Mundo de ficçãoIniciar sessão
💚 Dante:
O ar queimava nos pulmões, carregado de fumaça do teletransporte dos vampiros e o cheiro forte do sangue da batalha que escorria pela terra úmida e avermelhada. Gritos de guerra ecoavam por todo o campo de batalha, misturados ao som metálico de espadas se chocando, garras rasgando carne e rugidos de criaturas que há séculos se enfrentavam no Universo do Caos. A tensão era tão densa que parecia pesar sobre os ombros de todos, tornando cada movimento mais pesado e cada decisão mais urgente. Ao meu redor, lobos do meu clã lutavam com fúria, contra vampiros que se moviam como sombras letais, rápidos e silenciosos, atacando e desaparecendo antes que pudéssemos reagir. Nós éramos inimigos por natureza, separados por reinos e lealdades que pareciam imutáveis, como se estivessem gravados na própria essência do que éramos. Ao meu lado, meu irmão gêmeo Vergil mantinha a postura rígida, a espada erguida com a mesma destreza e precisão que eu, pronto para defender o nosso povo até o último instante. Desde que nascemos, nunca estivemos separados por muito tempo. Dividimos o útero, a infância, os treinamentos mais duros e dolorosos e, agora desde que alcançamos a idade imortal, a liderança do Clã MacLaren. Nós éramos duas metades da mesma força, servindo à Rainha Eliza do Gelo com uma devoção que nada parecia capaz de abalar. E entre nós, não existiam barreiras. Nossas mentes estavam sempre abertas uma para a outra, sem bloqueios, mesmo nos momentos de maior tensão ou perigo. Mas naquele momento, diante das muralhas que dividiam nossos territórios, algo mudou de repente, como se o próprio ar tivesse se alterado ao meu redor. Eu a vi. Ela estava parada do outro lado, firme e imponente, com cabelos vermelhos como brasas que dançavam com o vento e olhos cor de carmesim que pareciam perfurar minha alma até o fundo. Era Selena Rougefort, a líder da ordem vampira, implacável e conhecida por nunca deixar um inimigo de pé. Nossos olhares se cruzaram, e eu me preparei para atacar, certo de que aquela seria uma luta até a morte, sem espaço para piedade ou hesitação. No instante em que nossas espadas se aproximaram para se encontrar, um aroma invadiu minhas narinas de forma inesperada. Era suave, mas intenso: madeira antiga, fogo e uma doçura que não devia pertencer a uma criatura da noite. Eu parei por um instante, surpreso e confuso, e logo percebi que Vergil também havia ficado imóvel ao meu lado, como se tivesse sido atingido por uma força invisível. Você também sentiu isso? perguntei diretamente em sua mente, sem necessidade de palavras em voz alta, o barulho da batalha não o permitiria ouvir de outra forma. A ligação entre nós era tão forte que nenhum sentimento ou percepção de um passava despercebido ao outro. — Sinto. Veio a resposta, rosnada, imediatamente, carregada da mesma confusão e estranheza que eu sentia. É como se estivesse gravado em mim desde sempre, como se eu já conhecesse esse cheiro há séculos. No fundo da minha mente, a besta que eu sempre controlei com disciplina e força ergueu-se de repente, clamando com uma força que me deixou atordoado e sem saber como reagir. Companheira. A palavra ressoou dentro de mim, antiga e inquestionável, vinda de um lugar mais profundo que a razão. Minhas presas latejavam, e um desejo avassalador de provar sua pele, de marcá-la como algo que me pertencia, tomou conta de mim. Eu sempre imaginei que, quando chegasse o momento, eu teria a minha própria companheira, algo que seria só meu. Nunca passou pela minha cabeça que esse vínculo sagrado pudesse ser compartilhado com outra pessoa, nem mesmo com o meu irmão. 💙 Vergil: Eu não entendia o que se passava comigo. A raiva da batalha ainda queimava em meu peito, alimentada por anos de conflito e ódio entre as nossas raças, mas aquele cheiro… Aquele cheiro estava gravado em mim como se eu o conhecesse desde sempre, como se fizesse parte da minha própria carne. Dante já havia perguntado, e eu sabia que ele sentia exatamente o mesmo, pois a nossa ligação não permitia esconder nada. Nossas mentes nunca estiveram fechadas uma para a outra; mesmo quando discordávamos, não havia como esconder o que sentíamos ou pensávamos. A besta dentro de mim rugia, dividida entre o ódio por aquela que servia ao Rei do Fogo e uma atração que queimava mais forte que qualquer chama que eu já tivesse visto. Eu havia passado a vida inteira compartilhando tudo com Dante: o poder, as responsabilidades, o respeito e até os perigos constantes. Mas uma companheira? Isso era algo que eu esperava ter só para mim, algo que fosse exclusivo e meu. Dividir parecia errado, contra tudo o que eu sabia sobre a natureza do nosso povo. De repente, a confusão deu lugar ao instinto de proteção e à antiga hostilidade que eu havia aprendido a cultivar. Se ela era uma inimiga, não importava o que aquela voz dentro de mim dizia. O dever vinha antes de tudo, sempre. Ergui a espada com firmeza e avancei, pronto para acabar com aquilo antes que a loucura tomasse conta de nós. Devia ser alguma bruxaria, pensei, eu não permitiria que ela nos mantivesse cativos por encantos ou truques. — Não! A voz de Dante cortou o ar como um golpe seco. Num movimento rápido e preciso, ele colocou sua lâmina entre mim e ela. O aço bateu contra o meu com um estrondo que fez o chão tremer levemente. Pela primeira vez na vida, estávamos frente a frente como oponentes, já nos enfrentamos diversas vezes antes, porém foi sempre em forma de treinamento, nunca foi pra valer. Você perdeu a razão, irmão? — perguntei-lhe diretamente em pensamento, a mente aberta como sempre, mas carregada de fúria e indignação. Ela é nossa inimiga! Não podemos nos deixar levar por sensações estranhas que não fazem sentido! — Ela é a nossa companheira — respondeu ele com firmeza, dessa vez em voz alta, sem recuar nem desviar o olhar. — Não, ela não é uma loba, não pode ser nossa companheira, deve ser bruxaria para nos enganar. — Sinta, Vergil. É O Laço de Fogo e Ferro que se formou — explicou ele, com calma, mas com uma certeza que não deixava espaço para dúvidas. — Estamos em batalha, embaixo de uma lua cheia, como diz a antiga lenda. Nossas bestas não mentem, e a ligação entre nós dois confirma que sentimos a mesma coisa, você sabe que é verdade, assim como eu sinto aqui dentro.






