02

O trajeto se tornou uma tortura. Em três ocasiões ele tentou arrancar dela um endereço coerente, mas Alisson só respondia com grunhidos sonolentos ou palavras mastigadas que se perdiam no ronco do motor.

— O que eu supostamente devo fazer com você? — perguntou-se, batucando os dedos no volante.

Ele apertou o volante com força. O que passou por sua cabeça foi que talvez pudesse deixá-la na calçada de algum hotel, mas a paranoia começou a corroer seu juízo. Se ela caísse, se alguém a roubasse ou se, por azar, a imprensa a encontrasse jogada após ter saído de seu carro, sua cabeça rolaria no conselho de administração. Era um problema que ele não queria enfrentar.

— Maldita seja a minha sorte — murmurou, desviando-se para a rampa privativa do seu prédio.

Ao chegar à sua vaga de garagem, o silêncio do motor desligado não a acordou. Massimiliano deu a volta no carro e abriu a porta do passageiro. Foi então que a luz branca da garagem iluminou a cena: Alisson tinha um arranhão sangrento no joelho, resultado da queda no asfalto. Uma linha vermelha escorria por sua perna pálida, manchando o estofado de couro.

— Acorda — pediu ele, balançando o ombro dela com brusquidão. — Não vou te carregar, mexa-se.

Alisson entreabriu os olhos, desfocada e profundamente mal-humorada.

— Me deixa... quero dormir. Julian, apaga a luz... — murmurou, tentando se encolher no banco.

— Não sou o Julian e este não é o seu maldito quarto. Fora! — Massimiliano perdeu a pouca paciência que lhe restava. Pegou-a pelos braços e a tirou do carro quase à força.

Ela soltou um gemido, cambaleando. Ele, paranoico, olhou para todos os lados procurando câmeras ou vizinhos curiosos. Praticamente a arrastou para o elevador privativo que levava direto à sua cobertura. Felizmente, não houve testemunhas.

Ao entrar no luxuoso apartamento, Alisson nem sequer reparou nas janelas do chão ao teto ou nos móveis de design italiano. Só via sombras turvas. Massimiliano a deixou cair no sofá de couro preto, mas ao ver que o sangue do seu joelho continuava pingando, soltou um suspiro de frustração. Não podia deixá-la assim; seu senso de ordem o impedia de permitir que ela manchasse sua mobília.

Foi buscar um kit de primeiros socorros. Quando voltou, encontrou-a rindo feito boba, tocando as estatuetas da mesa de centro com dedos desajeitados.

— Quieta! — ordenou ele com voz forte, e ela deu um sobressalto. Sentiu até os pelos se arrepiarem ao ouvir a voz dele, e uma sensação em forma de formigamento dentro do peito, mas o medo também era real.

Alisson se assustou, levantando a cabeça. Viu-o embaçado, porém imponente. De repente, só soube que precisava se afastar dele. Levantou-se tentando fugir, tropeçando nos próprios pés enquanto Massimiliano apenas a observava, tentando entendê-la.

— Tenho que sair daqui! Você me sequestrou! — acusou ela em um balbucio quase incompreensível, cambaleando em direção ao corredor.

Massimiliano a alcançou em dois passos largos. Foi muito fácil. Envolveu sua cintura, colando-a ao seu corpo sólido. Naquele momento, seus olhares se cruzaram. Ele viu a instabilidade naqueles olhos verdes vidrados e ela viu um par de safiras que a penetravam. A tensão foi tão profunda que Massimiliano quebrou o contato visual imediatamente, erguendo-a do chão para sentá-la sobre a mesa de jantar de mármore.

— Cale a boca e não se mexa — sentenciou.

Ele se ajoelhou entre as pernas dela e começou a levantar a saia do seu vestido para alcançar a ferida. Alisson engoliu em seco com dificuldade. Daquela altura, podia ver a perfeição do rosto dele: o cabelo escuro perfeitamente penteado, os cílios longos que emolduravam seus olhos intensos e aquela mandíbula viril que se tensionava a cada movimento. Ele limpava o joelho com uma delicadeza que não condizia com o tom de sua voz. E ela estava ali, sentindo-se cheia de emoções conflitantes.

— Devo estar no céu... só no céu existem anjos, embora você seja um... — sussurrou ela, perdida na névoa do álcool.

Massimiliano levantou a cabeça, erguendo uma sobrancelha com desprezo.

— No céu? Você deveria ficar calada, amanhã vai se arrepender de cada palavra — resmungou ele.

— Pode ser que você tenha razão... — emitiu ela baixinho, mas algo dentro dela se partiu. Estava farta de ser a boa moça, a melhor amiga ignorada, a funcionária perfeita.

Quando ele terminou e guardou o algodão, fez menção de tirá-la da mesa, mas Alisson foi mais rápida. Em um movimento impulsionado pela audácia da embriaguez, enganchou as pernas ao redor do quadril de Massimiliano e entrelaçou as mãos no pescoço dele, obrigando-o a ficar a centímetros do seu rosto.

— O que diabos você acha que está fazendo? — rosnou ele, com a voz se tornando perigosa.

— Não sei... — sussurrou ela sobre os lábios dele. — Talvez eu esteja cansada de ser a que sempre segue as regras. Quero sentir algo real, algo que me faça esquecer. Só quero viver o momento.

— Você perdeu o juízo! Só... — parou de falar porque ela colou os lábios nos dele.

Alisson o beijou. Foi um beijo cheio de desespero. Massimiliano tentou afastá-la por um segundo, mas o gemido que ela soltou contra a sua boca foi o estopim. Seu autocontrole, aquele do qual tanto se orgulhava nos negócios, virou pó. Ele investiu contra ela com uma fome que o surpreendeu a si mesmo.

— É isso que você quer? — questionou ele com a voz mais rouca que o habitual.

Alisson, fora de si e querendo apagar a lembrança de Julian, assentiu.

Ele a pegou no colo, desta vez com uma urgência elétrica, e caminhou até a suíte principal. Alisson sentiu que o mundo girava até que suas costas afundassem na maciez da colcha de seda. O contraste do frio dos lençóis com o calor do corpo de Massimiliano a fez arquear as costas.

Ele não parou. Suas mãos, antes delicadas com a ferida, agora eram possessivas. Beijou suas coxas enquanto as roupas desapareciam na penumbra do quarto. Alisson, longe de se assustar, exigiu mais daquelas carícias, enredando os dedos no cabelo escuro dele.

Para ela, tudo era uma descoberta nova, uma explosão de sensações que nunca havia sentido com ninguém. Para ele, que já tinha tido centenas de mulheres, aquilo parecia estranhamente diferente. Não era apenas sexo; era como se algo real estivesse derretendo o gelo dentro dele.

Naquela noite, entre os lençóis de seda, Alisson Harper entregou tudo de si a um estranho. A primeira vez que passava a noite com um homem, sentindo que estava nas nuvens para depois cair em queda livre.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App