Capítulo 6
Só na madrugada do dia seguinte Letícia conseguiu reunir um pouco de força para ir ao hospital tratar os ferimentos.

Ao ver o estado do corpo dela, até o médico se assustou.

O processo de limpeza e curativos levou três horas inteiras.

Ela suava frio de dor. Chegou a quebrar as unhas de tanto apertar, mas suportou até o fim.

Depois de dois dias de recuperação no hospital, as feridas começaram a cicatrizar.

Durante esse período, Nicole enviava várias mensagens provocativas todos os dias.

[Os nossos pais já concordaram em transformar o seu quarto em um quarto de bebê. Quando meu filho com o Samuel nascer, vai ficar lá. Quando você vai tirar suas coisas?]

[Hoje o Samuel foi comigo escolher o vestido de noiva. Gostei de vários, então ele comprou todos. Experimentei tantos sapatos que meus pés ficaram doloridos. Ele ficou com pena e até massageou minhas pernas.]

Ao ver nas fotos o olhar apaixonado de Samuel voltado para Nicole, os olhos de Letícia não demonstravam mais nada além de apatia.

Ela não respondeu nenhuma mensagem.

Depois que se recuperou, voltou para casa e começou a arrumar as malas.

Além de alguns documentos e itens essenciais, jogou fora todo o resto.

Ao ver aquilo, o mordomo se aproximou com cautela e falou em tom hesitante:

— Srta. Letícia, a Srta. Nicole pediu que você se mudasse para o porão. A iluminação lá não é boa, mas o espaço é grande... não precisa jogar tudo fora.

Letícia olhou para o quarto vazio e respondeu com indiferença:

— Não vou mais precisar dessas coisas. Pode jogar tudo fora. Eu vou sair do país em breve. Não volto mais.

O mordomo ficou surpreso, com o olhar tomado de espanto.

— A senhorita vai embora... e não volta mais?

Antes que pudesse continuar, a porta da sala se abriu.

Samuel entrou.

— Quem vai embora e não volta mais?

O mordomo ainda ia responder, quando Nicole saiu do quarto:

— Por que você chegou tão cedo? Eu ainda nem terminei de me maquiar.

Samuel não deu atenção a mais ninguém. Caminhou direto até Nicole e tocou levemente o nariz dela, em um gesto íntimo.

— Pode se arrumar com calma. Eu espero.

— Eu nunca consigo desenhar bem as sobrancelhas. Você pode me ajudar?

Os dois conversavam e riam enquanto voltavam para o quarto. Logo fecharam a porta.

Letícia desviou o olhar e puxou a mala já pronta.

Durante todo o resto do dia, Samuel e Nicole ficaram grudados, inseparáveis.

Ele preparou o café da manhã pessoalmente para ela, segurou ela nos braços e a alimentou colher por colher.

Assistiu a filmes ao lado dela, explicando detalhes da trama.

Abraçou ela na varanda, beijando com intensidade, deixando o batom dela manchar a camisa dele, com um olhar cheio de carinho...

Os empregados da casa viram tudo e comentavam entre si:

— A Srta. Nicole e o Sr. Samuel realmente se amam. Ainda nem se casaram, mas já vivem como recém-casados. Não conseguem ficar longe um do outro nem por um instante!

— A Srta. Nicole sempre foi mimada desde pequena. Agora que vai se casar com alguém tão apaixonado por ela, vai ficar ainda mais mimada. Realmente nasceu com sorte!

— Quem dá pena é a Srta. Letícia... sempre foi ignorada pela família. Quando finalmente se apaixonou por alguém, acabou sendo justamente o cunhado. Que azar...

Ouvindo aquelas palavras através da porta, Letícia abaixou o olhar.

No passado, ela já havia questionado o destino, perguntando por que tudo aquilo acontecia com ela.

Mas, depois de morrer uma vez, ela entendeu uma coisa: Se é algo que precisa ser disputado... então nunca foi realmente dela.

Isso valia para o amor dos pais.

E também para o amor de alguém.

Por isso, ela não se apegava mais.

Só queria ir embora.

E nunca mais voltar para aquele lugar onde só existia dor.
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