Mundo de ficçãoIniciar sessãoFazer dezoito anos na família Falcone não era um evento pessoal, mas uma declaração social. A festa de aniversário era um espetáculo meticulosamente orquestrado: champagne fluindo em taças de cristal, orquídeas brancas sobre mesas forradas de seda, e a nata da sociedade reunida para observar a "herdeira" fazer sua estreia formal no mundo adulto. Enquanto eu sorria para as câmeras ao lado dos meus pais, a sensação não era de alegria ou liberdade. Era de confirmação.
O mundo estava celebrando a data em que, finalmente, a lei me reconheceria como adulta. Mas meu corpo já tinha essa informação há anos. A intensidade que me definia — essa fome que era mais mente do que carne, mais curiosidade do que carência — estava contida, sufocada sob o espartilho da expectativa social. Ao completar dezoito, não me senti mais livre. Senti que o mundo havia parado de lutar contra mim, alcançando o que meu corpo já sabia: eu não era frágil demais para sentir. Eu era forte demais para fingir que não sentia. Naquela noite, eu era a anfitriã perfeita. Meus olhos azuis, normalmente elétricos, estavam calmos sob a luz suave do salão. Meu cabelo preto, longo e liso, emoldurava um rosto que parecia ouvir, mas que mal registrava o burburinho. Aquele luxo era um cenário. E, para que um ato de genuína autonomia acontecesse, eu precisava encontrar um ponto de fuga dentro da própria jaula de ouro. E foi ali, no meio daquele labirinto de formalidades e sorrisos falsos, que eu o vi: Arthur. Arthur Guedes não era apenas "mais velho". Ele era um pilar silencioso no círculo social dos meus pais, um amigo próximo de meu pai, um homem de negócios respeitado, sempre presente em jantares importantes. Ele tinha cerca de quarenta e poucos anos, cabelos grisalhos nas têmporas, e uma calma que era quase uma muralha. Mas o que me chamou a atenção, o que me fez senti-lo como o catalisador da minha escolha, foi seu olhar. Enquanto a maioria dos convidados me olhava como a "próxima grande coisa" — uma tela onde projetavam seus próprios desejos ou expectativas matrimoniais —, Arthur me olhava como quem observa algo raro. Não havia o desejo óbvio e predador. Havia algo mais perigoso: reconhecimento. Ele tinha um olhar curioso, atento, quase reverente. Não me olhou como quem consome. Me olhou como quem observa algo que está prestes a se quebrar, mas sabe que, na verdade, só está se libertando. Eu passei por ele, sorrindo de forma protocolar. — Arthur, que bom que veio. Papai estava ansioso — eu disse, a voz leve, educada. — Madison. É uma noite linda — ele respondeu, e a voz dele era baixa, grave, mas a beleza que ele descrevia não estava na decoração. Estava em mim. — Você está espetacular. — Obrigada. Quando me afastei, senti seu olhar me seguir, não com possessividade, mas com uma observação que atravessava todas as camadas de seda e conveniência social. Ele via o pulso acelerado sob a pele. Ele via a lucidez por trás do sorriso. Esperei mais duas horas, cumprindo meu papel, cortando o bolo, fingindo interesse nos presentes caros. À meia-noite e vinte, quando o ritmo da festa começou a decair e a atenção dos meus pais se voltou para os últimos clientes importantes, eu agi. Passei pela adega, que levava a uma pequena biblioteca pouco usada, destinada a conversas privadas e charutos. O local era forrado de madeira escura e cheirava a couro e velhas ambições. Eu sabia que Arthur estaria lá, como sempre estava, buscando o silêncio para uma taça de vinho e reflexão. Ele estava de costas, observando os livros. Quando me aproximei, ele não se assustou. — A aniversariante está fugindo da própria festa? — ele perguntou, sem se virar, como se soubesse que eu estava ali antes que eu entrasse. — Estou buscando um pouco de honestidade no meio do caos — respondi, fechando a porta com um clique que isolou o som abafado do piano e das risadas distantes. Ele se virou. O olhar dele estava ainda mais intenso na luz tênue. — E o que a honestidade de Madison Falcone está buscando? — Está buscando confirmação.






