O aroma de frango frito inundava o táxi, um cheiro que para Alisson Harper sempre fora sinônimo de comemoração, ainda mais quando se tratava de comer com ele, "seu melhor amigo", mas também a pessoa que ela amava em segredo. Em seu colo, ela segurava o saco de papel e algumas bebidas; naquele dia ela acabara de receber a notícia que tanto esperava: era a nova Diretora de Criação Sênior.
Ainda se sentia nas nuvens e achava que era um sonho, mas era, de fato, uma realidade.
Seu primeiro pensamento foi Julian. Seu melhor amigo, o homem que ela acreditava conhecê-la melhor do que ninguém. Alisson desceu do táxi em frente ao prédio dele, ignorando que a chuva começava a cair com força. Subiu pelo elevador com o coração batendo a mil por hora, convencida de que aquela noite marcaria um antes e um depois entre os dois.
Ao chegar à porta, não bateu. Com a confiança cega de quem se sente em casa, digitou seu código pessoal na fechadura eletrônica. Julian tinha lhe dado aquela senha, dizendo que ela jamais precisaria pedir permissão para entrar. Esse simples ato de digitar os números foi, na verdade, o início de sua ruína.
A porta se abriu com um clique quase inaudível. Alisson deu um passo à frente com um sorriso radiante, pronta para gritar a notícia, mas o ar congelou em seus pulmões quando ouviu ruídos vindos do quarto dele.
A porta estava entreaberta e ali ela pôde ver; ele estava completamente perdido em outra pessoa. As risadinhas e os gemidos da mulher loira que estava sobre ele fizeram seu estômago revirar. Ele estava de olhos fechados, com uma expressão de entrega absoluta que Alisson jamais tinha visto.
Sabia que não tinha o direito de ficar com raiva, mas, no fundo, quebrou-se por dentro, porque mantinha a esperança de um "amor de casal", muito além de uma relação limitada apenas à amizade que tinham.
O impacto foi tão físico que suas mãos perderam toda a força; o saco de papel bateu no chão com um baque surdo e as latas de bebida rolaram pela madeira, espalhando-se pela entrada.
Julian enrijeceu. Parou por um segundo, como se tivesse ouvido um eco, mas não se separou da mulher.
— Julian? O que foi isso? — sussurrou a loira, olhando de soslaio para a porta.
— Não deve ser nada... o vento, ou algum vizinho — soltou ele com a voz rouca, sem sequer se dar ao trabalho de levantar para verificar.
Alisson sentiu o estômago embrulhar. Vê-lo ali, tão indiferente, doeu intensamente. Sem mais, saiu dali com a alma em pedaços. Fechou a porta e, bem naquele momento, Julian decidiu finalmente verificar, mas a loira puxou seu braço para que terminasse o que havia começado.
Alisson desceu as escadas sentindo falta de ar e saiu na rua bem quando o céu desabava em uma tempestade feroz. Encharcada em segundos, com o sabor amargo da desilusão queimando seu peito, caminhou sem rumo. Estava sozinha, com uma promoção que agora parecia vazia e um coração que acabara de entender que nunca fora prioridade para ninguém.
Caminhou sob a chuva repentina e cruel até que seus pés ardessem, parando em uma loja de conveniência. Comprou mais álcool com o último resquício de lucidez que lhe restava; queria anestesiar o vazio. Sentou-se em algum lugar e bebeu até que a realidade se tornasse turva e sua dor se transformasse em uma raiva líquida e perigosa.
— Que se dane todo mundo! — gritou, cambaleando enquanto tentava atravessar a avenida principal.
Seus saltos escorregaram no asfalto molhado. As luzes da cidade noturna desapareceram diante da luz ofuscante daquele carro preto que cortava a noite em alta velocidade.
O guincho do freio atravessou seus ouvidos. Desorientada com o álcool e o choque de um quase impacto fatal, perdeu o equilíbrio, ralando os joelhos no asfalto. A porta do motorista se abriu com violência e Massimiliano Fitzwilliam desceu do carro, ignorando que seu terno de três peças estava sendo arruinado. Seu rosto estava cheio de fúria.
