe encolheu o corpo, assustada. Ela olhou furtivamente para a expressão de Gustavo, sem saber o que limpar primeiro.
Meu pai permaneceu em silêncio. Ele caminhou com dificuldade, curvou o corpo frágil e se agachou para recolher os cacos.
Meus olhos começaram a arder de vontade de chorar.
Quando morávamos na nossa vila, meus pais sempre andavam com as costas eretas.
Se alguém me elogiasse por ser bem-sucedida, eles estufavam o peito de orgulho. Sorriam com humildade e agradeciam gentilmente pelos elogios.
Porém, desde que comecei a namorar Gustavo, eles passaram a agir sempre assim, cheios de cautela.
Não ousavam aceitar o dinheiro que eu enviava. Diziam para eu guardar e comprar presentes para os pais de Gustavo, para que não me olhassem com desprezo.
Nas festas de fim de ano, não me deixavam comprar nada para eles. Pelo contrário, quando eu ia embora, preparavam um monte de produtos locais para eu dar aos pais dele.
Mesmo depois de levarem um bolo da família de Gustavo, eles não ousaram ficar bravos. Só tinham medo de que eu fosse maltratada no futuro.
Caminhei até lá e os impedi de continuar. Minha voz saiu um pouco rouca e embargada.
— Pai, mãe, vão comer primeiro. Eu limpo isso. E não precisam guardar as pimentas, porque eu adoro comer isso.
Eles ainda quiseram ajudar, mas eu os obriguei a sentar à mesa com firmeza.
Gustavo se virou e me viu. Sua expressão endureceu por um momento antes de ele tentar se explicar, gaguejando.
— Não foi isso que eu quis dizer. Eu tenho rinite e não suporto cheiros fortes. Você sabe disso.
Eu o ignorei completamente. Apenas juntei os cacos de porcelana do chão em silêncio e joguei na lixeira.
Gustavo me seguiu por toda parte. Ele abriu a boca várias vezes para falar algo, mas eu fingi que não o via.
Depois do café da manhã, eu planejava levar meus pais para passear em alguns pontos turísticos próximos. No entanto, recebi uma ligação repentina da empresa.
O projeto pelo qual eu era responsável apresentou problemas urgentes.
Gustavo tomou a iniciativa de falar.
— Pode ir trabalhar! Eu levo seus pais para passear, já que não tenho nada para fazer na empresa hoje.
Virei a cabeça para encará-lo. Gustavo desviou o olhar, desconfortável.
— Eu passei dos limites com aquelas palavras antes. Ainda estava irritado com a noite de ontem. Depois do casamento, seus pais serão meus pais também. Fique tranquila, eu prometo cuidar muito bem deles.
Lembrei que meus pais voltariam para casa comigo em três dias. Eles não podiam ter feito a viagem em vão, então acabei concordando com a ideia.
Quando terminei de resolver os problemas do projeto, já era noite.
Eu estava prestes a ligar para perguntar como tinha sido o passeio, mas meu celular vibrou.
Atendi a ligação e ouvi o choro desesperado da minha mãe.
— Wilma, venha rápido para o hospital. Seu pai se machucou e desmaiou...
Senti como se uma explosão ocorresse na minha cabeça. No momento em que me levantei, quase perdi o equilíbrio e caí.