Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV: Bella
Uma luz cortou meu rosto como se tivesse me atravessado com uma lâmina. Instintivamente, virei a cabeça, e tudo doeu, latejando como um porre brutal depois de uma noite que eu nem lembrava ter vivido. Merda. Um gemido escapou da minha garganta, rouco, confuso. Não lembrava de ter saído de casa. Nem de ter ido a algum lugar depois do último cliente. Nada fazia sentido. Estava tudo errado. "Não se mexa." A voz firme me congelou e um arrepio subiu pela minha espinha. Meu corpo se tornou refém dela antes mesmo de meu cérebro processar qualquer coisa. A claridade diminuiu e um armário repleto de frascos, vidros e remédios alinhados com precisão estava diante de mim, enquanto o cheiro de álcool e metal queimava minhas narinas. O bip constante, ritmado, invadiu meus ouvidos e no instante seguinte isso mudou, meu coração começando a disparar. Merda. Hospital? O que eu estava fazendo aqui e principalmente o que tinha acontecido? "O que aconteceu?" forcei minha voz, que saiu trêmula, fina demais, como se eu tivesse esquecido como se fala, enquanto eu virava o rosto para o som daquela voz. "Saia" A mesma voz ecoou, agora mais rouca, enquanto um homem se arrumava para acatar a ordem dada. E então veio o som dos passos, firmes e cadenciados, como se marcassem território. Primeiro vieram as pernas, musculosas, marcadas pela calça preta ajustada. Depois o tronco, mais largo coberto por umq camisa escura de botões, aberta na medida certa para revelar o peito definido e colar de ouro sobre pele bronzeada. Quando seu rosto finalmente surgiu na minha visão, parecia dificil respirar enquanto sentia a boca seca. Cabelos negros caíam de forma natural, as sobrancelhas grossas delineavam olhos castanhos claros profundos, difíceis de encarar, mas ao mesmo tempo familiar. O maxilar trincado, a barba bem aparada, os lábios sérios, tudo nele parecia esculpido. Meu corpo reagiu antes da consciência, eu devia estar concentrada, assustada, não… hipnotizada. "Eu estou curioso para saber também. Por que não começa a abrir a boca, cunhada?" Cunhada. A palavra ecoou dentro da minha cabeça, pesada, como se cada sílaba fosse um tapa e eu finalmente pudesse deixar de apreciar tanto sua aparência. Nada nele parecia com Anton. Tentei desviar o olhar, mas seus olhos impassíveis me puxaram, como se fosse a unica coisa que eu me lembrava, embora eu nem mesmo soubesse quem ele era. Até que, de repente, a memória me acertou de cheio. Anton ao telefone. A voz dele. A mentira dele. E então, o pior de tudo, meu namorado não existia do jeito que eu achava. Tudo o que eu sentira, tudo que acreditara, era uma farsa, e agora eu estava ao lado do irmão mafioso de alguém que eu achava sentir algo e eu pareço apenas uma bagunça ao invés de aterrorizada. "Tenho certeza de que não perdeu a audição" disse ele, aproximando-se devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo. "Então vou perguntar pela última vez: por que não me conta o que houve ontem?" "Eu... eu não sei" murmurei, sentindo algo esmagar meu peito. "Eu ouvi a conversa entre vocês dois, mas não consigo me lembrar do que aconteceu depois que eu soube…" minhas palavras falharam, rasgadas pela vergonha de admitir que eu havia acreditado nele. "Soube das mentiras" completou ele, devagar, saboreando cada sílaba, embora o olhar não acompanhasse. "É claro que você sabia" resmunguei, quase inaudível, para mim mesma. Como pude ser tão estúpida? Meus olhos arderam e só assim eu consegui desviar dos seus, percebendo o rosto molhado de lágrimas. Tentei secá-las embora fosse díficil. "Se quer respostas, deveríamos perguntar ao seu irmão. Eu sei tanto quanto você." Me obriguei a focar em qualquer ponto que não fosse o perigo em suas íris. Uma risada gélida escapou dele. Seus dedos tocaram meu queixo e me forçaram a voltar a olhar para ele. Um choque se apossou de cada veia em mim como uma corrente elétrica vinda apenas daquele gesto. Os olhos permaneciam vazios, mesmo que a forma com que me segurava parecia ter algo a mais que controle, talvez um pingo de dor, se é que isso fosse possível para alguém como ele. "Não há diálogo com alguém vegetando numa cama, sem data para acordar." Ele disse devagar. O ar fugiu dos meus pulmões. Minha garganta queimava. Meu coração parecia ter parado, o som dos bips quase reduzidos a zero. "O que?" Consegui dizer. "O carro...Não... não pode ser, eu não consigo lembrar como chegamos lá...." Eu podia sentir cada parte do meu coração se quebrar, enquanto algo em mim percebia que Leo deveria estar pior, era minha culpa. "Eu... eu sinto muito, Léo." As palavras saíram fracas, mas eu sabia que ele havia escutado, ergui o rosto para encontrar ele assistindo minhas lágrimas escorrerem, estudando cada reação ao ser machucada, parecendo satisfazer. "Eu não dou a mínima. Meu homem estava errado. Todos esses anos escondida atrás de livros, e ainda continua ignorante nas coisas mais simples." Respondeu calmamente. O tom de desprezo e um toque de diversão era notável, mas nada em mim conseguia se importar com isso. As lágrimas continuaram a rolar e ele finalmente resolveu se afastar. Leo andou o suficiente até estar entre duas poltronas e se serviu do uísque posicionado na mesa. As paredes, manchadas de vermelho agora estavam a mostra, mostrando sangue seco por elas. A realidade se encaixou, não era um hospital, ou qualquer coisa assim. Era um lugar que só Leo conhecia e mandava. Eu estava presa a um mafioso. "Não vai me deixar ir." Constatei, meu tom fraco, mas lutando para parecer firme. "Essa é sua ideia? Me salvar, me torturar, e então… me matar?" Soltei, enquanto meu cérebro forçava as imagens de como seria aquilo. Tiro? Faca? Eu não sabia qual seria o método, mas pela primeira vez, eu só queria que fosse o mais rápido possível. Ele sorriu sem dentes. A primeira vez que sua expressão mostrava algo. "Me livrar de você seria fácil." Aproximou-se outra vez "Ingênua, com no máximo um amigo, o namorado morto e rejeitada pela família." A memória do desprezo da minha mãe veio como uma lâmina. Cada palavra ainda vivia dentro de mim. Eu iria odiá-lo por isso se algo em mim não fosse tão traíra ao olhá-lo. "Eu tenho que confessar, por segundos quase me contentei com essa ideia medíocre. Até ver seus olhos implorarem por isso, como agora." "O que... quer de mim?" perguntei, depois de segundos em silêncio, a conciencia de que ele podia me ler perfeitamente, atingindo cada músculo. "Quero cada gota do seu arrependimento." Ele pausou. "E não vou parar até tê-las. Dentro de algumas horas, será minha esposa."






