"Adoro ver a colheita alheia. Principalmente quando sei que a pessoa plantou veneno e agora quer reclamar do sabor."
Quando Helena ergueu o olhar, reconheceu Júlia, uma das colaboradoras do setor de criação, parada à porta com a expressão levemente apreensiva.
— Desculpe, não queria atrapalhar.
Como a chamada já havia sido encerrada e ainda teriam uma hora de espera, Helena levantou-se sem hesitar.
— Não tem problema. Vamos ver do que precisam— disse com naturalidade, seguindo a jovem.
Lívia caminhou atrás das duas, em silêncio. Observava a cena com um contentamento quase orgulhoso. Helena se movia naquele espaço com uma segurança tranquila, ouvindo, opinando, sugerindo ajustes como alguém que pertencia ali — e pertencia de verdade. Não havia esforço, nem pose. Apenas competência reconhecida.
As pessoas a escutavam. Concordavam. Anotavam. Respondiam com respeito.
Lívia sempre soubera da capacidade da amiga, mas testemunhar aquilo — ver outros olhos enxergando o que ela sempre enxergar