— Você... você me matou! — balbuciou Alisson, apontando para ele com um dedo trêmulo do chão, claramente fora de si. — Assassino!
— Assassino? — Massimiliano soltou uma gargalhada amarga e gélida enquanto se aproximava dela como um predador. — Escute bem, mulher, você se jogou contra o meu carro. Se tem um criminoso aqui, é você por colocar os outros em risco com seu corpo cheio de álcool, porque claramente você está bêbada, olha só para o seu estado. Levante-se agora mesmo!
Massimiliano olhou ao redor com um pânico calculado. Sabia que os repórteres o espreitavam atrás de rumores sobre qualquer coisa de sua vida, e estava farto. Qualquer escândalo seria a munição perfeita para seus inimigos. Ao ver que ela não se mexia, que estava causando problemas e que as buzinas não paravam de tocar, dirigiu-se ao carro, pensando em arrancar e deixá-la ali, fugindo de qualquer possível escândalo na mídia. Mas ela piorou tudo.
— Você não pode me deixar aqui, seu maldito assassino. Vou chamar a polícia! — gritou Alisson, tentando ficar de pé, mas cambaleando. — Vou te denunciar!
Assim que ela soltou aquilo, o alarme dentro dele disparou.
*"Amanhã você estará em todos os noticiários! O grande magnata deixa uma mulher morrer na lama!"* Pensou.
Mas ela estava apenas jogando ameaças ao vento. Então, ele se aproximou e a levantou de supetão; agora as luzes estavam sobre eles e, com certeza, a atenção de alguns também.
— Você não vai denunciar ninguém porque não faz ideia de com quem está falando — sibilou ele, segurando-a firmemente pelos ombros para estabilizá-la. — Olhe para mim. Acha que me importo com o seu chilique de bêbada?
— Socorro! Alguém me ajude! — exclamou ela, ignorando-o e fazendo com que alguns motoristas descessem de seus carros. Diante disso, Massimiliano soube que precisava evitar mais problemas.
— Chega! — rugiu Massimiliano, perdendo a paciência. Ele a colou ao seu corpo para abafar seus gritos, sentindo o calor de Alisson contrastando com a chuva gelada. Ela o olhou e tentou se soltar. — Não vou deixar você arruinar a minha vida. Entre no carro. Agora.
— Não vou... — murmurou ela, embora as pernas já não a sustentassem. Sem esperar resposta, ele a pegou no colo e a colocou no banco do passageiro. — Me solte logo, eu disse para me soltar.
Alisson se debateu por um segundo dentro do carro, tentando abrir a porta.
— Você não consegue ficar quieta? Maldição — sibilou, irritado.
— Me deixe sair!
Massimiliano inclinou-se sobre ela para colocar o cinto de segurança, ficando a milímetros de seus lábios. Ele a olhou com uma intensidade que faria qualquer um tremer.
— Se você tocar nessa maçaneta de novo, juro que te deixo no próximo posto de gasolina à própria sorte. Fique quieta e calada — cuspiu ele tão perto dela que Alisson prendeu a respiração e apertou as pernas por inércia.
— Você é... um ditador — sussurrou ela, soluçando, sentindo-se muito desorientada.
— E você é um desastre — rebateu ele, batendo a porta com força.
Massimiliano arrancou com um ronco do motor. Durante o trajeto, o silêncio era profundo. Ele dirigia com uma mão firme, lançando olhares de soslaio para aquela mulher que acabara de colocar sua reputação em risco. Ela, por sua vez, dedicou-se a chutar suavemente o painel de fibra de carbono.
— Não chute o carro — rosnou ele.
— Não devia ter me colocado no seu carro. Quem você pensa que é, hein? — balbuciou Alisson antes que o sono começasse a dominá-la.
E ele só pensava em se livrar dela o quanto antes. Mas o destino não tinha exatamente esses planos.