Músculos e Testosterona

Arabella Sinclair

Começando pela sua forma de se vestir. Não era exatamente formal. Usava uma camiseta preta, sem qualquer estampa, e uma calça da mesma cor, fugindo um pouco do padrão "homem do campo" com camisas de flanela e jeans surrados, bem comuns por ali. Apenas mais um dos caras daquela mesa também fugia daquele estilo, um que usava camisa polo branca e que eu já tinha conhecimento sobre ser um dos médicos do único hospital da cidade.

Eu estava há exatos sete dias em Silverwood e já tinha a impressão de conhecer ao menos metade da população dali. Claro que o fato de trabalhar em um bar, um ambiente regado a bebidas e conversas, ajudava nisso. Em uma noite de trabalho eu ouvia mais informações a respeito das pessoas dali do que meu cérebro seria capaz de registrar.

Mas aquele homem não parecia ser dali. Eu já tinha ouvido sobre alguns caras de sobrenome "Harrington" (um deles, aliás, era o médico da mesma mesa), mas ele tinha um ar de "morador de cidade grande" que destoava bastante do padrão de Silverwood.

Parecendo perceber que estava sendo observado, ele voltou seu rosto em minha direção e eu rapidamente desviei os olhos, tentando disfarçar. Os microssegundos em que nos fitamos foram o suficiente para que eu pudesse ver melhor os seus olhos em um tom cristalino de azul. Faziam um belo conjunto com seu sorriso, com o maxilar definido e a barba bem aparada. Junto com seus cabelos loiros, os ombros largos e os braços com músculos bem torneados visíveis sob as mangas curtas da camiseta formavam a imagem de alguém que, com toda a certeza, era um dos homens mais bonitos que eu já tinha visto pessoalmente em toda a minha vida.

Minha experiência pessoal com caras bonitos dizia que eles costumavam ser meio babacas e presunçosos. Mas esse não devia ser o caso dele. Talvez até pudesse ser presunçoso, mas definitivamente não parecia um babaca. Sujeitos babacas tinham o hábito de serem coniventes uns com os outros e raramente se dispunham a defender uma mulher desconhecida de um assédio.

Segui com meu trabalho, finalizando a limpeza da mesa e guiando até ela um novo grupo de clientes que chegava. Anotei os pedidos e os entreguei à irmã de Harold, que trabalhava na cozinha.

O ritmo por ali continuou acelerado até por volta de meia-noite, quando quase ninguém mais chegava e muitos já começavam a ir embora.

Foi apenas nesse momento que consegui parar algum tempo atrás do balcão e chequei meu celular, verificando inicialmente se havia alguma nova mensagem da minha avó. Provavelmente, ela já devia estar dormindo àquela hora, mas eu sempre gostava de verificar se estava tudo bem.

Encontrei, no entanto, uma mensagem do meu pai, enviada há duas horas, apenas me desejando boa noite e dizendo que me ligaria no dia seguinte. Era incrível o tanto que eu já sentia saudades dele em apenas alguns dias longe.

— Oi. — A voz grave arrancou a minha atenção do telefone e me fez levantar o rosto.

Do outro lado do balcão, estava o homem que tinha ocupado meus pensamentos (e alguns dos meus olhares) durante boa parte da noite. Seus quatro amigos vinham logo atrás dele.

— Ah... oi... — Me apressei em guardar o celular no bolso do avental. — Posso ajudá-los?

— Vamos fechar a conta da mesa sete — ele comunicou.

Seria apenas uma impressão minha, ou o olhar que ele me lançava era mais intenso do que o habitual para um cliente meramente pedindo sua conta?

— Claro... só um minuto, por favor.

Abaixei-me para pegar embaixo do balcão o caderno de anotações do Harold e a calculadora. Enquanto somava os valores, ouvi o Harrington (seria mesmo esse o sobrenome dele? Qual seria o primeiro nome?) avisando aos demais que as despesas daquela noite ficariam por sua conta. Houve risos e brincadeiras sobre ele agora ser um "riquinho de Nova Iorque", seguidos por despedidas. Quando voltei a me levantar, com o valor total já finalizado, os outros quatro já tinham ido embora.

Ele fez o pagamento com um cartão de crédito e pediu:

— Pode abrir uma nova conta agora? Acho que vou querer mais uma cerveja para fechar a noite.

— Ah, claro. Vai retornar para a mesma mesa?

— Não. Vou ficar por aqui mesmo. Se não for incomodar você.

A companhia dele me causava o extremo oposto de "incômodo".

Peguei mais uma garrafa de cerveja e a abri, colocando-a junto a um copo sobre o balcão.

— Então, eu só queria, antes de ir, checar com você se o parasita parou de te perturbar.

Segurei o riso, pensando que "parasita" era o apelido perfeito para Louis. No pouco tempo em que eu estava ali, já tinha percebido que o que ele menos fazia naquele bar era trabalhar. Tanto que ele já havia desaparecido dali há algum tempo.

— Ele já deve ter ido para a casa dormir, ou conseguiu alguma mulher para acompanhá-lo. — Peguei um pano para passar pela superfície do outro lado do balcão, que estava molhada.

— A primeira opção é mais certa. Não sei como ele ainda consegue sair com alguém. Já tinha fama de insuportável desde a escola.

— Você estudou na mesma escola que ele?

— Não na mesma turma, porque ele deve ser uns oito anos mais velho que eu. Mas como ele repetiu de série várias vezes, estivemos por lá na mesma época.

— Sério?

Ele pareceu achar graça da minha surpresa.

— Só temos uma escola em Silverwood, não são muitas as opções.

— É que... desculpe, achei que você não fosse daqui. Apesar de você e Louis se conhecerem, eu pensei que... Ah, desculpe, deixa para lá.

Fiquei um pouco sem graça ao me dar conta de que estava falando demais e com isso deixando muito evidente que durante as últimas horas tinha pensado tanto nele a ponto de fazer suposições sobre sua vida pessoal.

Ele tomou o primeiro gole de sua cerveja diretamente da garrafa, dispensando o copo. Depois sorriu levemente para mim e pediu:

— Pode falar. O que você pensou?

— Que tivesse familiares aqui, talvez os outros rapazes que estavam com você. Mas não que fosse...

— Um cidadão de Silverwood? Não me pareço com um?

— Sinceramente? Não muito.

Ele riu, como se aquela não fosse a primeira vez que ouvia aquilo.

— Fui embora há alguns anos. Quando terminei o colégio, consegui uma bolsa para a Universidade de Nova York e me mudei.

— Entendi então por que te chamaram de riquinho de Nova Iorque.

— Não sou um "riquinho", na verdade. Estou na faculdade graças a uma bolsa, mas recentemente abri um pequena empresa junto com dois amigos. As coisas estão indo bem, os perrengues financeiros diminuíram, mas... estamos ainda começando.

— Que legal. — Não era força de expressão para soar simpática. Eu realmente achava aquele tipo de história muito interessante. — Acho muito corajoso e admirável as pessoas que ousam recomeçar suas vidas em lugares tão diferentes das suas origens. Deve ser muito difícil ficar longe da família e dos amigos. Acho que eu me sentiria meio aterrorizada em uma situação como essa.

— Digamos que eu sempre tenha gostado de desafios. Mas você também parece estar vivendo um. Ouvi sobre você ser nova na cidade. E devo dizer que também existe uma boa dose de ousadia em alguém tão jovem que decide tentar a vida em um lugar como Silverwood.

Dessa vez eu não consegui conter o riso. Não era exatamente para "tentar a vida" que eu estava ali. Era algo mais parecido com "pausar a vida e adiar todos os planos por algum tempo".

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