A Queda

O anel pesava no dedo de Mariana como uma acusação enquanto Lucas a conduzia para o quarto. Ele a beijava com urgência ansiosa, as mãos tremendo ao desabotoar o vestido dela. Mariana se deixou levar, fechando os olhos, tentando sentir algo além do vazio.

Eles caíram na cama estreita, Lucas sobre ela,  missionário, sempre missionário. Ele a tocava com reverência, sussurrando o quanto a amava. Mariana respondeu mecanicamente, os gemidos saindo mais por hábito que por prazer.

Durou menos de três minutos.

Lucas se contraiu sobre ela com um gemido sufocado, o corpo tremendo, e desabou ao lado dela. Mariana ficou imóvel, olhando para o teto rachado.

— Desculpa, Mari — disse Lucas, virando-se para ela, a voz embaraçada. — Eu estava muito empolgado. Mas, quer que eu... você sabe... termine o serviço? Com a boca?

A forma como ele disse, termine o serviço, fez algo morrer dentro dela.

— Não, tá tudo bem — mentiu Mariana, virando-se de costas. — Estou cansada. Vamos dormir.

Lucas a abraçou por trás e adormeceu em minutos. Mas Mariana ficou acordada por horas, o anel apertando seu dedo, a culpa formando um nó em sua garganta.

Na manhã seguinte, Mariana chegou à mansão pontualmente às oito. Helena partira para um spa, ausente por três dias. A casa estava mais silenciosa. Mariana cuidou de Theo com o carinho de sempre. café da manhã, desenhos, histórias.

Então, ao meio-dia, Enzo chegou.

Mariana o ouviu antes de vê-lo, a voz grave no hall. Seu estômago se contraiu. Desde o incidente da porta entreaberta, eles não haviam se cruzado.

Enzo apareceu na sala de brinquedos, ainda de terno. Ele sorriu para Theo, que correu para abraçar as pernas do pai.

— Papai! Você voltou cedo!

— Voltei, campeão. — Enzo afagou os cabelos do filho, mas seus olhos já estavam em Mariana. — Como você está, Mariana?

— Bem, obrigada... Enzo.

Ela não conseguia olhá-lo nos olhos.

Enzo passou a tarde no escritório. Às quatro, chamou o mordomo e dispensou todos os funcionários mais cedo. Em meia hora, a mansão estava vazia, exceto por ela, Enzo e Theo.

Às seis, ela colocou Theo para dormir. O menino adormeceu rapidamente. Mariana ajeitou o cobertor e virou-se para sair.

Enzo estava parado na porta.

Mariana sufocou um grito.

— Quando Theo estiver dormindo — disse ele, a voz baixa —, venha ao meu escritório.

Não era um pedido.

Mariana ficou parada por cinco minutos, o coração batendo descompassado, a mente gritando para ela fugir. Mas seus pés a traíram, conduzindo-a escada abaixo, através dos corredores silenciosos, até a porta dupla do escritório.

Ela bateu levemente.

— Entre.

Enzo estava atrás da mesa, a gravata afrouxada, o paletó jogado sobre a poltrona. Ele a observou entrar, fechar a porta.

— Tranca.

As mãos de Mariana tremeram ao girar a chave. O clique ecoou como uma sentença.

Enzo se levantou, contornou a mesa. Parou a poucos centímetros dela, tão perto que Mariana sentia o calor de seu corpo, o cheiro amadeirado de seu perfume.

— Você me viu ontem. No quarto.

Mariana engoliu em seco.

— E não foi acidente, foi?

Silêncio.

— Responda, Mariana.

— Não — sussurrou ela. — Não foi acidente.

Enzo ergueu a mão, os dedos tocando levemente o queixo dela, inclinando seu rosto até que os olhos verdes encontrassem os castanhos.

— Você quer isso?

Mariana deveria dizer não. Deveria lembrar Lucas, o anel, a promessa. Deveria lembrar Helena, Theo, sua dignidade.

Mas a palavra que saiu foi:

— Sim.

Enzo a puxou para um beijo possessivo, dominador, uma reivindicação. Mariana gemeu, as mãos agarrando a camisa dele. Ele a ergueu sem esforço, sentando-a sobre a mesa, empurrando papéis para o lado.

Eles não tiraram toda a roupa, não havia tempo, não havia paciência. Enzo puxou o uniforme branco para cima, rasgou a calcinha dela. Mariana desabotoou a calça dele com dedos trêmulos.

E então ele estava dentro dela, preenchendo-a completamente, e Mariana gritou — não de dor, mas de um prazer que queimava. Enzo a segurou pelos quadris, o ritmo implacável, os olhos verdes cravados nos dela.

Mariana gozou pela primeira vez em menos de três minutos, o corpo arqueando, as unhas cravando nos ombros dele. Enzo não parou. Ele continuou, levando-a até a beira novamente, e novamente ela caiu, convulsionando, gemendo seu nome.

Só então Enzo se permitiu seguir, contraindo-se dentro dela com um gemido grave.

Eles ficaram assim por longos segundos, ofegantes, entrelaçados. Então a realidade voltou como uma onda gelada.

Mariana se afastou bruscamente, ajeitando o uniforme com mãos que tremiam. Não conseguia olhar para Enzo.

— Eu preciso ir — sussurrou ela.

Enzo não tentou detê-la. Apenas a observou se recompor, destrancar a porta, fugir.

Mariana chegou ao apartamento de Lucas às oito e meia. Ele estava na cozinha, fazendo macarrão, assobiando feliz. Quando a viu, seu rosto se iluminou.

— Mari! Olha, fiz aquele macarrão que você gosta!

Ele veio abraçá-la, beijando sua testa com ternura. Mariana se deixou abraçar, o corpo rígido, a culpa esmagando seu peito.

Ela ainda sentia Enzo dentro dela. Ainda sentia o gosto dele em sua boca. Ainda ouvia os próprios gemidos ecoando.

E ali estava Lucas, bom, fiel, inocente Lucas, sorrindo para ela com aquele amor incondicional que ela não merecia.

— Você tá bem? — ele perguntou, franzindo a testa. — Parece pálida.

— Estou bem — mentiu Mariana, forçando um sorriso. — Só cansada.

Ela se sentou à mesa, olhando para o anel em seu dedo, e sentiu algo quebrar dentro de si.

O que eu me tornei?

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