Só na madrugada do dia seguinte Letícia conseguiu reunir um pouco de força para ir ao hospital tratar os ferimentos.
Ao ver o estado do corpo dela, até o médico se assustou.
O processo de limpeza e curativos levou três horas inteiras.
Ela suava frio de dor. Chegou a quebrar as unhas de tanto apertar, mas suportou até o fim.
Depois de dois dias de recuperação no hospital, as feridas começaram a cicatrizar.
Durante esse período, Nicole enviava várias mensagens provocativas todos os dias.
[Os nossos pais já concordaram em transformar o seu quarto em um quarto de bebê. Quando meu filho com o Samuel nascer, vai ficar lá. Quando você vai tirar suas coisas?]
[Hoje o Samuel foi comigo escolher o vestido de noiva. Gostei de vários, então ele comprou todos. Experimentei tantos sapatos que meus pés ficaram doloridos. Ele ficou com pena e até massageou minhas pernas.]
Ao ver nas fotos o olhar apaixonado de Samuel voltado para Nicole, os olhos de Letícia não demonstravam mais nada além de apatia.
Ela não respondeu nenhuma mensagem.
Depois que se recuperou, voltou para casa e começou a arrumar as malas.
Além de alguns documentos e itens essenciais, jogou fora todo o resto.
Ao ver aquilo, o mordomo se aproximou com cautela e falou em tom hesitante:
— Srta. Letícia, a Srta. Nicole pediu que você se mudasse para o porão. A iluminação lá não é boa, mas o espaço é grande... não precisa jogar tudo fora.
Letícia olhou para o quarto vazio e respondeu com indiferença:
— Não vou mais precisar dessas coisas. Pode jogar tudo fora. Eu vou sair do país em breve. Não volto mais.
O mordomo ficou surpreso, com o olhar tomado de espanto.
— A senhorita vai embora... e não volta mais?
Antes que pudesse continuar, a porta da sala se abriu.
Samuel entrou.
— Quem vai embora e não volta mais?
O mordomo ainda ia responder, quando Nicole saiu do quarto:
— Por que você chegou tão cedo? Eu ainda nem terminei de me maquiar.
Samuel não deu atenção a mais ninguém. Caminhou direto até Nicole e tocou levemente o nariz dela, em um gesto íntimo.
— Pode se arrumar com calma. Eu espero.
— Eu nunca consigo desenhar bem as sobrancelhas. Você pode me ajudar?
Os dois conversavam e riam enquanto voltavam para o quarto. Logo fecharam a porta.
Letícia desviou o olhar e puxou a mala já pronta.
Durante todo o resto do dia, Samuel e Nicole ficaram grudados, inseparáveis.
Ele preparou o café da manhã pessoalmente para ela, segurou ela nos braços e a alimentou colher por colher.
Assistiu a filmes ao lado dela, explicando detalhes da trama.
Abraçou ela na varanda, beijando com intensidade, deixando o batom dela manchar a camisa dele, com um olhar cheio de carinho...
Os empregados da casa viram tudo e comentavam entre si:
— A Srta. Nicole e o Sr. Samuel realmente se amam. Ainda nem se casaram, mas já vivem como recém-casados. Não conseguem ficar longe um do outro nem por um instante!
— A Srta. Nicole sempre foi mimada desde pequena. Agora que vai se casar com alguém tão apaixonado por ela, vai ficar ainda mais mimada. Realmente nasceu com sorte!
— Quem dá pena é a Srta. Letícia... sempre foi ignorada pela família. Quando finalmente se apaixonou por alguém, acabou sendo justamente o cunhado. Que azar...
Ouvindo aquelas palavras através da porta, Letícia abaixou o olhar.
No passado, ela já havia questionado o destino, perguntando por que tudo aquilo acontecia com ela.
Mas, depois de morrer uma vez, ela entendeu uma coisa: Se é algo que precisa ser disputado... então nunca foi realmente dela.
Isso valia para o amor dos pais.
E também para o amor de alguém.
Por isso, ela não se apegava mais.
Só queria ir embora.
E nunca mais voltar para aquele lugar onde só existia dor.